Eis aqui um álbum que podemos dizer que foi um divisor de águas para a carreira do Sepultura, a banda que havia gravado um ano antes “Morbid Visions” (1986), um disco essencialmente de Death Metal, passa a se aprofundar no estilo que os deixaria mundialmente conhecidos, o Thrash Metal.
Um fator fundamental para a mudança de estilo foi à troca de guitarristas que ocorreu ainda em 87, sai Jairo Guedez e entra Andreas Kisser, essa troca representou muito mais do que apenas uma alteração de formação, Andreas trouxe novas influencias para a banda, Heavy Metal tradicional e um estilo mais melódico e técnico.
Os irmãos Cavaleira por sua vez começavam a interessar-se cada vez mais por bandas Punk, a união de influencias e ideias citadas resultou em uma nova sonoridade para a banda, bem como em uma mentalidade mais madura, na gravação de “Morbid Visions” o que se percebe é que são quatro jovens que não se preocupam com estética ou até mesmo qualidade. Entretanto no segundo álbum dos mineiros já é possível ver uma banda muito mais profissional.
A gravação de “Schizophrenia” possui uma qualidade muito superior a de seu antecessor, até mesmo em comparação a outros registros nacionais da mesma época “Schizophrenia” se mostra com uma qualidade de produção acima da media, lembrando que estamos falando de um disco lançado pela Cogumelo na década de 80 e totalmente gravado no Brasil.
Com "Schizophrenia", o Sepultura também abandonou a temática satanista e passou a falar de temas como guerra, politica e sociedade. Tal mudança é relacionada diretamente com a entrada de Andreas, uma vez que todas as letras do álbum foram creditadas a ele em parceria com Max, a exceção de "To the Wall", escrita por Vladimir Korg (Chakal).
O álbum como um todo apresenta um conteúdo uniforme, apostando nos arranjos mais bem elaborados pela banda até então. Quanto ao instrumental, não é difícil concluir que o mesmo é bem superior ao que foi apresentado um ano antes, a bateria com doses de maior complexidade e potência, os riffs e solos se tornaram mais virtuosos e muito mais marcantes. O único adendo negativo fica por conta da voz de Max, o vocalista não evoluiu tanto na voz como evoluiu na guitarra base, o melhor desempenho vocal de Max ficaria para anos mais tarde quando gravaria “Beneath the Remains”(1989) e principalmente “Arise”(1991).
A afirmação vem do livro "Sepultura – Toda a História" (1999), de André Barcinski e Silvio Gomes, "Schizophrenia" foi o marco zero da profissionalização do Heavy Metal brasileiro, resume bem a importância do disco e garante o mesmo na estante de grandes clássicos do Metal nacional.”
Focando mais especificamente no Sepultura a banda foi extremamente feliz na decisão de mudar os rumos da carreira, este foi o primeiro dos muitos divisores de água que a banda ainda teria pela frente, além de ser o embrião do Thrash Metal vigoroso pelo qual a banda seria conhecida no Brasil e no Mundo.
Destaques para a clássica “Scape To The Void”, a Instrumental “Inquisition Symphony” e a regravação do que viria a ser um dos maiores clássicos do grupo em sua versão definitiva, é claro que me refiro a poderosa “Troops Of Doom”, que foi lançada como faixa bônus.
Toda vez que uma banda consagrada do cenário metálico anuncia que vai lançar um novo trabalho, o que ocorre? Simplesmente um alvoroço e tal alvoroço pode ter proporções cada vez maiores dependendo de qual é a banda. Pois bem! Quatro anos após o lançamento do intenso “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart” (2013), o Sepultura, indiscutivelmente a maior e mais emblemática banda do cenário nacional, retorna com um trabalho muito aguardado e ousado, “Machine Messiah”, o 14º álbum de estúdio da banda, lançado nessa última sexta-feira, 13 de janeiro, via Nuclear Blast Records. A produção desse novo registro foi realizada em parceria da banda com o produtor Jens Bogren (Kreator, Soilwork, Amon Amarth, Opeth), no Street Studios, em Orebro, na Suécia.
A primeira coisa que gostaria de pontuar nessa resenha é a seguinte: os irmãos Max e Iggor Cavalera não estão mais na banda. Sim, eles são os fundadores do Sepultura e nada do que fizeram será apagado, muito pelo contrário. Seja como for, vamos virar de uma vez por todas essa página. Outra coisa que é muito importante de ser ressaltada é, se você, caro leitor(a), busca ouvir um novo “Beneath the Remains” (1989), “Arise” (1991)” ou “Chaos A.D.” (1993), esqueça! O Sepultura nunca foi uma banda de gravar sempre o mesmo álbum e mesmo em sua formação clássica já se ousava muito, especialmente comparado com as demais bandas de Metal. Outro erro cometido por muitos é acreditar que a banda se encaixe em um rótulo. Ao longo de sua carreira, tocaram Death/Thrash Metal, Thrash/Groove Metal, Nu-Metal e Groove Metal com fortes influências de Hardcore e outras sonoridades, portanto tentar rotulá-los exclusivamente como uma banda desse ou daquele estilo é pura perda de tempo, não insista.
