Mostrando postagens com marcador Biografias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Biografias. Mostrar todas as postagens

Cruzadas

Mundo Metal [ Discografia ]



Cruzadas é uma velha conhecida dos metaleiros brasileiros, e fazem um som tão épico cantado na sua língua mãe. Com um instrumental que mistura Epic Heavy a elementos de outros estilos e gravação totalmente independente, a banda liderada por Daniel Walançuella chama atenção pela qualidade única.


"Guardiões do Apocalipse" Ep (2005) Independente


O início do império se deu com o EP ‘Guardiões do Apocalipse’, que se compõe de 9 canções épicas, bem feitas e bem produzidas, músicas rápidas e com letras fortes. A primeira faixa do disco, "Tróia" é uma introdução instrumental com peso e construção concisa. A faixa seguinte, "Despertar", contém um refrão muito grudento e um instrumental bem rápido e pegajoso, sem contar a voz de Daniel, que possui uma reverberação única. As músicas "Templo da Escuridão" e "Em Ruínas" seguem o mesmo princípio: bases cavalgadas e furiosas, linhas de bateria seguindo o Thrash Metal, letras de cunho histórico e um vocal potente! Logo em seguida, vemos duas músicas clássicas da banda! Na faixa que leva o nome do disco, e em "Império dos Deuses", com sua produção totalmente independente, conseguimos ouvir todos os os instrumentos que combinam perfeitamente criando uma atmosfera totalmente medieval e empolgante. Eis que as faixas seguintes são minhas favoritas. "Guerreiros" vem com sua força impetuosa, letra profunda, arranjo rápido e suscinto, além de bateria muito bem colocada que nos transporta a uma cena de batalha totalmente medieval, onde guerreiros que bradam sua pátria morrem por seus ideais. "Em Nome do Pai" e "Cruz no Peito, Espada na Mão" seguem suas ideias medievais e épicas onde Cruzados lutavam e morriam por sua fé. Um CD bem feito e conciso, que criou a ambientação perfeita para que o Epic Heavy Metal da banda fosse aclamado por qualquer fã de metal e idealizador do underground.


Nota: 7.9

"Idade das Trevas" (2010) Independente


Em 2010, foi-nos apresentado o ótimo ‘Idade das Trevas’, disco totalmente baseado na era das cruzadas (ah vá), com letras históricas e bem escritas. O disco se inicia com uma introdução bem clássica de temáticas épicas, combinando assim com todo o disco. A faixa "Esparta" é direta e com uma base rápida, acompanhada por uma bateria de igual velocidade e que chama atenção por sua simplicidade e peso. "A Espada Derrete Em Chamas" foi a música que mais me prendeu neste álbum, com peso, qualidade, velocidade, agressividade, e uma produção independentemente mas muito bem feita. A construção dessa foi o que mais me chamou atenção, principalmente com as variações da base no meio da música; geralmente quando a banda faz isso e reduz drasticamente o ritmo, o som se corta e a música fica meio sem nexo, mas isso não ocorre aqui. Esse corte rítmico serve de atenuante para a qualidade da música, visto que o mesmo ocorre na recepção do solo; uma grande jogada! "Honra e Glória" e "As Mil e Uma Noites" são músicas que apostam em passagens mais fraseadas e vocais mais modulados. Canções muito boas e bem posicionadas no disco. 

"Sombras do Castelo" é mais calma, com guitarras mais trabalhadas - utilizando alguns recursos pouco usados - e novamente ouvimos uma bateria de pedal 'estuprador', e um baixo bem tímido, mas presente. Parecida com essa é "Cemitério dos Ossos", seguindo o estilo de vocais modulados também nos backing vocals, a música se molda muito bem a qualidade do disco. Para fechar o trabalho, duas das minhas faixas favoritas. Começando por "Idade das Trevas", ouvimos uma canção rápida e liricamente rica, com pequenas passagens dotadas de qualidade e bom uso de breakdowns rítmicos, um refrão que gruda e um solo muito simples e que se encaixa perfeitamente à música; excepcional. A última faixa do disco foi uma surpresa para mim, haja visto que todas as outras da banda são rápidas e brutas. Quem diria que "Terra dos Faraós" seria uma faixa totalmente ausente de bateria e guitarras pesadíssimas, com apenas um dedilhado calmo e uma ambientação muito boa? Isso sem mencionar que a voz de Daniel se encaixou muito bem ao som. Por inteiro, o disco ‘Idade das Trevas’ é muito bom!


Nota: 8.3


Em 2014 a banda lançou um EP chamado ‘Arena da Morte’, com 4 músicas que apareceriam no vindouro novo disco. Todas mostravam que a temática da banda seria a mesma, mas as letras agora iriam além das guerras santas, e abordariam agora temas como gladiadores, Roma, Vikings, Mitologias e afins. Essas músicas também serviram para mostrar que a qualidade de produção da banda melhorou muito.


"Com Sangue se Escreve a História" (2017) Independente


Por fim, após 3 anos de espera, o 3° álbum da banda é lançado, com o título ‘Com Sangue se Escreve a História’. O disco já é aberto pela pancada "Aníbal": explosiva, rápida e visceral, com um baixo mais audível, uma bateria mais trabalhada, e uma guitarra rápida e direta, além de um vocal mais polido que nos discos anteriores. "Arena da Morte" (música que pertenceu ao EP de 2014) é uma canção viciante é muito fácil de ser cantada, com guitarras trabalhadas e bateria contínua. A porrada possui um solo mais técnico, bem trabalhado, e um refrão impecável. Uma música que retrata a história (que muitos de nós conhecemos) de pessoas que eram levadas para morrer nas arenas de Roma. A próxima faixa é "Triunvirato", que aposta em bases mais cavalgadas, letras totalmente históricas, um solo bem simples, e um baixo bem presente e notável, com passagens muito boas e técnicas. “Gladiador" (outra pertencente ao EP de 2014) segue o mesmo princípio de "Arena da Morte": bases rápidas, letra de fácil assimilação, bateria frenética e novamente uma história bem conhecida, essa se tratando de Maximus, General Romano que vira gladiador (sim, aquela história do filme). "Coração Valente" é uma das minhas preferidas do disco. Rápida, concisa, obstinada, e acima de tudo, empolgante, segue a antiga fórmula do Epic Heavy Metal, com guitarras contínuas e rápidas, bateria rítmica, um baixo que serve de sustentação para a bateria - mas mesmo assim presente -, e um refrão que gruda de uma forma esplêndida. 