Tendo isso em mente, vamos ao que realmente importa que é o mais novo trabalho do grupo. Antes de ser lançado oficialmente, o guitarrista Andreas Kisser declarou o seguinte a respeito do álbum: “A principal inspiração em torno de “Machine Messiah” é a robotização da sociedade hoje em dia. O conceito de uma “Máquina Divina” que criou a humanidade e agora parece que este ciclo está se fechando, retornando ao ponto de partida. Nós viemos de máquinas e estamos indo de volta para de onde viemos. O Messias, quando ele voltar, vai ser um robô, ou um humanoide, nosso salvador biomecânico”. Em poucas palavras, “Machine Messiah” traz um Sepultura ainda mais ousado e experimentando novos conceitos e sonoridades. Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo), Eloy Casagrande (bateria) e Derrick Green (vocais) produziram uma obra consistente, poderosa e muito rica. A arte utilizada para a capa do álbum, a pintura “Deus Ex-Machina”, da artista filipina Camille Della Rosa, é simplesmente magnífica e capta exatamente a concepção desse trabalho. Sem mais delongas, vamos adentrar no conteúdo musical presente nesse lançamento.
Arranjos melódicos e instigantes de guitarra dão início à faixa título, “Machine Messiah”, a composição que abre o álbum. Logo de cara, o ouvinte é pego de surpresa. A canção possui uma vibração atmosférica muito diferente de tudo o que a banda gravou em sua carreira, sem exageros. Em seguida, surge uma levada progressiva de bateria e baixo, acompanhado por linhas vocais limpas de Derrick Green. À medida que a composição caminha, ela se torna mais intensa, especialmente próximo ao refrão, quando os vocais de Derrick se tornam ásperos e rasgados como de costume. A levada dessa canção como um todo é realmente hipnótica e com uma atmosfera Doom e progressiva, o que pode remeter de certa forma a nomes como Opeth e Paradise Lost em alguns momentos, por mais estranho que isso soe. Em um vídeo gravado para o canal oficial do Youtube da Nuclear Blast Records na qual a banda fala sobre as cinco primeiras faixas do álbum, o guitarrista Andreas Kisser menciona que o clima da canção lembra a releitura gravada por eles para “Angel” (Massive Attack), no EP de covers “Revolusongs” (2002). De fato, lembra mesmo, porém por se tratar de uma composição autoral, o resultado é no mínimo surpreendente. Em tempo, é uma excelente música e sinceramente, não teria abertura melhor que essa para o álbum. Escolheram a dedo!
Depois de um início arrastado e viajante, a banda agride os tímpanos dos ouvintes desavisados com a implacável “I Am the Enemy”, composição que já é conhecida pelos fãs há algum tempo, uma vez que ela vem sendo executada ao vivo há meses e ganhou um lyric vídeo oficial. Trata-se de um Thrash portentoso, com elementos de Hardcore. É uma típica composição do Sepultura, perfeita para um circle pit devastador. Também há trechos mais fragmentados e com um groove viciante que somente a banda é capaz de conceber, perfeito para se banguear incessantemente e urrar cada verso cantado a plenos pulmões. Um maracatu, acompanhado por arranjos geniais de sintetizadores iniciam a terceira faixa, “Phantom Self”. Pessoalmente, creio que apenas o início da música, que ressalta a musicalidade brasileira de forma honesta e nada forçada, já mata a pau, porém o restante da canção também merece ser mencionado. Quando os vocais entram em cena, temos um groove intenso e destruidor. O refrão também é muito bem construído e repleto de feeling. Ao longo da composição temos um trabalho instrumental estupidamente ousado, técnico, surreal, climático e que conta não apenas com riffs e solos geniais, como passagens sinfônicas incorporadas de forma extraordinária. A banda realmente conseguiu captar todo o clima futurístico exigido pela temática que escolheram abordar.
A composição seguinte, “Alethea”, se inicia com a bateria de Eloy Casagrande sendo tocada de forma introspectiva. Pouco depois, Andreas Kisser executa um arranjo simples e de fácil memorização na guitarra e a canção cresce aos poucos. Trata-se de uma faixa ainda mais diversificada e que alterna entre momentos mais arrastados e outros mais agressivos e pesados. Agora, na sequência, temos uma composição que irá fazer o queixo de muitos caírem: a instrumental arrasa-quarteirão “Iceberg Dances”! Trata-se de uma música inacreditável, repleta de variações rítmicas e andamentos que são capazes de dar nós nos subconscientes dos ouvintes. Em pouco menos de cinco minutos de duração, temos inserções de diversos arranjos, sonoridades e elementos assustadoramente surreais. Há riffs marcantes, que possuem peso e um clima progressivo, além de criatividade de sobra. A “cozinha” é entrosadíssima e simplesmente imprevisível. Os solos são um deleite indescritível. Também há passagens acústicas que parecem ter vindo de outro mundo, órgãos incorporados estrategicamente e que proporcionam uma viagem fantástica ao ouvinte. Enfim, uma faixa simplesmente impecável e que deve ser ouvida com bastante atenção por todos.
Em seguida, acordes progressivos de guitarra nos conduzem a épica “Sworn Oath”. De repente um arranjo sinfônico, muito bem feito e grudento surge acompanhado por uma "cozinha" empolgante. Trata-se de outra grande faixa, que para variar, possui mais variações rítmicas de andamentos. Há peso e melodia de sobra e ambos se complementam de uma forma absurda. Não há como prever nada que Kisser e Cia. farão a seguir e isso é simplesmente incrível. O final da composição, com o seu arranjo sinfônico sendo tocado de forma cada vez mais lenta, é simplesmente perfeito e encerra a música de modo deslumbrante. O baixo de Paulo Jr. desempenha um papel fundamental na faixa seguinte, a cadenciada e não menos pesada “Resistant Parasites”. Novamente as orquestrações atmosféricas permeiam toda a canção, bem como as intrincadas mudanças de tempo e ritmo. Todos os integrantes brilham individualmente mais uma vez. Os riffs e solos de Kisser permanecem poderosos e inspiradíssimos, enquanto a “cozinha” encabeçada por Paulo e Eloy é precisa e violenta na medida certa.
Contando com um peso estarrecedor logo de cara, “Silent Violence” é outra das músicas mais furiosas do álbum, trazendo uma veia totalmente Thrash/Groove. As linhas fragmentadas de bateria criadas por Eloy são surpreendentes e também temos mais variações vocais de Derrick na metade da música. Tudo ocorre naturalmente e sem exageros. É tudo tão natural que espanta, na verdade. Algo quase que sobrenatural. Quer mais uma dose de Thrash? Então a faixa seguinte, “Vandals Nest” certamente é para você. Trata-se de uma paulada que se inicia com riffs cortantes, uma “cozinha” empolgante e violentíssima e um urro avassalador. Os riffs rasgam os alto-falantes a cada verso tocado. Há um trecho próximo ao solo de guitarra de Kisser que Derrick alterna os seus vocais e remete muito a Burton C. Bell (Fear Factory). Fantástico!
Para encerrar o disco de forma excepcional, a banda escolheu “Cyber God”. A composição começa com palhetadas graves e arrastadas e com Derrick proferindo vocais na linha spoken Word. Logo após, somos conduzidos a um andamento percussivo e com mais variações vocais de Green, que canta de forma melódica e então alterna para um drive invejável e sem perder tempo, muda para vocalizações rasgadíssimas e intensas. O trabalho instrumental? Experimental, progressivo, entrosado e muito coeso. O quarteto permanece em uma sintonia formidável. O ouvinte realmente se sente parte de todo aquele clima Sci-Fi presente na obra, A composição se encerra com um trecho dinâmico, cadenciado, pesado e com muito feeling, com a bateria e o baixo dando o tom e a guitarra brilhando incessantemente. Uma ótima forma de encerrar esse trabalho tão desafiador.
Ainda que o álbum já tenha se encerrado a essa altura, há duas faixas da edição especial que merecem ser mencionadas. A primeira delas é “Chosen Skin”. A primeira coisa que pensei ao ouvir essa faixa foi “Uma pena que não a incluíram junto com as demais!”. Trata-se de um Thrash perfeito, que começa com um riff destruidor, acompanhado por uma levada agressiva de bateria, além de um urro devastador. Nessa música, temos mais uma sequência de riffs e mudanças bruscas de ritmo e andamentos capazes de fazer qualquer fã dessa sonoridade ficar admirado. Há peso, velocidade, groove, harmonias bem construídas e todos os ingredientes que uma composição desse naipe deve ter. Em contrapartida, a segunda faixa bônus é uma divertidíssima releitura do tema de abertura do ultra – literalmente! – clássico seriado de Tokusatsu setentista Ultra Seven, “Ultra Seven No Uta”. Coincidentemente, o Ratos De Porão também havia feito uma versão bem diferente e extrema para esse tema no álbum “Just Another Crime... in Massacreland” (1994). A versão do Sepultura é uma ótima faixa bônus e que funciona como um breve momento de descontração, indo na contra mão de todo o restante do álbum.
Mesmo após tantos anos de estrada, marcados por incontáveis acontecimentos, tais como mudanças polêmicas de integrantes, na sonoridade, constantes e profundas experimentações musicais e tudo mais, o Sepultura prova de uma vez que está mais vivo do que nunca. Em um trabalho como esse, simplesmente todos da banda merecem ser mencionados. Andreas Kisser parece estar mais inspirado do que nunca, entregando riffs e solos absurdos e muito bem construídos. A cozinha também está matadora! O baixista Paulo Jr., que constantemente recebe críticas negativas por uma grande parcela dos fãs, executa uma marcação invejável nas quatro cordas em várias composições e o baterista Eloy Casagrande prova mais uma vez que é um garoto prodígio com um futuro brilhante pela frente, ainda mais criativo e à vontade em seu instrumento. E Derrick Green? O vocalista já está há quase vinte anos na banda e seu vocal parece soar melhor a cada lançamento.
“Machine Messiah” não é apenas mais um álbum do grupo, como também é um novo e invejável capítulo em sua história. Conforme foi mencionado anteriormente, a cada novo trabalho, os músicos buscam evoluir e trazer novos elementos e sonoridades. Isso não é apenas nobre, como também é enriquecedor para eles mesmos e para os fãs. Que continuem fazendo isso, pois certamente continuarão alçando grandes voos e consequentemente, lançarão muitos discos de qualidade, tais como esse aqui.
O novo trabalho do Sepultura se chamará "Machine Messiah" e de acordo com a página oficial da banda, será conceitual e inspirado no processo de robotização da nossa sociedade.
A produção ficou a cargo dos próprios integrantes do grupo e do renomado Jens Bogren, conhecido por seus trabalhos com Soilwork, Opeth e Amon Amarth.
A arte da capa foi desenvolvida pela artista filipina Camille Dela Rosa e a previsão de lançamento é para o dia 13 de janeiro de 2017, o disco será distribuído mundialmente via Nuclear Blast.
Confira abaixo a capa e o tracklist de "Machine Messiah":
Depois de declarar que após a turnê comemorativa dos 20 anos de "Roots" ao lado de seu irmão Iggor, ainda pretende executar na íntegra outros álbuns clássicos do Sepultura, Max deu uma nova entrevista, desta vez ao "Talk Toomey".