Em "Vikings", (mais uma do EP de 2014) ouvimos um som mais 'cadenciado', com suavidade e precisão mais presentes, e uma letra épica e digna de ser cantada em Valhalla! Em sequência, temos "Era dos Titãs", (adivinha? Mais uma do EP de 2014), uma música com bases mais clássicas, uma bateria simples e novamente um baixo bem característico e preciso. O que chama atenção é a  atuação de Daniel nos vocais; a música não possui uma grande modulação, mas mesmo assim o mesmo dá vida às palavras cantadas, nos transportando a uma bela atmosfera. Muito bom! "Mare Nostrum" é a faixa instrumental do álbum que torna nossa viagem medieval mais calma e suave, mas que, como uma maré calma, se vai em meros 2 minutos. Como havia dito acima sobre “Coração Valente”, há aqui várias músicas que gosto e, nesse caso, a faixa bônus foi quem me ganhou. Quem conhece o projeto Brothers of the Sword obviamente conhece a faixa "Espada Selvagem", pois é este petardo que põe fim ao álbum lançado neste ano. Uma música simples, com a participação de Fábio "Grey Wolf" Paulinelli. Cadenciada, direta e com uma letra poderosa! Esse disco lançando recentemente – em janeiro de 2017 - tem peso e personalidade tremendos, elevando assim mais ainda a qualidade da banda!


Nota: 9


Concluímos assim que bandas nacionais lançam discos muito bons, porém se mantêm no underground devido a preconceitos que muitos de nós, fãs de metal, criamos. Às vezes por causa do estilo, das opiniões políticas/religiosas/ideológicas dos integrantes, e até mesmo como esses se vestem, há essa desunião e desconhecimento do mundo do Metal brasileiro. Precisamos quebrar essas correntes que nos prendem ao mundo estrangeiro, e devemos começar a valorizar o que temos de bom em nosso país!


Por Yurian Paiva

Accept: do menos expressivo ao melhor álbum


A sessão “do mais fraco ao melhor” foi criada com o objetivo de tentar elencar os álbums de determinadas bandas, do menos expressivo ao mais significativo. Os critérios usados para o ranking são diversos, como aceitação crítica do álbum em questão, importância do lançamento para a época, nível técnico em comparação a outros trabalhos da banda e fator diversão (obviamente), entre outros. Note que não há aqui certezas ou leis, apenas uma análise feita por mim para decidir a ordem dos álbums baseado nas informações acima e, portanto, se seu álbum favorito estiver abaixo no ranking ou se aquele play que você acha uma merda estiver bem posicionado, lembre-se que a música é uma forma de arte subjetiva e pessoal, e não uma ciência exata. De qualquer forma, tentarei potencializar ao máximo os critérios técnicos acima e minimizar interferências pessoais.


Essa semana, uma das maiores bandas da história do universo conhecido e desconhecido, a esmagadora de bolas na parede e detentora do coração de metal, o Accept. Obviamente não preciso ficar falando das origens e história dos caras aqui porque todo mundo já conhece. Aliando as porradas do Heavy Metal com a característica veia erudita de seu criador e chefinho Wolf Hoffmann e o som sexy e cheio de peso do co-criador e dono dos cachinhos mais bem tratados do mundo do Metal, Peter Baltes, os Alemães são respeitados e amados ao redor do globo e nos surpreendem cada dia mais com vigor e amor à música ímpares. Vamos então revisitar a carreira vencedora dos eternos rebeldes e mestres do Metal teutônico, ‘cause we are Restless and Wild!

14 – Accept (1979)


O começo da carreira gloriosa e destruidora não foi tão glorioso assim. Accept  é um álbum extremamente cru e mostra um nível de imaturidade grande de Wolf, Baltes, Udo e companhia. Claro, temos aqui boas faixas como “Seawinds” e “Street Fighter”, mas o play não consegue se segurar numa posição elevada nessa discografia tão monstruosa. 

13 – Eat the Heat (1989)


Olha ele aí: o infame e irrisório Eat the Heat. Em uma clara tentativa de abraçar o mercado mainstream dos EUA, Wolf e seus comparsas recrutaram o então garoto David Reece e partiram para a estrada do Hard Rock, abandonando quase que completamente o Heavy Metal. O produto desse devaneio, você já sabe.

12 – Predator (1996)


Predator é o último álbum antes da segunda parada da banda e último com o gremlin Udo Dirkschneider nos vocais. Claramente fadigados e com vários problemas de relacionamento, os membros parecem tocar por obrigação no play e não passam muita segurança e feeling nas músicas. Há aqui, porém, boas canções como “Hard Attack”, “It Ain’t Over Yet” e “Crucified”.

11 – I’m a Rebel (1980)


Mais experientes e rodados, os garotos melhoram muito o nível do debut com esse play muito divertido, mas ainda em forma de proto-Heavy Metal. Alguns deslizes aqui e ali e uma produção abaixo da média (até para a época) derrubam I’m a Rebel e o fazem figurar em uma posição desconfortável.

10 – Deathrow (1994)


Muitos chamam Deathrow de o ‘Painkiller do Accept’, o que faz todo o sentido se olharmos pelo lado do peso e velocidade. Aqui é porrada atrás de porrada e Udo soa melhor do que nunca; as guitarras de Wolf estão mais pesadas e a cozinha de Baltes e Stefan Kaufmann esta impecável. 

9 – Objection Overruled (1993)


Objection Overruled é como uma mescla do Accept clássico e o que veríamos posteriormente em Deathrow. Aliando peso, feeling e um sentimento de revigoramento, o álbum foi aclamado por fãs e crítica na época como um retorno (quase) perfeito de uma lenda do Heavy Metal. Ótimo.

8 – Blind Rage (2014)


Álbum mais recente dos caras (até a data de publicação desse ranking), Blind Rage continua a nova trilogia com Mark Tornillo de forma competente e divertida. Não tem, porém, músicas tão marcantes quanto seus antecessores e peca um pouco no fator replay. É uma mescla, na realidade, de seus dois irmãos mais velhos que não possui tanta qualidade.

7 – Stalingrad: Brothers in Death (2012)


A sequência devastadora de um álbum magnífico. “Hung, Drawn and Quartered” já entrega a pancadaria desenfreada que vai ser o play, e músicas magistrais como “Shadow Soldiers” e “Revolution” mostram que Wolf e companhia não estavam pra brincadeiras e iriam continuar nos presenteando com som de qualidade por muito tempo.