Questionado se ao tocar os discos do Sepultura, o músico estaria pondo um fim de vez aos persistentes rumores de uma reunião do Sepultura clássico, Max Cavalera mandou a seguinte resposta:
"Sim, eu penso que esta é a nossa forma de fazer isso, nossa forma de lidar com isso, até por que nós poderíamos facilmente pegar de volta, chamar de Sepultura, mas eu não acho que… não sei… não sinto que essa seria a maneira certa de fazer. Então penso que agindo desta forma juntamente com Iggor e chamando isso de "Return To Roots", é o mais próximo que você pode ter do Sepultura original."
Apesar do músico apenas mencionar a possibilidade e logo depois recuar, dizendo que não sente que esta seja a maneira correta de agir, será mesmo que Max teria esse poder? Todos sabemos que a banda foi fundada pelos dois irmãos, mas será mesmo que nada protege Andreas ou Max se refere a algo como o que aconteceu com o Entombed, onde os ex-membros fundaram o Entombed A.D.?
Os eternos ex-membros do Sepultura, Max e Iggor Cavalera, recentemente agendaram uma turnê norte americana, onde executam o álbum "Roots" (1996) na íntegra. Em uma recente entrevista concedida ao DJ Mama da estação de rádio WSOU, Max foi questionado se após tocar "Roots", o músico pretende executar mais algum disco clássico do Sepultura, a resposta foi a seguinte:
"Espero que esta idéia flua bem, para que possamos executar outros álbuns, podemos tocar discos como "Arise", "Chaos A.D." e até mesmo "Morbid Visions". Penso que "Morbid Visions" seria uma boa escolha para termos o guitarrista original Jairo Guedz, ele vive em Belo Horizonte e seria ótimo tê-lo com a gente. Então vamos ver como isso vai ser, esperamos que abra as portas para que realizemos mais coisas como esta."
Parece que Max cansou de demonstrar interesse em uma reunião ou turnê junto com seus ex-companheiros de Sepultura e resolveu fazer as coisas de sua maneira, tomando posse de um legado que, verdade seja dita, também é seu.
Na tarde chuvosa e fria desse último domingo, 21 de agosto, o SESC Itaquera recebeu nada mais nada menos que um forte representante do Metal nacional que dispensa apresentações: o Sepultura. Ainda que o clima não estivesse nada convidativo, engana-se quem pensa que a quantidade de presentes foi pequena. Cerca de 1500 a 2000 pessoas compareceram ao local para prestigiar o show do grupo. A banda, que está em turnê comemorativa de seus 30 anos de carreira, realizou uma apresentação totalmente energética e impecável e provou que nem mesmo o tempo ruim poderia prejudicar o trabalho desse quarteto.
O horário previsto para o evento ter início foi 16h. Os presentes se aglomeraram ansiosos pela apresentação que estava para se iniciar muito em breve. Desnecessário dizer que os fãs mais ardorosos proferiam em uníssono “SEPULTURA!!! SEPULTURA!!! SEPULTURA!!!”, correto? Pois bem, sem muita demora, Andreas Kisser (guitarra), Eloy Casagrande (bateria), Paulo Jr. (baixo) e Derrick Green (vocal) sobem ao palco, já executando o mega clássico “Troops of Doom”. Todos vibraram, banguearam e cantaram com muita empolgação. É incrível como após 30 anos do lançamento do malevolente “Morbid Visions” (1986) essa canção continua implacável, especialmente ao vivo. O dia poderia estar chuvoso e frio, mas engana-se quem pensa que o público não agitou. Aliás, engana-se completamente, pois não demorou absolutamente nada para o circle pit surgiu e o mosh comer solto!
Sem perder tempo, o riff inicial de “Kairos”, do álbum autointitulado de 2011, entra em cena e empolgação dos presentes não diminui. Ainda que seja uma composição relativamente recente, é uma música realmente intensa e que particularmente acredito que poderia ter sido escrita facilmente nos tempos de “Chaos A.D.” (1993), por exemplo. Falando em “Chaos A.D.”, a terceira faixa desse álbum, “Slave New World”, é exatamente a terceira canção do setlist. Cantada por todos, foi executada com perfeição e manteve o nível da apresentação com exímio.
Os músicos fazem uma breve pausa e o carismático vocalista Derrick Green anuncia que irão tocar uma composição do emblemático disco “Roots” (1996), “Breed Apart”. O groove insano da composição proporciona uma experiência única quando a banda executa esse som ao vivo. Na sequência, o guitarrista Andreas Kisser agradece a presença de todos e anuncia que irão relembrar uma canção concebida em meados de 1992. Nesse momento o músico brinca dizendo que o baterista Eloy Casagrande estava nascendo nessa época. A música escolhida para ser tocada é o clássico excepcional “Desperate Cry”, de “Arise” (1991). Andreas apenas se equivocou no ano de lançamento da canção e do álbum, mas esses erros acontecem, ainda mais quando a banda possui uma vasta discografia. Como já era previsto, mal se iniciaram os primeiros arranjos da música e todos já estavam vibrando. Mais uma performance matadora desse que é um dos maiores clássicos do Sepultura.
Andreas diz ao público que o álbum “Roots” completou 20 anos e irão tocar mais uma canção do registro. As primeiras notas de “Dusted” surgem e não demora muito para que o público se renda aos acordes recheados de groove e pulem incontrolavelmente. Certamente é uma das músicas mais legais daquele disco e sempre que é tocada ao vivo rende ótimos momentos. Mais uma pequena pausa é feita e o guitarrista anuncia que irão tocar uma música inédita, “I Am the Enemy”, canção que fará parte do vindouro novo álbum de estúdio da banda que deverá ser lançado ainda nesse semestre. O grupo vem executando esse novo som há pouco tempo e sua execução foi primorosa, demonstrando muito poder de fogo. Confesso que quando ouvi a música nas primeiras vezes, através da Internet, achei apenas uma boa música, entretanto, ver a canção ser executada diante de meus olhos gerou uma perspectiva diferente e mais positiva. Vamos ver como serão as próximas novas composições...