6 – Russian Roulette (1986)


“Monster Man”, “TV War”, “Heaven Is Hell”…Russian Roulette é um dos meus álbums favoritos do Accept e foi muito difícil não coloca-lo em uma posição de maior destaque, mas as pepitas de ouro abaixo não me deixaram adotar a saída da paixão. Fica aqui também a menção honrosa da melhor capa do Accept em todos os tempos, com o nanico Udo tendo que praticamente ficar em pé pra se manter na mesma altura que seus camaradas.

5 – Breaker (1981)


Como disse Fabio Reis, não poderia deixar de colocar o Breaker no top 5 dos Alemães de jeito nenhum. “Starlight”, “Breaker”, “Son of a Bitch”, “Midnight Highway”; são muitos clássicos e o começo do auge que duraria quase uma década inteira. Mandatório.

4 – Blood of the Nations (2010)


Narizes torceram, sombrancelhas se levantaram e pontos de interrogação pairavam no ar e nas cabeças de todos os fãs com mais um retorno do Accept, agora sem seu frontman e membro mais carismático. E então vêm os primeiros acordes de “Beat the Bastards”, como um recado aos bastardos céticos que esperavam um álbum meia-boca. Ao invés disso, os vocais rasgados de Tornillo e uma faísca de inspiração de Wolf e Baltes tornaram Blood of the Nations um dos maiores retornos de uma banda na história da música. Não concorda? Você é dodói.

3 – Metal Heart (1985)


E aqui começa a trinca de ouro dos tiozinhos mais porradeiros da Alemanha. Metal Heart dispensa apresentações e ilustra o que todo headbanger sente: o orgulho de viver pelo metal, de sentir-se livre. É um álbum quase perfeito e definitivamente um dos melhores da década de 1980.  

2 – Balls to the Wall (1984)


Talvez um dos álbums mais icônicos de todos os tempos. Balls to the Wall tem todos os ingredientes necessários para formar um clássico: feeling único, verdadeiros hinos do estilo com a faixa-título, “London Leatherboys”, “Head Over Heels”, “Turn Me On” e “Winter Dreams”, atitude transbordando dos membros e muita, mas muita diversão. Uma verdadeira jóia do Heavy Metal mundial e um play respeitado por todos.

1 – Restless and Wild (1982)


O trabalho começa com “Fast as a Shark” e termina com “Princess of the Dawn”, esta bom ou quer mais? Vou deixar o tracklist aqui embaixo pra você mesmo avaliar o motivo pelo qual Restless and Wild é o melhor álbum da rica história do Accept. Caso tenha dúvidas, leia o tracklist de novo. Esse, meu amigo, é o que chamamos de álbum perfeito.

1 – Fast as a Shark
2 – Restless and Wild
3 – Ahead of the Pack
4 – Shake Your Heads
5 – Neon Nights
6 – Get Ready
7 – Demon’s Night
8 – Flash Rockin’ Man
9 – Don’t Go Stealing My Soul Away

10 – Princess of the Dawn

por Bruno Medeiros


Savatage: do menos expressivo ao melhor álbum


A sessão “do mais fraco ao melhor álbum” foi criada com o objetivo de tentar elencar os álbuns de determinadas bandas, do menos expressivo ao mais significativo. Os critérios usados para o ranking são diversos, como aceitação crítica do álbum em questão, importância do lançamento para a época, nível técnico em comparação a outros trabalhos da banda e fator diversão (obviamente), entre outros.

Note que não há aqui certezas ou leis, apenas uma análise feita por mim para decidir a ordem dos álbuns baseado nas informações acima e, portanto, se seu álbum favorito estiver abaixo no ranking ou se aquele play que você acha uma merda estiver bem posicionado, lembre-se que a música é uma forma de arte subjetiva e pessoal, e não uma ciência exata. De qualquer forma, tentarei potencializar ao máximo os critérios técnicos acima e minimizar interferências pessoais.

Voltamos essa semana com um dos maiores expoentes do Heavy Metal Estadunidense; uma banda extremamente respeitada por todos e adorada por milhares: Savatage. Criada em 1979 sob a alcunha de Avatar pelos irmãos Jon e Criss Oliva e pelo baterista Steve “Doc” Wacholz, o Savatage ganhou notoriedade e fama nos anos 1980 graças à voz única de Jon, ao timbre agressivo nas guitarras de Criss e às letras de extrema inteligência e gosto. Uma banda heterogênea, que já foi chamada de Hard, Heavy, Power e até Progressive Metal, teve em 2001 seu último play lançado e nutre até hoje a esperança de todos nós, reles fanboys, que aguardamos ansiosos o retorno do Jabba the Hutt do Metal (Jon, você esta gigante, sério, pare) e seus amigos de longa data.


Vamos então dissecar essa bela história e ver quais álbums se destacam na discografia tão rica dos nativos de Tampa e seu louco líder. Madness reigns, in the Hall of the Mountain King, oh yeah!

PS: Apesar de ser mais lindo que mulher de calça branca, o maravilhoso The Dungeons are Calling ficou de fora da análise por se tratar de um EP. Fica aqui a menção honrosa pra esse grande trabalho.

11 – Fight for the Rock (1986)


 Nunca foi tão fácil encontrar o álbum mais fraco de uma banda como com o Savatage. Fight for the Rock destoa muito dos demais, seja na sonoridade, qualidade de produção, mixagem ou letras. Um trabalho de gosto duvidoso e composições abaixo da média. 

10 – Dead Winter Dead (1995)


Vemos aqui um fenômeno estranho: Jon e Paul O’Neill – produtor da banda de longa data e um dos melhores amigos dos irmãos Oliva – haviam acabado de criar o Trans-Siberian Orchestra, grupo que compunha ou fazia arranjos de músicas natalinas na forma de Ópera Rock, e isso transbordou para o Savatage. Existem músicas de qualidade no play, como “This is the Time” e “Not What You See”, mas a mudança no estilo das composições machucou o produto final. O primeiro álbum do Trans Siberian Orchestra sairia apenas um ano depois de Dead Winter Dead, mas a semelhança no som de ambos deixou claro que a mente de Jon já não estava mais focada apenas em sua banda principal.

9 – Streets: a Rock Opera (1991)


O começo desse play é destruidor. “Jesus Saves” é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores composições da carreira dos Americanos e “Tonight He Grins Again” é uma obra-prima. No entanto, o álbum vai gradualmente perdendo sua força e as muitas baladas podem até ser coerentes com a progressão da história contada, mas não ajudam na dinâmica do trabalho. Ao final de seus quase 69 minutos de duração você se sente mais cansado do que satisfeito com a experiência.