O excelente e jovem baterista Eloy Casagrande marca o início da próxima música, a esmagadora “Convicted in Life”, do ótimo “Dante XXI” (2006). Com certeza é uma das músicas mais respeitadas da fase com Derrick Green nos vocais, embora deva dizer que a banda bem que poderia tocar mais canções desse trabalho de estúdio. “Dialog”, do excepcional “Kairos”, é incumbida de dar continuidade ao show. Mais uma execução bem conduzida. Arranjos estranhos e dissonantes são executados na guitarra de Andreas Kisser, dando lugar à “Attitude”, um dos maiores êxitos de “Roots”. Sem sombra de dúvidas foi mais um grande momento do show, com todos os fãs cantando a letra com vontade e agitando a todo o momento, acompanhando cada riff e andamento tocado.
Em seguida, Andreas menciona que irão tocar algo do “Chaos A.D.”. Após alguns segundos de suspense, Derrick profere com seu vocal rasgado característico “Biotech is Godzilla!”. O mosh pit realmente come solto nessa que é a faixa mais brutal daquele álbum. Quem é fã da banda sabe que os músicos costumam fazem jams após a execução da segunda estrofe da música e nessa apresentação, não foi diferente. A banda emendou com o clássico cover de “Polícia”, tocada com muita destreza e cantada por todos. Assim que a música se encerrou, o quarteto mandou a parte final de “Biotech”. Um arregaço, simplesmente!
Direto do álbum “Nation” (2001), “Sepulnation” é tocada na sequência e é bem recebida pelos fãs da fase com Derrick na banda. A canção já nasceu um hit da fase mais recente do grupo e é bem legal vê-la sendo tocada ao vivo novamente. Após tocarem a música, a banda faz uma pequena jam e logo emenda com a poderosa e visceral “The Vatican”, de “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart” (2013). Com sua levada truculenta, levou muitos para o mosh.
Uma das canções mais obrigatórias em um show do Sepultura é executada na sequência, “Territory” e evidentemente muitos deliraram assim que a música teve início, especialmente os fãs mais novos, que talvez nunca tenham tido a oportunidade de ver um show da banda ou algo do gênero. As coisas iriam voltar a ficarem mais pesadas em seguida, quando a banda anunciou “Beneath the Remains”, da obra prima homônima do Thrash Metal concebida em 1989. Se o público já agitava incessantemente, agora ele havia encontrado um bom motivo para se arrebentar e destruir tudo. Sem deixar o peso, a agressividade e a velocidade de lado, é a vez de “Arise” entrar em cena. Dá-lhe mais mosh pit e caos na pista!
Por falar em “caos”, a clássica e obrigatória “Refuse/Resist”, faixa de abertura de “Chaos A.D.”, foi executada na sequência, sempre proporcionando um clima completamente energético e claro, caótico. O grupo deixa o palco por alguns instantes e o público ovaciona o nome da banda diversas vezes. Os quatro músicos retornam ao palco e Andreas Kisser diz que irão tocar mais algumas músicas. O guitarrista declara que a próxima composição é dedicada a todos aqueles que têm o Sepultura marcado em suas peles. Eis que tocam “Sepultura Under My Skin”, single lançado no ano passado.
Provocando a público, os integrantes improvisam uma breve jam e logo dão início a clássica “Ratamahatta”. A aquela altura, todos já sabiam que a apresentação estava prestes a se encerrar. Derrick diz que irão tocar mais uma música e é claro que todos já sabiam qual era. “Sepultura do Brasil! 1, 2, 3, 4!”, profere Derrick com sua voz rasgada e dá-lhe “Roots Bloody Roots”. Ainda que seja um dos sons mais manjados da banda, é inegável o poder que essa composição tem, especialmente quando executada ao vivo. Simples, pesada, intensa, direta e dotada de um groove matador.
Em pouco mais de uma hora de duração, o quarteto realizou uma apresentação primorosa e repleta de muita qualidade, contando com um repertório coeso e bem equilibrado, selecionando um pouco de cada fase da carreira da banda. Ainda que muitos torçam o nariz e critiquem a fase atual da banda, o Sepultura é um grupo que possui sim muita personalidade, atitude e lenha para queimar. Que venham novos trabalhos de estúdio de qualidade e claro, mais shows como esse!
O Sepultura tocou no último sábado, dia 2 de julho, no festival colombiano Rock Al Parque, onde executou um set de mais de uma hora e meia e pela primeira vez, apresentou a música "I Am The Enemy", composição que estará presente no novo trabalho, com previsão de lançamento para outubro.
O set foi bem equilibrado, com a presença de diversos clássicos e também canções pertencentes a fase mais recente do grupo. Mais de 60 mil pessoas estavam presentes no Parque Simón Bolívar, em Bogotá e a performance foi transmitida pela TV colombiana.
O set list foi seguinte:
Troops Of Doom
Kairos
Propaganda
Breed Apart
Desperate Cry
Sepulnation
I Am The Enemy (nova música)
Dusted
Dialog
Attitude
Convicted in Life
Biotech Is Godzilla / Polícia
The Vatican
Inner Self
Territory
Arise
Refuse/Resist
Sepultura Under My Skin
Ratamahatta
Roots Bloody Roots
Assista ao show completo e ouça a nova faixa "I Am The Enemy", através dos links abaixo.