8 – Handful of Rain (1994)


Um ótimo álbum. Do começo devastador com “Taunting Cobras” ao final emocionante com “Alone You Breathe”, Handful of Rain é um dos mais heterogêneos trabalhos de Jon e companhia, indo desde faixas poderosas e marcantes a canções épicas como em “Chance”, que utiliza elementos característicos da segunda parte da carreira da banda, como os coros cantados em diferentes letras e vozes ao mesmo tempo. 

7 – Poets and Madmen (2001)


Último registro da carreira do Savatage, Poets and Madmen marca o retorno de Jon Oliva aos vocais principais da banda e contém músicas extremamente bem composas, como “There in the Silence”, “Morphine Child” e “Man in the Mirror”. Um dos plays mais agressivos e sombrios na discografia. 

6 – The Wake of Magellan (1997)


Na minha opinião, um álbum genial. Já com Zak Stevens consolidado como vocalista, Jon e companhia nos agraciaram com um álbum conceitual sobre a decisão de um navegador de morrer sozinho ao mar, velejando. Ele então descobre, no decorrer dos eventos da peça, que a vida merece ser vivida e cada minuto é tão importante quanto o último; dessa forma, ele retorna à costa revigorado e carregando uma bela mensagem. Essa grande história, aliada a elementos épicos e sinfônicos e execução magistral de Jon Oliva, Al Pitrelli, Chris Caffery, Jeff Plate, Johnny Lee Middleton e Zak Stevens (lineup fraco, hein) fazem de The Wake of Magellan uma verdadeira gema. 

5 – Power of the Night (1985)


O poder da noite! Jon e Criss seguiam em seus melhores momentos aqui com as pepitas “Warriors” e “Necrophilia”, além, é claro, da faixa título. Os únicos problemas com o álbum são a queda de rendimento em relação ao anterior e o ano de lançamento, perdendo força para estrondosos concorrentes como A Time of Changes do Blitzkrieg, Long Live the Loud do Exciter e Feel the Fire do Overkill, para citar alguns; foi um ano disputadíssimo na cena. 

4 – Gutter Ballet (1989)


Só a faixa título desse play já é o suficiente pra te fazer chorar, mas ainda temos “When the Crowds are Gone”, “Hounds”, “Mentally Yours”…sacanagem né? Criss Oliva transbordou feeling nesse álbum e Jon Oliva aparece com seus grunhidos mais agressivos que nunca e teclados magníficos; ótimo trabalho.

3 – Sirens (1983)


O ínicio magistral, fervoroso, fino, rebelde, sombrio, visceral. Esse álbum é considerado por muitos um dos melhores debuts de todos os tempos, e músicas como “Holocaust”, “Rage” e “Living for the Night” só contribuem para essa afirmação. Produção balanceada, performances quase perfeitas e a vontade rebelde de fazer música fazem de Sirens uma grande experiência.

2 – Hall of the Moutain King (1987)


Hall of the Mountain King marca o fim de uma era mais direta e crua para o Savatage. De uma forma maravilhosa, Jon, Criss e companhia entregam um álbum ao mesmo tempo enérgico, poderoso e sofisticado, com clássicos absolutos em “24 Hrs. Ago”, “Legions” e “Strange Wings, isso sem contar a faixa título transcedental. Não fosse o próximo monstro sagrado em forma de música, este seria o auge da carreira dos Americanos.

1 – Edge of Thorns (1993)


O começo puro, simples e magnífico regido pelos teclados inconfundíveis da faixa título e a primeira aparição de Zak Stevens são elementos que até hoje emocionam e movem milhares de fãs ao redor do mundo. Edge of Thorns foi o primeiro álbum do Savatage que ouvi e nunca vou esquecer de sua importância pra mim. Composições transcedentais como “He Carves His Stone”, “Follow Me” e a trinca perfeita em “Conversation Piece”, “All That I Bleed” e a sombria “Damien” elevam o álbum ao hall de obras-primas do Heavy Metal. O último suspiro musical de Criss Oliva antes de sua trágica morte não poderia estar melhor representado.

por Bruno Medeiros

Manowar: do menos expressivo ao melhor álbum


A sessão “do mais fraco ao melhor álbum” foi criada com o objetivo de tentar elencar os álbuns de determinadas bandas, do menos expressivo ao mais significativo. Os critérios usados para o ranking são diversos, como aceitação crítica do álbum em questão, importância do lançamento para a época, nível técnico em comparação a outros trabalhos da banda e fator diversão (obviamente), entre outros.

Note que não há aqui certezas ou leis, apenas uma análise feita por mim para decidir a ordem dos álbuns baseado nas informações acima e, portanto, se seu álbum favorito estiver abaixo no ranking ou se aquele play que você acha uma merda estiver bem posicionado, lembre-se que a música é uma forma de arte subjetiva e pessoal, e não uma ciência exata. De qualquer forma, tentarei potencializar ao máximo os critérios técnicos acima e minimizar interferências pessoais.

Após mais de um mês sem o ranking (mea culpa), voltamos em força máxima com aqueles seres besuntados em óleo vestindo nada mais do que uma tanga de texugo, e que têm em um só dedo mais metal e atitude do que você terá na sua vidinha medíocre inteira: Manowar. Criada em 1980 na cidade de Auburn, em New Jersey – EUA, a banda formada por Joey DeMayo e Ross Friedman (mais conhecido por nós mortais como Ross the Boss) teve início em uma conversa dos dois numa turnê do Black Sabbath – banda para qual DeMayo trabalhava como técnico de baixo – que tinha como banda de abertura a Shakin Street, onde Ross the Boss era guitarrista. E o resto, como dizem, é história.


Com mais de 35 anos de carreira e uma legião de fãs molhadinhos os seguindo de perto, o Manowar é um dos principais (senão o principal) responsáveis pela alcunha ‘True Metal’, conhecida e adorada por todos nós headbangers por ser a vertente da cena que idolatra o verdadeiro metal sem frescuras e massacra os posers que só querem usar aquele cinto de bala de plástico e uma jaquetinha deprimente com patches do Metallica e Iron Maiden. Então, sem mais delongas, vamos visitar essa discografia e descobrir quais são os melhores plays de Eric Adams, Joey DeMayo e companhia; se discordarem, podem roubar meu visú depois. 

Every one of us has heard the call
Brothers of True Metal proud and standing tall
We know the power within us has brought us to this hall
there's magic in the metal there's magic in us all

(…)

Now the world must listen to our decree
We don't turn down for anyone we do just what we please
got to make it louder, all men play on ten
If you're not into metal, you are not my friend!

11 – The Lord Of Steel (2012)


Sem surpresas aqui. Produção horrível (ainda mais pra uma banda que se vangloria de ter sido pioneira – no Heavy Metal - em gravar faixas com som 7.1 Dolby Surround), linhas de guitarra irrisórias e melodias estranhas. Lord of Steel é mais feio que suas fotos no facebook, mais fraco que sua determinação na vida e menos expressivo do que sua importância na sociedade. Em resumo, o Lord of Steel é você: medíocre.

10 – Gods Of War (2007)


Gods of War é um álbum bom. O problema é que as linhas vocais, de baixo, guitarra (de todos os instrumentos, na verdade) não casam bem com a atmosfera épica abordada no álbum, e as canções acabam saindo fracas, pálidas. Isso se agrava ainda mais quando notamos que a temática Viking é revisitada à exaustão na cena do metal mundial, e feita com muito mais competência por bandas muito menores e inexpressivas que o Manowar. A idéia foi até boa, mas a execução saiu bem abaixo do esperado.

9 – Fighting The World (1987)


Eu absolutamente adoro esse play, me julguem. Acho as três primeiras faixas mais ‘Happy Metal’ do que qualquer coisa que o Helloween tenha lançado (amadores), mas esse é o problema quando você quer ser um guerreiro de Odin que molha sua espada no sangue de virgens e sonha em ir pra Valhalla: você tem que ser fodão, e não feliz e saltitante. Há aqui, obviamente, ótimas faixas que são consideradas clássicas até hoje como a destruidora “Violence and Bloodshed”, a faixa título – mais grudenta que esse ranho que você limpa na manga do casaco - e o hino “Black Wind, Fire and Steel”; Fighting the World é, sem dúvidas, o álbum mais diversificado da carreira do Manowar, e o que possui a maior veia comercial, por consequência.

8 – The Triumph Of Steel (1992)


Como sempre, há ótimas músicas em The Triumph of Steel como a matadora, magnífica e destruidora de posers “Metal Warriors”, a ótima “The Power of Thy Sword”, com uma atuação impecável de Eric Adams, e a boa balada “Master of the Wind”. O play peca um pouco, porém, em misturar demais elementos que não conseguem grudar o ouvinte, como na simplória “Burning” e na longa (longa demais) “Achilles, Agony and Ecstasy in Eight Parts”.

7 – Warriors Of The World (2002)


Me lembro da longa espera, que parecia nunca ter fim, de 6 anos entre o último álbum do Manowar e Warriors of the World; as expectativas eram muito altas e a banda teria que comparecer à altura. De fato, o álbum tem boa qualidade, mas mais uma vez é um misto de ótimas músicas e várias das chamadas ‘fillers’, que estão lá apenas para compor o tempo de duração do trabalho. Claro, temos “Call to Arms”, “House of Death” e a faixa-título, mas também vemos faixas estranhas, como as patrióticas “An American Trilogy” e “The Fight for Freedom”, e uma infeliz adaptação da famosa ária “Nessun Dorma”, de Giacomo Puccini. Talvez Adams, DeMayo, Columbus e Logan tenham ficado emocionados demais com os ataques de 11/9/2001.

6 – Kings Of Metal (1988)


O início de “Wheels of Fire” já mostra que os filhos de Conan não estavam pra brincadeiras aqui. Da porradaria ao hino épico, passando por uma das maiores baladas de todos os tempos em “Heart of Steel” e chegando na inconfundível, visceral e genial “Hail and Kill”, sobra sangue, aço e flecha pra todo mundo em Kings of Metal. Foi aqui, obviamente, que os estadunidenses ganharam a alcunha de ‘reis do metal’.

5 – Louder Than Hell (1996)


‘Bebeu água da privada, Bruno, ta louco? Louder Than Hell melhor que Kings of Metal?!’. É, eu também fiquei surpreso. Mas analisando música por música, a época que os dois álbuns saíram e fatores como execução e proficiência, Louder Than Hell leva a melhor por alguns centímetros. Além do mais, vemos aqui muitos temas que viriam a ser adorados pelos fãs e críticos, como “Return of the Warlord”, “The Gods Made Heavy Metal”, “Outlaw” e o petardo que faz chorar “Brothers of Metal”. Que atire a primeira pedra quem nunca cantou esse som abraçado com o amigo, mais louco que o Burzum, num churrasco por aí.

4 – Into Glory Ride (1983)


“Warlord”, “Gloves of Metal”, “Gates of Valhalla”, “March of Revenge (By the Soldiers of Death” e uma capa de cunho extremamente duvidoso com Joey DeMayo vestido de Cavaleiro do Zodíaco e Eric Adams de Elvis Presley. Como não amar?

3 – Sign of the Hammer (1984)


A faixa-título sozinha já é suficiente pra colocar Sign of the Hammer em uma posição confortável na discografia do Manowar. Mas aqui há muito mais do que os olhos podem ver: produção excelente, inspiração ímpar e o lançamento de não só um, mas dois álbums de altíssimo nível num espaço de menos de 4 meses tornam o play num dos melhores trabalhos da banda.

2 – Hail to England (1984)


Como eu disse, foram duas sapecadas no ouvido num espaço curtíssimo de tempo, começando por esse poderoso álbum. São 7 músicas, 7 clássicos; uma performance de gala de um dos maiores vocalistas de todos os tempos, uma virtuose sem limites de um guitarrista que transbordava talento, um ser endiabrado e selvagem destruindo o kit de bateria e um líder intelectual no auge de sua prosa. Hail to England é uma aula de True Metal.

1 – Battle Hymns (1982)


“Metal Daze” foi a primeira música do Manowar que ouvi, e foi amor à primeira audição. Battle Hymn é, sem sombra de dúvidas, um dos mais influentes e respeitados álbums da história do Heavy Metal, e não é exagero algum chama-lo de atemporal, transcedental. De “Fast Taker” à brilhante “Battle Hymn”, não há o que se tirar nem colocar nessa pepita de ouro forjada pelos próprios deuses da música pesada. Magnífico.

Espero que tenham gostado! Mandem sugestões para as próximas bandas a ser ranqueadas.

por Bruno Medeiros

O monstro Danny Lilker


Nascido como Daniel Lilker, ele também é conhecido como Dan ou Danny Lilker, um multi-instrumentista que carrega em seu nome a genialidade de tocar seu baixo com distorções tão absurdamente engendradas como que nos faz viajar pelo universo seleto dos grandes virtuoses guitarristas. Além do baixo, Danny toca piano, bateria, guitarra e se aventura pelos campos da voz.

Precocemente, aos 16 anos, juntamente com Scott Ian, em 1981, fundou a tão aclamada banda Anthrax. Nos primórdios da composição da banda, Danny aparecia tocando guitarra, mas no percurso de formalização da lineup, ele assumiu a responsabilidade das 4 cordas, dando espaço a Greg Walls (ex Hittman) para o gerenciamento das guitarras solo.

Foram duas demos e um single até o lançamento do debut "Fistful of Metal" em 1984, um dos embriões do thash metal. Inexoravelmente, o que mais assombra (apesar da perfeição de todos) na composição desse debut são as performances de Lilker e do hoje magnânimo mestre das baquetas Charlie Benante. A lineup desse petardo atemporal, eterno e divinal se completa com Dan Spitz nas guitarras solo e Neil Turbin nos vocais. Uma obra além da compreensão de simples mortais como nós. Danny também aparece na formação da banda em duas faixas do EP "Armed and Dangerous", prenúncio do fantástico "Spreading the Disease" de 1985 que já contava com o fantástico Frank Bello no baixo.

Danny deixava o Anthrax para fundar o Nuclear Assault, outra banda de thrash metal, mas com muito mais velocidade. Dois anos após a formação da banda surge o álbum que mostrou vários caminhos para a concepção do thrash crossover. Pra mim é, indubitavelmente, um dos 5 melhores álbuns de thrash de todos os tempos, o magnífico "Game Over", isso sem falar do álbum "Survive", outra esplêndida obra. A velocidade de Danny é o que comanda a carnificina debutante do Nuclear Assault, mas as atuações de John Connelly na guitarra e nos vocais somadas ao brilhantismo incostestável de Anthony Bramante, guitarrista que anos mais tarde participaria de outro dos álbuns mais perfeitos que meus ouvidos já escutaram, o "Cyberchrist" da banda Phantom.


No Nuclear Assault, Danny vive entre idas e vindas, obviamente devido a quantidade de compromissos que tem com outras bandas, desde os primórdios oitentistas.

Paralelamente, em 1985, a verdadeira genesis do crossover surge das ideias do irriquieto Scott Ian do Anthrax. Entediado à espera dos resultados de produção de "Spreading the Disease", ele tenta algumas experimentações relacionadas ao hardcore mais grosso e sujo que o thrash. Mas como fazer algo mais rápido, pegajoso e asqueroso que o thrash metal e menos musicalmente pobre que o hardcore-punk? Primeiramente com músicos que andam à velocidade da luz e tenham em suas virtudes o conhecimento profundo de seus instrumentos: Charlie Benante e Danny Lilker... não existem melhores e mais completos. Muita harmonia e virtuosismo necessita algo podre para amadurecer a ideia: Billy Milano, vocalista da banda hardcore The Cryptos e componente da roadie crew do próprio Anthrax.

Surge, então, o projeto Stormtroopers of Death ou S.O.D. como ficaram mais conhecidos. A irreverência de Scott, Charlie e, principalmente, Lilker faz com que, após o lançamento de uma demo composta de 63 canções, eles lançam o debut "Speak English or Die" (Fale Inglês ou Morra), uma sátira à pseudo obrigatoriedade do idioma inglês como garantia de sucesso em qualquer área de atuação. Letras compostas principalmente por LIlker, três dias de estúdio para a gravação, produção e mixagem e sucesso instantâneo de uma nova vertente do eixo punk-metal.

O homem que se move à velocidade da luz necessita algo mais visceral ainda. Após um projeto paralelo denominado "Extra Hot Sauce", onde toca bateria, Danny cria, em 1990, a banda Brutal Truth, uma das coisas mais magníficas e contagiantes dentro do universo grindcore, que estava se firmando como vertente dominante no final dos anos 80, ao lado do tão amado death metal. Música pra ouvidos resistentes à hecatombes, sismos e outros desesperos de enredo catastrófico. 

No baixo e nos vocais secundários, Danny é um primor de atitude violenta, o Brutal Truth é avassalador. Quanto mais velocidade, agressividade, impetuosidade e feiúra, mais se torna essencial a presença de Danny LIlker.


Mais algumas bandas onde Danny Lilker teve papel relevante para a sobrevivência do Heavy Metal nos anos 90 e sua posterior eternidade:

Exit-13 - Grindcore - baixo, piano e vocais
Hemlock (como Balth)- Black Metal - baixo
Holy Moses - Speed/Tharsh Metal - baixo e piano
The Ravenous - Death Metal - baixo
Crucifist - Black/Heavy Metal - baixo e vocais (grunhidos)
NunFuckRitual - Black Metal - baixo
Evil Wrath - Black Metal - baixo
Autopsy (live) - Death Metal - baixo

E a atual e sensacional Burring onde atua como baixista também com a alcunha de Balth

Danny Lilker é, também, um Midas Touch do Metal. Tudo aquilo que ele toca é ouro puro. Não há nada de medíocre ou mesmo mediano na carreira desse excepcional baixista, letrista e multi-instrumentista tão venerado por todo universo Heavy Metal.

por Luís Henrique Campos

Chuck Schuldiner - O Hexagrama da virtuose extramundo


A história musical desse garoto prodígio começa em 1976 quando, devido à morte de seu irmão mais velho, ele ganhou um violão e frequentou a escola de música por quase um ano. Não contente com seu abandono da escola de violão clássico, seus pais, então o presentearam com uma guitarra, despertando assim, definitivamente, sua paixão pela música.
Nascido em 1967 como Charles Michael Schuldiner em Long Sland, de família judia, Chuck deixou um legado estratosférico nos anais da música pesada, sendo, inclusive, aclamado por uma legião de fãs como o "pai do death metal", subgênero extravagante e brutal do heavy metal.

Com a solidificação do thrash metal como febre entre os jovens headbangers da época, faziam-se necessárias e inevitáveis duas formas de pensamento: a velocidade e a brutalidade, conceitos difundidos à época como "quanto mais cru e sujo, melhor".

A iniciação

Em 1983, aos 16 anos, Schuldiner aliou-se aos amigos Rick Rozz e Barney "Kam" Lee para formar a banda Mantas, despertando assim, seu desejo incontrolável em compor. Inspirados em bandas que estavam no ápice de seus respectivos sucessos como Slayer, Metallica, Venom, Possessed, Iron Maiden, Kiss e Judas Priest, a banda, com inúmeras composições em sua lineup produziu, entre os anos de 1984 e 1986, um sem número de demo-tapes de valor inquestionável para o segmento, a maioria delas já sob o nome de Death e, entre elas, as que marcaram-na como precursora e criadora do death metal: "Death by Metal" e "Reign of Terror" em 1984, "Infernal Death" e "Rigor Mortis" em 1985 e "Back from the Death" e "Scream Bloody Gore Aborted Sessions" em 1986.

O Hexagrama da virtuose extramundo

O hexagrama, polígono estrelado de 6 pontas e composto por dois triângulos equiláteros superpostos, é considerado por místicos mundo afora como algo que representa o sobrenatural, a luta entre o bem e o mal, o poder da magia mal intencionada e mais um monte de asneiras cabalísticas. Para a comunidade judaico-cristã, é a Estrela de David, símbolo que representa o poder do povo de Salomão e/ou o renascimento do Cristo, aquele que foi e nunca mais voltou [sic!].

Já para a filosofia, o hexagrama é o símbolo que representa a conjunção entre a consciência cósmica (do universo) e a sapiência telúrica (da Terra) e o desenvolvimento filosófico de Schuldiner caminhou a passos largos por essas veredas. Em poucos anos ele assimilou o melhor da filosofia universal, desde os pensamentos analíticos de ponderação de Sócrates e Platão até as observâncias cético-realistas de Nietszch, Dostoiévsky e Schoppenhauer. O interessante no decorrer de sua produção lírica é a caracterização da obra de Dante Alighieri, "A Divina Comédia", a vida com o ela é entre o céu e o inferno da existência humana, onde o viés de cunho teosófico concerne às suas composições um enredo épico-conceitual.

Poeticamente, até mesmo porque a brutalidade e a velocidade do death metal não permitem um primor lírico, as letras de Schuldiner são marcadas por rimas fáceis e geometria crua, mas no contexto intrínseco, é uma viagem de difícil compreensão para aqueles que não têm como hábito, a leitura, a meditação e o entendimento da essência humana.


O debut

Voltando à música, que me desculpem os fãs mais fervorosos, o death metal, apesar das técnicas mirabolantes de guitarra e baixo, é algo de difícil degustação, salvo a exceção de algumas bandas mundo afora, exceções essas que têm como característica principal a influência da escola de Schuldiner, no mais, não passa de um amontoado de músicos barulhentos, repetitivos e de pouca verve sonora. E por que isso? Simplesmente porque a música necessita de 3 componentes básicos para ser de bom grado: harmonia, ritmo e melodia.

Sobre a harmonia sabemos que o death metal a tem de sobra. As técnicas extravagantes unidas às complexas escalas dão até um certo status de virtuosismo aos seus executantes, o ritmo é quase sempre o mesmo, de batida repetitiva, constante e incansável, entretanto, falta ao death metal a melodia (isto para a maioria das bandas, como já foi dito). A diferença da música de Schuldiner é exatamente essa, a melodia, que é farta e até extrapola os conceitos da musicabilidade e isto já podemos sentir em seu primeiro álbum de estúdio.

Em "Scream Bloody Gore", lançado em 1987, Schuldiner (já sem a companhia de Rozz e Kam Lee) aproveitou todos os elementos disponibilizados pelo avanço do speed, do thrash, do power e do black metal da primeira metade da década de ouro naquele, trazendo consigo Chris Reifert do Burnt Offering, que mais tarde iria assumir as baquetas da Autopsy. O debut da Death é alcunhado como o primeiro álbum de death metal da história. Sabemos que isso não é uma verdade absoluta, mas a projeção que alcançou junto à crítica especializada mais a aceitação imediata e inconteste pela juventude da época faz com que esse título seja mérito de honoris causa.

Num crescente estarrecedor, "Scream Bloody Gore" deixou marcado nas mentes dos amantes da música feia clássicos como "Zombie Ritual", "Batized in Blood", a sensacional e ultra veloz "Evil Dead", culminando com a faixa título. Poucos 34 minutos que nos valem como que uma prisão eterna e divinal em algum lapso de tempo perdido nas infinitas singularidades do universo.

O aperfeiçoamento 

A necessidade perfeccionista de Chuck exigia conecções e evoluções e, para tanto, Bill Andrews, baterista da Massacre e o retorno (mais uma vez) de Rick Rozz para auxiliá-lo nos trabalhos de guitarra. Além de uma melhora considerável na produção, a evolução técnica e lírica de Schuldiner é notadamente escandalosa. O álbum "Leprosy" é lançado um ano depois, em 1988.

Velocidade e técnica aprimoradas sem deixar de lado o quesito crucial de uma boa música: a melodia. Culminou, obviamente, numa "coqueluche epidêmica" dentro do universo metal, tanto para surgimento de milhares de bandas do estilo como para o arrebanhamento de fãs por todo o mundo. Chuck e Death marcavam, definitivamente, os emblemas da música pesada.
Temas como "Pull the Plug", "Forgotten Past" e a própria faixa "Leprosy" se tornaram sinônimo do que há de melhor entre todos os segmentos do heavy metal. Com o sucesso alcançado, turnê pela Europa e América do Norte, e foi no México que Chuck convidou um guitarrista que despontava como promessa, Paul Masvidal, da banda Seaweed de thrash metal e que viria, mais tarde, se tornar referência nas icônicas Master e Cynic.


A supra evolução

A audácia de Schuldiner fez-se presente na prova de fogo do terceiro álbum, o aclamado "Spiritual Healing, lançado em fevereiro de 1990. Chuck, em primeiro lugar, mudou a temática das composições, deixando o conceito deprimente e efusivo em relação à morte e atacando o âmbito social severamente, com críticas incisivas à imoralidade social humana, como pode se notar, imediatamente no título do álbum, "Cura Espiritual". Seu crescimento técnico e filosófico é notório e notável, sua percepção da realidade mesquinha da humanidade, mesmo precoce para seus 22 anos, faz com que sua figura passe a ser admirada não só pelo ufanismo de seus seguidores, mas também por sua acentuada intelectualidade.

Musicalmente, o álbum segue uma crescente técnica e sapiente. A capacidade de aprendizado e aperfeiçoamento de Chuck é assombrosa. Na lineup constam agora James Murphy (guitarrista da Hallow's Eve) e Terry Butler (baixista da Massacre), além de Bill Andrews na bateria. Murphy e Butler foram demitidos da banda logo após a turnê europeia que não contou com a participação de Chuck por descontentamento com a organização. a atitude deles em continuarem a turnê recrutando os roadies da banda em substituição a Schuldiner foi a gota d'água para que o gênio explosivo decidisse por não mais ter músicos fixos em sua companhia, optando, a partir de então, apenas por músicos contratados.

Explosão química e técnica

No ano seguinte, em 1991, são contratados Paul Masvidal, que naquele momento era guitarrista da Cynic, o novato Sean Reinert para a bateria e o magnífico baixista Steve DiGiorgio da Sadus para as gravações e lançamento do quarto álbum "Human". Numa produção refletiva e cristalina, o álbum conquistou picos de vendagem além de alcançar a midia televisiva como a primeira banda de metal extremo a ser ovacionada pela crítica com o clip de "Lack of Comprehension" veiculado exaustivamente pela MTV e outros meios afins. Composto de melodias intrincadas e técnica e performance inigualáveis até então, a veia progressiva de Schuldiner aflorou definitivamente, muito além dos traços dos álbuns anteriores, tornando o álbum em excelência da virtuose transcendental, algo jamais visto em qualquer lugar do planeta.

O filósofo

Para o quinto lançamento da banda, as saídas de Masvidal e Reinert ocasionaram a contratação de Gene Hoglan, ex- Dark Angel e Andy LaRocke, ex-King Diamond, duas presenças de soberania para a concepção de "Individual Thought Patterns", considerados por muitos como o ápice do desenvolvimento técnico da banda e, obviamente, de Schuldiner, coisa que não concordo. A tendência progressiva ainda mais acentuada (sinal de evolução), mas, com uma roupagem portentosa e assustadora, elevava Schuldiner ao título de virtuoso, dado o nível técnico e lírico de cada composição. "Overactive Imagination" e "Trapped In A Corner" alcançavam toda a sublimidade arraigada numa alma genial e, encerrando o álbum, a magistral "The Philosopher", que traduzia em flashs de lucidez, a introspectiva intelectualidade escondida sob os mantos da genialidade e somente vista entre os mestres do classicismo dos séculos 17, 18 e 19.


Misantropia

Após longa turnê, surge o momento da criação de um novo álbum, o sexto da banda. Por mais incrível que possa parecer, "Symbolic" é ainda melhor que o álbum anterior. Falar sobre as faixas mais consagradas no quesito técnica apurada é chover no molhado, pois Chuck se apresenta ainda mais soberbo, mas o lirismo aplicado, as letras de cada composição acabam se tornando o ponto alto da nova obra da Death, composições textualizadas no existencialismo, na psiquê humana e na misantropia.

"Perennial Quest", "Zero Tolerance", a faixa título e "Misanthrope" são poemas musicados que mostram a decadência da humanidade e o ódio de Chuck pela mesma. A tendência prog empurrou a banda para o classicismo jazzista e portanto, a necessidade da contratação de um guitarrista com essa aptidão, então veio Bobby Koelble da Azrael, banda de tecno-thrash de Minnesota. O desconhecido Kelly Conlan é o baixista contratado, dado o experimentalismo laboratorial evidente em Schuldiner.
Nesse mesmo tempo, Chuck inicia os trabalhos de seu novo projeto,a banda Control Denied, o que levaria a Death a um hiato de 3 anos e meio.

Catarse

Em 1998 a banda lança "The Sound of Perseverance", seu derradeiro álbum.
Os contratados: Richard Christy, bateria; Shannon Hamm, guitarra e Scott Clendenin, baixo, todos músicos contratados e aproveitados do projeto Control Denied.

O álbum é ainda mais técnico e mais progressivo, também e obviamente, é mais soberboso e introspectivo. Chuck abandona os guturais e passa a cantar nas bases da linha thrash, mais agudo, mais rasgado. Canções como "Scavenger Of Human Sorrow", "Spirit Crusher", "To Forgive Is to Suffer" e "A Moment Of Clarity" demonstram que a evolução de Schuldiner é incessante ou indomável tal a magnitude de sua proeminente deidade.

Há uns dias alguém comentou que a pior música de "The Sound of Perseverance" é a cover de "Painkiller" do Judas Priest. Eu fiquei admirando a diferença entre a genialidade de Schudiner e a idiotização da opinião de um ufanista desinformado e nada crível. Posso apenas lamentar a ausência de intelecto de um ser que, com tal tipo de pensamento (se é que pensa), provavelmente só ocupa lugar no mundo, sem produzir algo útil ou louvável de apreciação.


Negando o controle

A majestade se viu na obrigação de respeitar seus súditos e para tanto decidiu desvincular seu novo projeto Control Denied da massa seguidora da Death. Suas intenções eram de diminuir o poder e a agressividade de suas canções. Como fizera em "The Sound of Perseverance", reduzindo a força dos vocais guturais, ele contratou Tim Aymar, um vocalista mais melódico e recontratou Steve DiGiorgio para as nuances da cozinha de sua nova banda.

"The Fragile Art of Existence" é uma experimentação prog/power com todas as característica de prog/death desenvolvidas por Schuldiner na Death. A diferença é a suavidade melódica das vocalizações.
Com todo o arsenal de recursos criativos que lhe eram inerentes, Chuck, que já apresentava problemas de saúde ainda não diagnosticados, insinuava o quão frágil era (e é) a existência de um ser. Era tão sensível sua percepção que não precisamos entender os versos de suas canções nesse álbum, basta fechar os olhos e atentar apenas ao título de cada uma delas: "Consumido", "Espere o Inesperado", "Quando a Ligação se Torna Ausente" e "A Frágil Arte da Existência".

Morte, legitimidade e eternidade

Depois de lutar por dois anos contra um raro tipo de câncer cerebral, diagnosticado quando do lançamento do debut da Control Denied, ajudado financeiramente por fãs do mundo todo, já que o underground, por mais que seja genial, não rende grandes fortunas aos seus conspiradores, Chuck Schuldiner faleceu um dia após sua alta do hospital que negava o tratamento sem o devido pagamento antecipado, isso no dia 13 de dezembro de 2001.

Certo dia eu disse que a obra de Chuck só era reconhecida em virtude de sua precoce morte e não por sua genialidade em levar ao topo do virtuosismo a complexidade da música feia e brutal e com isso consegui uma legião de demônios a me odiar, mas é assim que sempre acontece, você só é bom depois que morre.

Numa só existência, as homenagens póstumas de "Porões do Underground", "Midas Touch", "Obras Sui Generis" e não uma ou duas "Trincas de Ases", mas sim, um "Octeto de Ases", coisa que só é possível encontrar escondida sob as mangas dos grandes gênios que sempre estarão a nos surpreender.

por Luís Henrique Campos

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...