O Sepultura iria se apresentar no último dia 4 de junho, na casa de shows Nile Country Club, na cidade do Cairo, Egito, porém os organizadores não conseguiram os documentos necessários para que a apresentação ocorresse no local e o show foi realocado para um outro lugar, uma propriedade privada chamada Sheikh Zayed.
A banda estava no local, o equipamento estava armado e o show estava para começar, porém a polícia invadiu a casa e ao constatar que os organizadores novamente não possuíam os documentos necessários, interferiu e pediu que os músicos se ausentassem do ambiente e garantiu que não houvesse o evento.
Testemunhas declararam que os produtores foram presos porém essas informações não são oficiais.
O Kreator, uma das maiores bandas de Thrash Metal de todos os tempos, revela que em "um futuro próximo", lançará novo material de estúdio. O disco, ainda sem título, será o sucessor de "Phantom Antichrist". Agora, cabe aos fãs imaginar os mil cenários sobre o que se pode esperar do novo trabalho.
De acordo com o vocalista e guitarrista Mille Petrozza, a turnê européia (que será realizada no começo de 2017) estará cheia de novidades que só terão a somar nas apresentações do grupo e farão com que a experiência de assistir a banda ao vivo, sejam no mínimo espetaculares.
E você, o que acha que está por vir!? O que será que Mille & Companhia tem em mente para os fãs!? Tudo é possível, afinal de contas, estamos falando do Kreator!
O que poderia acontecer quando no início da década de 80, quatro garotos com em média 15 anos de idade, após ouvir alguns álbuns de bandas como Venom, Possessed e Celtic Frost, resolvem montar uma banda de Heavy Metal no estado de Minas Gerais?
Somamos a essa situação, o fato de que cada um desses meninos, estavam ainda aprendendo a tocar os seus respectivos instrumentos e o Brasil nessa época, era muito longe de ser um grande revelador de bandas. É claro que isso não podeira dar certo de maneira nenhuma correto? Errado! Em alguns anos, esses garotos gravariam álbuns que se tornariam clássicos absolutos, influenciariam um número exorbitante de grupos e se transformariam na maior banda brasileira de todos os tempos...
Mas como isso aconteceu?
Max e Iggor sempre tiveram um grande apreço pelo Heavy/Rock e bandas como Motorhead, Black Sabbath e Judas Priest eram a sua paixão. Tudo mudou quando vieram a São Paulo e escutaram pela primeira vez em uma loja de LP's, a sonoridade do Venom. Pouco tempo depois, descobriram o Hellhammer, Possessed e outros nomes que despontavam na cena executando o Metal de uma maneira mais crua e agressiva.
Foi amor a primeira vista e em 1985, já com algumas composições próprias, são contratados pela Cogumelo Records e lançam o lendário EP "Bestial Devastation". Não demorou muito e o debut denominado "Morbid Visions" foi gravado, mas apesar do reconhecimento, o grupo só foi amadurecer musicalmente com a entrada do guitarrista Andreas Kisser e o surgimento do segundo trabalho de estúdio, "Schizophrenia" (1987).
Nesta época, o Death/Black Metal executado de maneira rústica começava a ser substituído por um Death/Thrash mais trabalhado e o disco teve uma boa repercussão internacional. Quando as composições que integrariam o próximo registro da banda, começaram a ser concebidas, Max resolve arriscar tudo e com a cara e a coragem, viaja para os EUA e passa uma semana inteira negociando com o selo Roadrunner.
A gravadora sem nem ao menos ter assistido o Sepultura ao vivo, resolve apostar no potencial dos brasileiros e além de lançar "Schizophrenia" nos Estados Unidos e Europa, cedeu um orçamento de U$8.000 para a gravação do próximo trabalho e além disso, também disponibilizou o produtor Scott Burns (Obituary, Death e Morbid Angel) como responsável pelas gravações.
Com esse orçamento, o grupo só poderia gravar a noite, então todos dormiam durante o dia e após a meia noite iniciavam as gravações, que duravam toda a madrugada e iam até as 7 da manhã. Mesmo agindo dessa maneira, acabaram dobrando os gastos cedidos pela gravadora e no dia 7 de abril de 1989, "Beaneath The Remains" era lançado.
Pode-se afirmar que este é o disco que introduz realmente a banda no cenário mundial. Se o trabalho anterior dava boas mostras de uma evolução musical, é este que estabelece o Sepultura como um nome forte e relevante para a cena. Em comparação a "Schizophrenia", as composições além de mais técnicas, trabalhadas e melhor construídas, ainda contam com uma produção lapidada, mas que em momento algum deixa de lado o peso e a agressividade da banda.
De forma geral, os músicos demonstram um enorme amadurecimento e as performances individuais começaram a ser um grande diferencial, as composições são repletas de mudanças de andamento, viradas e além disso, muitas variações rítmicas são percebidas durante as 9 faixas que compõe o registro.
"Inner Self" e a faixa título, "Beneath The Remains", se transformaram em clássicos do Thrash Metal mundial e como um todo, o disco traz momentos antológicos. "Mass Hypnosis", "Stornger Than Hate" e "Slaves Of Pain" são algumas das preferidas dos fãs, porém ainda destaco a faixa de encerramento, "Primitive Future", como uma das mais marcantes do trabalho.
Ao fazer a audição do álbum, ficava claro que as canções não eram inovadoras e nem seriam o foco de nenhuma mudança acentuada no cenário da música pesada da época, mas também ficava evidente que não se tratava de um trabalho qualquer. A primeira demonstração disso veio em forma de números, já que "Beneath The Remains" foi uma prova contundente de que a Roadrunner poderia lucrar e muito com a banda.
Quando saíram em turnê, tiveram a oportunidade de fazer uma sequência de apresentações ao lado do Sodom na Europa. Tais apresentações foram marcadas por diversos desentendimentos entre membros do Sepultura e a equipe do Sodom, já que Max percebendo a mania de limpeza do empresário dos alemães, simplesmente resolveu não tomar um banho sequer durante toda a turnê, despertando a ira do manager e rendendo histórias homéricas, contadas com maiores detalhes na biografia de Max entitulada de "My Bloody Roots: Toda a Verdade Sobre a Maior Lenda do Heavy Metal Brasileiro.
O terceiro álbum de estúdio do Sepultura é sem dúvida alguma, um dos maiores discos gravados por uma banda brasileira em todos os tempos e mais do que isso, é o registro que abriu o mercado internacional para que outros grupos pudessem se tornar populares fora do Brasil. Uma obra essencial para o estilo e parte de um legado que jamais será esquecido.
Realmente o tempo voa. Hoje é o aniversário de 28 anos de um dos mais cultuados álbuns da história do Metal Extremo nacional, “Morbid Visions”, o álbum de estreia do Sepultura. Lançado em 10 de novembro de 1986 através da gravadora Cogumelo Records, o “debut” mantém a mesma linha crua e visceral de som executada pela banda em seu primeiro registro, o clássico EP “Bestial Devastation”, de 1985. O que nós temos aqui é um trabalho calcado no mais genuíno Black/Death Metal, contendo “riffs” e influências evidentes de Thrash Metal. Influenciados diretamente pela sonoridade de bandas como Venom, Hellhammer, Celtic Frost, Kreator, Slayer e Possessed, a banda formada em Belo Horizonte, Minas Gerais foi responsável por conceber um registro que encanta e inspira uma centena de artistas e músicos do Metal Extremo até os dias de hoje. Possuindo uma arte de capa grotescamente genial e que capta muito bem a atmosfera do Black/Death Metal, “Morbid Visions” dá continuidade a temática satânica abordado em “Bestial Devastation”, porém, trazendo composições ainda mais trabalhadas dessa vez.
“Riffs” sujos e infames abrem o disco com a implacável “Morbid Visions”, uma pancada crua e violentíssima que martela os nossos ouvidos impiedosamente com palhetadas ríspidas de Jairo Guedz (esse é o primeiro e único álbum gravado com o guitarrista, que também toca a guitarra solo no EP “Bestial Devastation”) e Max Cavalera, cujos vocais estão rasgadíssimos. Originalmente, as prensagens em vinil continham também uma introdução, apenas batizada como “Intro”, que precedia a faixa título do álbum. Essa introdução era o primeiro movimento de Carl Orff's “Carmina Burana” (“O Fortuna”). Provavelmente, a composição foi eliminada no lançamento do CD devido aos direitos autorais da mesma.
A matadora “Mayhem”, que em português significa “Mutilação”, faz jus ao seu título vil e abominável e massacra tudo e todos com seus “riffs” velozes e pesados, aliados a sempre truculenta bateria de Igor Cavalera, que desde aquela época já demonstrava que teria um futuro brilhante pela frente. Em seguida, é a vez de um dos maiores hinos da carreira da banda: “Troops of Doom”. É importante mencionar que essa é a primeira versão que o Sepultura gravou para esse clássico e seu andamento aqui é mais lento e cadenciado, entretanto, se você pensa que isso dilui o peso e a agressividade do álbum, pense duas vezes, pois estamos diante de um dos maiores feitos da carreira da banda. O “riff” inicial é simples, direto e eficiente, do jeito que tem que ser. O restante da canção não faz por menos, permitindo que cada integrante destrua em seu instrumento.
Mantendo a selvageria intacta, “War” conta com mais uma boa dose de “riffs” poderosos e imundos do início ao fim, contando também com interessantes e bem construídas mudanças de andamento. Por sua vez, a maravilhosamente asquerosa “Crucifixion” se inicia de forma lenta e arrastada e rapidamente abre caminho para mais um ataque de guitarras infernais, acompanhados por um tenebroso desempenho de bateria e vocais urrados e demoníacos. Fenomenal! Já “Show Me the Wrath” é de longe a canção mais moderada do álbum, com um ritmo menos frenético e mais contido que as demais faixas do disco. De qualquer maneira, é novamente uma ótima composição, agregando ainda mais sujeira e podridão para o conjunto da obra.
A furiosa “Funeral Rites” tem um início bastante similar ao de “Troops of Doom”, abrindo de forma cadenciada para rapidamente continuar a chacina e espancar os nossos ouvidos com “riffs” ainda mais imundos e viscerais, bateria ensandecida e urros desvairados. Abrindo com guitarras insanas e “gritantes”, “Empire of the Damned” vem para finalizar esse registro malevolente, brindando a todos com mais um banho de sangue monstruoso, cortesia do infame empenho do quarteto. O final da canção é muito interessante, contando com alucinados urros rasgados proferidos por Max Cavalera, acompanhados por “riffs” intensos que em questão de segundos abrem espaço para um prólogo altamente atmosférico causado pela brilhante e macabra inserção de um trecho de canto gregoriano. Uma ótima maneira de encerrar um álbum tão sujo e diabólico com esse.
Ainda que seja um trabalho novamente calcado nas mesmas referências musicais do EP “Bestial Devastation” e mais uma vez conte com uma produção tosca, bastante precária e aquém de seus trabalhos posteriores, “Morbid Visions” já demonstrava uma evolução considerável dos músicos e é certamente um grande feito não apenas para o Sepultura, como para todo o Metal Extremo mundial.
Surgido em Bela Horizonte, Minas Gerais, o Sepultura se tornou gradativamente um dos maiores e mais respeitados nomes do Metal mundial. Ainda que sua fase atual seja sempre controversa, especialmente para os fãs e ouvintes mais antigos da banda, é inegável a importância da banda para o Metal como um todo, especialmente quando se fala em Metal Extremo. Seus primeiros trabalhos são responsáveis por disseminar o Metal nacional ao redor do planeta e até hoje são referência para muitos. Após terem lançado dois registros toscos, mal gravados, porém violentos e criativos, sendo eles o EP “Bestial Devastation” (1985) e o “debut” “Morbid Visions” (1986), a banda lança, em 30 de novembro de 1987, “Schizophrenia”, o segundo álbum de estúdio do Sepultura, através do selo da Cogumelo Records, a mesma gravadora responsável pela produção dos dois primeiros lançamentos do grupo. O álbum marca a estreia do guitarrista Andreas Kisser, que substituiu Jairo Guedz, que havia gravado a guitarra solos nos dois primeiros registros. A partir daquele momento, o Sepultura não apenas havia adicionado sangue novo para a banda, como também todo um novo leque de influências musicais que fariam com que a qualidade de suas composições ficasse ainda melhor.
O álbum se inicia de uma forma brilhante e insana, com uma introdução que nada mais é do que uma releitura do clássico tema da “cena do chuveiro” do clássico filme de suspense “Psicose” (1960), do eterno cineasta e “mestre do suspense” Alfred Hitchcock. Há um momento em que a introdução cessa e é precedida por um urro animalesco que rapidamente é emendado com os “riffs” iniciais da “fuzilante” “From the Past Comes the Storms”, uma grande faixa recheada de palhetadas certeiras, vocais rasgadíssimos do “frontmen” Max Cavalera, cuja voz evolui mais uma vez nesse segundo registro de estúdio, solos velozes e com muito “feeling”, cortesia do até então estreante guitarrista solo Andreas Kisser e um selvagem trabalho de bateria do sempre monstruoso e inventivo Igor Cavalera. Logo nessa faixa de abertura é possível observar a evolução dos músicos, que agora executam um som mais trabalhado e melhor conduzido, combinando as influências do guitarrista Andreas com as dos demais integrantes, resultando em algo de proporções ainda maiores, mesclando e dosando agressividade e melodia na medida certa.
A eletrizante “To The Wall” se inicia de forma cadenciada e alterna de momentos cadenciados para trechos recheados de velocidade e agressividade genuínas. Os “riffs” estão ainda mais matadores e passarem ter vida própria. Um delirante solo de guitarra de Andreas Kisser logo abre alas para mais uma sequência matadora de “riffs”, iniciando assim a fabulosa “Escape to the Void”, um dos maiores clássicos da carreira da banda. Novamente, um som absurdamente devastador, recheado de viradas de andamento bem construídas e inseridas, além de contar também com um refrão poderosíssimo.
Dedilhados sutis e bem suaves preparam os ouvintes para a bela instrumental “Inquisition Symphony”, uma faixa que permite que cada membro brilhe individualmente. Aqui nós temos uma coletânea impecável e surpreendente de “riffs” truculentos e fabulosos, solos vertiginosos, porém recheados de harmonia, além de possuir também incríveis linhas de bateria. Um grudento “riff” dá início a estonteante “Screams Behind The Shadows”. É simplesmente fantástico como a qualidade do álbum não decai em momento algum, com cada faixa ganhando o seu devido espaço e destaque e essa sexta faixa não é exceção à regra, entregando aos fãs mais um vistoso desempenho de guitarras, além de alterações rítmicas arquitetadas de forma sábia e completamente pertinentes.
“Septic Schizo” é a sétima música do álbum e é mais uma composição deslumbrante, rápida e totalmente feroz. O seu início convida o ouvinte para “banguear” de forma completamente descontrolada e pouco depois o arremessa para uma novíssima e caótica sequência de “riffs” e palhetadas infernais, solos desvairados e bem encaixados, bateria debulhadora do início ao fim e ótimos vocais rasgados. A breve, porém bela instrumental “The Abyss”, tocada no violão por Andreas Kisser, serve de interlúdio para o último massacre do disco, a fantástica e “moedora de ossos” “R.I.P.” (Rest In Pain)”. É a canção mais visceral, crua e agressiva do álbum, contando com “riffs” frenéticos e sujos que não deixam pedra sobre pedra.
“Schizophrenia” é certamente um dos grandes álbuns do Death/Thrash Metal mundial, contando com um repertório invejável de faixas avassaladoras. É um registro importantíssimo e que não apenas contribuiu ainda mais com o crescimento do Sepultura na época, como também possibilitou ainda mais a ascensão do Metal nacional e influenciou e ainda influencia diversas bandas ao redor do globo.
Lineup:
Max Cavalera (Vocal / Guitarra Base)
Andreas Kisser (Guitarra Solo / Violão)
Paulo Jr. (Baixo)
Igor Cavalera (Bateria)
Tracklist:
01. Intro
02. From the Past Comes the Storms
03. To The Wall
04. Escape to the Void
05. Inquisition Symphony
06. Screams Behind The Shadows
07. Septic Schizo
08. The Abyss
09. R.I.P." (Rest In Pain)
Faixa incluída no relançamento do álbum pela Roadrunner Records em 1990: