quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Melhores álbuns do mês: Outubro 2017



Há uma dose cavalar de loucura em tentar abraçar o mundo do Metal em pleno 2017 e caçar, destrinchar e avaliar dezenas (quando não chega na centena) de álbuns todo mês. Quem acha que o jornalista de carreira, pseudo-pensador e bostejador eventual William Waack tá fodido com seu recente escândalo de racismo ou que o ano do Palmeiras é digno de pena, nunca se deparou com um resenhista mergulhando nas águas negras da Metalosfera e nadando contra a corrente pra garimpar as pérolas lá no fundo, muitas vezes quase que imperceptíveis; isso sim é desesperador.

Relaxa, meu caro paladino da justiça social, isso é uma brincadeira e eu sei que os “Metal first-world problems” que eu enfrento não chegam nem perto de problemas de verdade, só que a porra da coluna é minha e eu reclamo o quanto eu quiser! Mas eu divago, vamos ao que interessa: a música!

De novo – e suspeito que pra sempre será assim -, escolher só 15 álbuns para a lista foi tarefa mais ingrata que escolher quem é a pior banda entre Slipknot e Korn. Outubro foi, definitivamente, o mês do Doom, Death, Power e suas vertentes, com o Black um pouco mais fraco (Blut Aus Nord lançou um bom álbum, pra variar, mas esse não é nem sombra de suas outras peças, e o Enslaved, que já nem considero Black mais, mandou pra galera um álbum só ok) e o Heavy completamente desnutrido e jogado às traças. No outro lado da moeda, como já disse, o Doom destruiu tudo e tem três representantes no ranking - além de bons álbuns que ficaram de fora como ‘Return’ do Ixion e ‘Curse of Conception’ do Spirit Adrift - e o Power deliciou os fãs das espadinhas, dragões e fantasia com obras de respeito como ‘The Great Brotherwar’ dos Alemães do Evertale e com os sempre divertidos Tierra Santa, Powerquest e Concerto Moon fazendo bonito com seus trabalhos. Pra variar, o Death também arregaçou as mangas e mandou seus filhotes Cannibal Corpse, The Black Dahlia Murder, Inverted Serenity e Damnation Defaced pra trabalhar, todos com resultado mais do que satisfatório. O Thrash, por sua vez, teve um mês morno mas mesmo assim enviou dois representantes pra nossa lista, o que prova que o estilo vai muito bem, obrigado.

Viu como é uma merda escolher só 15 plays? Pois é. Então se liga aí embaixo as pepitas que entendo como as melhores que esse puta mês nos proporcionou. Como já de costume, as escolhas seguem por ordem alfabética e não de melhor para pior.

Andras - Reminiszenzen... 
(Epic Pagan)


Os veteraníssimos do Andras mais uma vez provam que, mesmo da Alemanha, é possível conceber atmosfera e aura Pagãs matadoras. ‘Reminiszenzen...’ mescla o Inglês com o Alemão em suas letras e som Black com os elementos típicos do Pagan, em uma porradaria pra fã nenhum de Menhir e Black Messiah botar defeito.


Bell Witch – Mirror Reaper (Funeral Doom)


Funeral Doom é, para a maioria, insuportável. Também o é, porém, um gosto adquirido, e quando você entende a proposta e mensagem do estilo, vê que seu valor é inestimável. O Bell Witch entrega essa mensagem como ninguém, e ‘Mirror Reaper’ consolida a dupla estadunidense como uma das autoridades no assunto. Belíssimo trabalho.


Bestial Invasion – Contra Omnes 
(Technical Thrash)


Sim, caro amigo que, ao ler o nome da banda, ficou mais empolgado que cachorro no cio: Bestial Invasion é Thrash, e do melhor pedigree. Técnicos, rápidos, agressivos e inspirados, esses semi-novatos Ucranianos destroem tudo em seu caminho com ‘Contra Omnes’, segundo full dos caras e o melhor até agora. Mais do que mandatório para fãs de Watchtower, Sadus, Toxik e afins.


Communic – Where Echoes Gather 
(Progressive Heavy/Power)


O gigantesco trio Erik Mortensen (baixo), Tor Atle Andersen (bateria) e Oddleif Stensland (guitarra, vocal) retorna seis anos depois do mediano ‘The Bottom Deep’ pra recuperar o prestígio e explodir a mente de todos que duvidaram um dia da capacidade do Communic. ‘Where Echoes Gather’ é intricado, melódico e agressivo nas partes certas e, o mais importante, a volta à forma de uma das grandes bandas Norueguesas.


Hallatar – No Stars upon the Bridge 
(Atmospheric Doom/Death)


Banda fundada pelo multi-instrumentista e verdadeiro gênio Juha Raivio como uma homenagem à sua amada, Aleah Stanbridge, o Hallatar canaliza a tristeza de seu líder e transforma ‘No Stars upon the Bridge’ em uma montanha-russa de sentimentos. Com a bateria profunda e cheia de feeling de Mika Karppinen, e principalmente através dos vocais excelentes de Tomi Joutsen (Amorphis), Raivio teve a ajuda necessária para expor seus sentimentos e fazer desse trabalho um grandioso ode ao amor e ao sofrimento.


Keldian – Darkness and Light 
(Power Metal/AOR)


Sim, essa mistureba existe. Na ativa há mais de dez anos, a dupla dinâmica Christer Andresen (vocal, baixo, guitarra) e Arild Aardalen (keyboard) sempre lançou verdadeiras pepitas de ouro, e dessa vez não é diferente. Extremamente leve, divertido e inteligente, ‘Darkness and Light’ mistura os melhores elementos do Power Metal com pitadas de AOR e até algo de Synth Pop, num resultado que só esses Noruegueses malucos seriam capazes de criar: um dos melhores álbuns do ano.


Masters of Disguise – Alpha/Omega 
(Speed/Power Metal)


Que álbum caralhudo esse novo do Savage Gra…quer dizer, Masters of Disguise! Seguindo a fórmula de sua Alma mater, os Alemães obliteram prédios, varrem cidades e apagam os posers do mapa com velocidade sem igual, riffs cabulosos e atmosfera anos 1980 pra fã nenhum de Speed botar defeito. Imperdível.


Ne Obliviscaris – Urn 
(Extreme Prog Metal)


O Ne Obliviscaris é hoje, talvez, uma das bandas mais únicas da cena. Utilizando do violino como uma de suas armas, o quinteto Australiano surpreende mais uma vez com seu terceiro – e pra mim, o melhor disparado – álbum de estúdio. Emocional e erudito, mas poderoso e transgressor, ‘Urn’ com certeza vai aparecer em muitas listas de melhores do ano por aí.


Spectral Voice – Eroded Corridors of Unbeing 
(Death/Doom)


Compartilhando a maioria dos membros da magnífica Blood Incantation, o Spectral Voice destila seu veneno de forma lenta e brutal. Como quase tudo da Dark Descent Records, ‘Eroded Corridors of Unbeing’ respira Metal extremo e faz frente aos gigantes da cena facilmente. Depois de cinco demos e dois splits, finalmente somos agraciados com o debut de mais uma banda que se tornará gigante, fácil, fácil.


The King is Blind – We Are the Parasite, 
We Are the Cancer 
(Death)


Segundo trabalho dos Britânicos porradeiros. Linhas de guitarra à la Bolt Thrower, melodias orgânicas e inspiradíssimas que nos lembram grandes composições feitas por monstros como Anaal Nathrakh e doses generosas de poder bruto fazem de ‘We Are the Parasite, We Are the Cancer’ um dos mais tenebrosos e interessantes álbuns do mês.


Menções Honrosas:

Dr. Living Dead – Cosmic Conqueror 
(Thrash/Crossover)


A irreverência e liberdade musical dos Suecos mais retardados da cena são potencializadas em ‘Cosmic Conqueror’, quarto álbum de estúdio dos caras. Mais Thrash do que Crossover (graças a Deus), o petardo é visceral e cru nas medidas certas e consolida os doutores como uma força poderosíssima do estilo.


Exhumed – Death Revenge 
(Death/Grind)


Os reis do gore e splatter da Califórnia voltam com suas serras-elétricas e seus machados pra fazer picadinho de qualquer um que não aprecie seu sétimo full-lenght (não conto ‘Gore Metal: A Necrospective 1998-2015’ por motivos óbvios), ‘Death Revenge’. Prato cheio de entranhas e pedaços de dedos para os apreciadores de uma boa dose de sangue e gritos dentro do Metal!


Serenity – Lionheart 
(Power)


Ninguém segura os mestres do Symphonic Power Austríaco! Pouco mais de um ano depois do ótimo ‘Codex Atlanticus’, o Serenity nos agracia mais uma vez com uma pepita de ouro digna da discografia - já rica - dos nativos de Wörgl. ‘Lionheart’ tem a mistura perfeita entre o leve e o pesado, e já se tornou em pouco tempo uma das maiores obras do Serenity. Banquete para os fãs de Kamelot, Heavenly, Dragony e afins.


Sorcerer – The Crowning of the Fire King 
(Epic Doom)


As águas da Suécia devem ter néctar dos deuses ou algo do tipo, porque bandas matadoras brotam do país como a dengue brota no Brasil. Apesar de terem lançado apenas o segundo álbum da carreira do Sorcerer, o quinteto de Estocolmo é experiente na cena, e os caras usam isso a seu favor em ‘The Crowning of the Fire King’. Mágico, denso, cativante e cheio de feeling, o álbum foi uma das minhas primeiras escolhas certas pra figurar ao menos na minha lista de menções honrosas do mês. Gosta de Candlemass, Below, Doomshine e equivalentes? Então isso é obrigatório pra você.


Xanthochroid – Of Erthe and Ashen Act I e Act II (Epic/Melodic Black)


Vou roubar um pouco os meus próprios critérios aqui, mas seria injusto e burro da minha parte escolher só um desses álbuns, já que andam lado a lado e fazem parte de uma mesma história conceitual. O Zanthochroid, não é de hoje, vem fazendo barulho na cena com sua mistura interessantíssima de épico, sinfônico e melódico, com linhas guturais e limpas de vocal, elementos eruditos em suas composições e letras de fazer inveja à J.R.R. Tolkien (ok, nem tanto). Seu segundo e terceiro álbuns, ‘Of Erthe and Ashen Act I e Act II’ contam o prólogo de seu primeiro trabalho, lançado em 2012, de forma quase que teatral. Viciante e acessível, são perfeitos para seguidores de bandas como Ne Obliviscaris, Ihsahn, Moonsorrow e Amiensus.


Redigido por: Bruno Medeiros

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Melhores álbuns do mês: setembro 2017


Mais um mês que passa, mais alguns neurônios queimados e olheiras nascendo de tanto ouvir lançamentos do nosso tão amado Heavy Metal. Setembro teve de tudo: Debuts matadores, bandas consagradas escorregando na banana, plays aguardados fazendo jus à espera e veteranos surpreendendo com volta às raízes. Como minha regra é de colocar 15 álbuns nessa lista, tive que deixar uma caralhada de delícias de fora, o que cortou meu coração. ‘Medusa’, do Paradise Lost, ‘Relentless Mutation’ do Archspire, ‘Amalur’ do Incursed, ‘Undulating Waves of Rainbiotic Iridescence’ do Gigan e ‘The Well of Urd’, debut do River of Souls, foram algumas das maravilhas que, chorando litros, tive que cortar da lista final. Tudo bem que algumas bandas me ajudaram na escolha soltando cocozinhos, como o retorno triste do Nocturnal Rites com ‘Phoenix’ (o curioso caso da fênix que renasceu e já morreu de novo), e o bom, mas sem sal ‘The Deviant Chord’ da lendária Jag Panzer. 

Sem mais delongas, confira abaixo o que considero as melhores pedidas do mundo metálico para o mês de Setembro. De novo, friso que os álbuns seguem sequência alfabética, portanto não possuem ordem de melhor para o pior. Só coisa fina!

Arallu - "Six" (Black/Death) Transcending Obscurity Records


Seguindo os passos de lendas da cena como Melechesh, Azazel e God Dethroned, os Israelenses do Arallu destroem tudo em seu caminho com ‘Six’, um ode ao Black/Death com elementos musicais característicos do Oriente Médio. Desafiador e profundo.


Argus - "From Fields of Fire" (Heavy/Doom) Cruz del Sur Music


O que dizer de uma das melhores bandas do cast da Cruz del Sur e um verdadeiro mamute musical? O quarto álbum dos estadunidenses do Argus, ‘From Fields of Fire’, sucede o quase perfeito ‘Beyond the Martyrs’ de forma elegante e magistral. Perfeito para os adeptos do True Metal.


Demoniac - "Intemperance" (Thrash) Witches Brew


Quem me conhece sabe que amo um Thrash mais demoníaco e profano, e é exatamente isso que esses malucos Chilenos entregam em seu debut. ‘Intemperance’ já mostra um Demoniac extremamente maduro e muito à frente de centenas de veteranos com seu som visceral e vocais extremamente agressivos. Uma aula de Thrash.


Evil Invaders - "Feed Me Violence" (Speed/Thrash) Napalm Records


Já nos primeiros acordes de “Mental Penitentiary” conseguimos ver o motivo de essa pepita de ouro ter entrado facinho na lista de melhores do mês. Mais rápido do que você ejacula quando aquela delicinha te leva pra cama, os Belgas mais malucos dos últimos tempos destroem e varrem tudo em seu caminho. Dan Beehler esta orgulhoso.


Galneryus - "Ultimate Sacrifice" (Power) Warner Music Japan


Os guerreiros mais açucarados do Japão estão de volta e, pra variar, lançaram mais um álbum muito acima da média. Seguindo a linha de seus trabalhos passados, o Galneryus conseguiu de novo transpor a barreira do virtuoso x acessível e fizeram de ‘Ultimate Sacrifice’ o melhor álbum de Power Metal de setembro, além de um dos melhores do ano no estilo. Palmas para os mestres orientais do Power Neoclássico.


Night (Swe) - "Raft of the World" (Heavy) The Sign Records


Sofisticado e polido, sem perder a essência do que o Heavy representa. ‘Raft of the World’ é disparado o melhor álbum dos Suecos do Night, que conta com doses cavalares de referências ao final dos anos 1970 e começo dos 1980, além de passagens extremamente elegantes.


Numenor - "Chronicles from the Realms Beyond" (Epic Black/Power) Stormspell Records


Caralho, existe Epic Black/Power? Existe, e é lindo. O Numenor, apesar de novinha, já é uma das grandes expoentes do Metal Sérvio contemporâneo e vem em uma sequência de lançamentos de sumo respeito. Terceira obra dos guerreiros capitaneados por Despot Marko Miranović, ‘Chronicles From the Realms Beyond’ brinca com os elementos quase antagônicos do Black e Power e constrói uma experiência mágica, poderosa e cativante. “The Last of the Dragonlords” é um show à parte e o cover de “Valhalla” do Blind Guardian vai fazer você suar pelos olhos.


Septicflesh - "Codex Omega" (Symphonic Death) Season of Mist


Bombástico, cinematográfico e erudito. ‘Codex Omega’ devolve o poder e o pódio ao Septicflesh depois do mediano ‘Titan’ (2014) com composições viciantes e hipnotizantes. Mais uma grandiosa obra dos deuses gregos de Atenas.


Threshold - "Legends of the Shires" (Prog) Nuclear Blast


Essa é a prova definitiva de que o Threshold não é do planeta Terra. Obra linda da banda Prog menos Prog da história, ‘Legends of the Shires’ é uma experiência eletrizante e massiva, com mais de uma hora e meia de duração. Mas calma, aqui não tem aquela punhetagem chata de guitarra e viradas bizarras junto de instrumental cansativo; o Threshold usa dos elementos Prog e cria sua própria fórmula, sempre fresca e divertida. Se a joia completa já não fosse o bastante, os Britânicos ainda conseguiram criar uma das melhores músicas do ano em “Small Dark Lines”. Imperdível.


Zornheym - "Where Hatred Dwells and Darkness Reigns" (Symphonic Black)


Um pouco de Dark Funeral, um pouco de Dimmu Borgir, um pouco de King Diamond pra dar tempero. O instrumental prolífico e os hooks criativos fazem do Zornheym uma banda pra ficar de olho. ‘Where...’ (não vou escrever essa porra de título de novo) é o debut dos suecos e já nasce como grande obra, com potencial pra ser responsável por um possível sucesso futuro dos caras. Alie tudo isso a letras inteligentes e você tem um dos melhores plays de setembro, sem dúvidas.


Menções Honrosas:

Cradle of Filth - "Cryptoriana - The Seductiveness of Decay" (Extreme Gothic) Nuclear Blast


Lembra o que eu escrevi lá em cima sobre veteranos surpreendendo e voltando às raízes? Pois bem, falava do retardado Dani Filth e seu filhote Cradle of Filth. Já havíamos notado considerável melhora em ‘Hammer of the Witches’ (2015), mas ‘Cryptoriana’ coroa o que parece ser o retorno à forma de uma das mais icônicas bandas Britânicas. Com uma aura reminiscente aos ótimos ‘Dusk and her Embrace’ (1996) e ‘Cruelty and the Beast’ (1998), Filth e seus ajudantes entregam um trabalho belo e macabro ao mesmo tempo, digno de atenção.


Impalers - "The Celestial Dictator" (Thrash) Evil EyE/Initiun


Bebendo direto na fonte da escola européia do Thrash Metal™, o Impalers retorna quebrando tudo com seu terceiro play de estúdio. Seguindo a linha de seus antecessores, ‘The Celestial Dictator’ transborda energia e empolga durante todo seu curso. Perfeito pra fãs de Artillery, Paradox e afins.


Myrkur - "Mareridt" (Black/Folk) Relapse Records


Talvez pivô de uma das maiores polêmicas na cena do Metal hoje, a Dinamarquesa radicada nos Estados Unidos Amalie Brunn (mais conhecida por Myrkur) dificulta o trabalho dos haters com seu som extremamente profundo e repleto de feeling. Aliando os elementos clássicos do Black Metal com um toque Folk personalizado, a bela entrega seu segundo álbum de estúdio e divide opiniões na cena. Inegável, porém, é a qualidade do trabalho, que mostra uma garota altamente qualificada e capaz de causar um verdadeiro terremoto com sua maravilhosa rendição do estilo.


Overoth - "The Forgotten Tome" (Death) Hostile Media


Das catacumbas do underground, sempre podemos resgatar uma pérola enterrada e despercebida pelos ouvintes casuais. O Overoth retorna depois de sete anos de seu debut com mais um petardo agressivo e sombrio, mas também melódico e impactante. A partir de seu líder Andy Ennis, os Irlandeses despejam energia invejável e performance magnífica em ‘The Forgotten Tome’, mais um grande exemplo do Death Metal em 2017.


Wolves in the Throne Room - "Thrice Woven" (Black) Artemisia Records


Apesar de não tão impactante quanto os transcedentais ‘Diadem of 12 Stars’ (2006) e ‘Two Hunters’ (2007) – mas também não tão polêmico quanto ‘Celestite’ (2014) – ‘Thrice Woven’ marca a retomada dos irmãos Weaver e mais um grande trabalho do Wolves in the Throne Room. Sombrio, depressivo e cataclísmico; do jeito que queremos os gigantes estadunidenses.


Redigido por Bruno Medeiros

Accept - "The Rise Of Chaos" (2017)

Nuclear Blast

Mundo Metal [ Lançamento ]



Se você tem o hábito de assistir os telejornais diários, se interessa pela política mundial, acompanha os conflitos internacionais e tem um mínimo de percepção, provavelmente deve estar assustado e convicto que o mundo está a beira de um colapso. São inúmeras crises, revoluções, guerras, jogadas políticas e pontos de tensão espalhados por todo o globo, nunca se falou tanto em uma possível terceira guerra e os principais líderes mundiais parecem não estar muito preocupados com nada disso. Muito pelo contrário, eles colaboram de forma velada e muitas vezes, poderíamos até jurar que de maneira intencional, para o tal "surgimento do caos".

Tudo vai de mal a pior e apesar do Heavy Metal ser apenas um gênero musical, o estilo sempre possuiu bandas politizadas e capazes de passar mensagens importantes através de suas letras. Com uma situação amedrontadora e extremamente desfavorável como a atual, não foi nenhuma surpresa o conteúdo lírico que o Accept escolheu para seu mais novo trabalho de estúdio. Wolf Hoffmann e Peter Baltes, os dois membros originais e principal núcleo criativo da banda, se concentraram em temas cabais e explicitaram com brilhantismo a desordem que arrebata a sociedade atual.  

"The Rise Of Chaos" nos traz dez composições forjadas no mais puro aço, sem invencionices ou novas fórmulas e é constituído de tudo aquilo que fez do quinteto alemão o que ele é hoje. Estão presentes os riffs assassinos, a cozinha segura, os vocais fortes, os backing vocals bem encaixados e os refrões que grudam instantaneamente no seu subconsciente. Se você é um fã da banda, sabe mais ou menos o que esperar e, caso seja um ouvinte de primeira viagem, este disco certamente irá lhe impressionar.

Este é o quarto registro após o retorno da banda em 2010 e o primeiro sem dois membros da formação clássica. O guitarrista Herman Frank e o baterista Stefan Schwarzmann foram substituídos pelo ex-Grave Digger Uwe Lulis e o novato Christopher Williams. O Accept aposta mais uma vez na sua fórmula manjada, porém funcional de sempre e, como em time que está ganhando não se meche, a sonoridade do novo disco é uma eventual continuação do que vinha sendo apresentado nos ótimos "Blood Of The Nations" (2010), "Stalingrad" (2012) e "Blind Rage" (2014). 

O álbum se incia com a candidata a clássico "Die By The Sword". Com ritmo furioso, riff marcante e os vocais frenéticos de Mark Tornillo, a canção é quase um ode ao final dos tempos. Em seus primeiros versos fica claro o rumo sombrio proposto: "O mundo que nos rodeia está congelado pelo terror/ O equilíbrio do poder é uma coisa do passado/ Qualquer traço humano foi abandonado/ Estamos apenas afogando as almas em um rio de sangue.". E isso não é tudo, pois a letra escrita por Wolf, antes de nos avisar que "se você vive pela espada, você irá morrer pela espada", ainda traz a verdade assustadora: "Perdemos toda a compaixão e amor/ Lançamos nossas almas no vazio".


"Hole In The Head" vem logo na sequência e traz à tona o problema da adicção. Certamente, a questão das drogas não poderia ficar de fora em um disco como este e, sob um ritmo cadenciado e com um refrão perturbador, a mensagem fica clara: "Você me seduziu como um vampiro/ Você é uma maldição para toda a humanidade/ Um beijo da morte auto-infligido/ como eu pude ser tão cego."

A energia do Heavy Metal sobrepuja a cadência e quando a faixa título aparece, ela chega acompanhada de uma explosão de riffs e linhas certeiras, o ritmo é empolgante e a previsão soa quase como um anúncio: "É o começo do fim/ É o surgimento do caos". Um dos grandes destaques do álbum.

Se a proposta é abordar os grandes males do mundo, é claro que a lavagem cerebral imposta pelas instituições religiosas sempre terá cadeira cativa. Em "Koolaid", temos mais uma composição candidata a clássico e através de um andamento altamente cativante (beirando o Hard Rock), o Accept nos conta a real história dos fiéis levados à morte pelo pregador Jim Jones no final dos anos 70. Este foi o maior suicídio em massa da história, com mais de 900 pessoas mortas por envenenamento. Todas foram convencidas a tomar uma espécie de elixir salvador que as levariam ao paraíso, mas que na prática apenas serviu para ceifar suas vidas. O recado dado é bem direto: "Não beba o Koolaid!", em outras palavras, não seja um rebanho, não aja feito um idiota manipulado.

"No Regrets" é uma das mais rápidas e pesadas do disco e devo ressaltar o trabalho da parte rítmica, principalmente do estreante Christopher Williams. A canção fala sobre viver intensamente e não se arrepender de atitudes ou escolhas tomadas, apenas seguir em frente sem olhar pra traz. Apesar de todo o caos implantado, é preciso ter esperança em dias melhores.

Passando da metade da audição, um tema "diferente" aparece na grudenta "Analog Man". A tecnologia é uma realidade no mundo atual e ao mesmo tempo em que estamos envoltos em termos como updates, downloads, streamings e etc, somos convidados a conhecer um cara que não se enquadra no meio de todo esse avanço. "Eu nasci em uma caverna/ Onde o estéreo era responsável por toda a raiva/ O vinil com oito faixas governava o mundo/ Agora há telas planas em 3D/ Meu smartphone é mais inteligente do que eu/ Não consigo continuar, meu cérebro está começando a ferver.". Na verdade, esta faixa é uma brincadeira de Wolf e a letra faz referência a Mark Tornillo, o "homem analógico preso em um mundo digital".


Após um belíssimo momento de irreverência em meio a tantos assuntos preocupantes, "What Is Done Is Done" chega pra retomar a sobriedade e nos avisar que não se pode voltar atrás, você precisa pensar bem no que vai fazer por que "o que está feito, está feito". Se a bala deixar a arma, ela vai atingir o alvo e isso não pode ser mudado, as consequências precisam ser enfrentadas. O refrão é um dos mais pegajosos do disco e o trabalho de guitarras realizado por Wolf e Uwe merece nota.

Nos aproximando do final, "Worlds Colliding" apresenta a batalha interna que todos nós travamos com nosso eu interior. O certo e o errado, o bem e o mal, o ético e o antiético, tudo acontecendo ao mesmo tempo e gritando dentro de você. Aqui somos apresentados aos nossos conflitos e o dever de tomar decisões que afetarão não apenas as nossas vidas, mas a de todos que nos rodeiam. A idéia central é mostrar que as nossas escolhas influenciam e contribuem para o caos instaurado no mundo e a reflexão sobre o tema ainda evidencia que esse caos vem, na verdade, de dentro de cada um de nós.

"Carry The Weight" é detentora de ótimas melodias e é uma canção pulsante, as linhas de guitarra se destacam e o refrão é daqueles que você escuta uma única vez e já sai cantarolando.  O tema central é a manipulação ao qual somos impostos, existem pessoas fazendo acordos, tomando decisões e decidindo o rumo de nossas vidas, você não pode carregar o peso do mundo nas suas costas, mas precisa acordar e enxergar o que realmente está acontecendo debaixo do seu nariz. "Mais aviões caem do céu/ Olhe ao seu redor, inundações e terremotos/ Grandes corporações recebem isenções fiscais/ O euro está em baixa e agora há o Brexit/ O mundo está quebrado e você não pode consertá-lo". É uma letra assustadora, porém muito lúcida e faz uma ponte perfeita para o momento derradeiro do disco.

O encerramento traz a faixa mais pesada do álbum e como o título "Race To Extinction" sugere, retrata a nossa caminhada a largos passos para a extinção. É claro que o registro nos remete a assuntos pra lá de preocupantes, porém o Accept faz questão de nos dizer que a batalha não está perdida: "Podemos mudar essa história/ Nos adaptar e nos comprometer/ O equilíbrio é nossa prioridade/ Abra seus olhos".

Para os menos realistas que esperavam um disco capaz de reinventar a roda ou revolucionar a forma como o estilo é tocado, provavelmente "The Rise Of Chaos" não deve passar de um trabalho comum. Já os ouvintes pés no chão, aqueles que tem convicção de que um "mais do mesmo" bem executado sempre é melhor do que qualquer invencionice nonsense, certamente compreenderão a proposta e irão absorver muito melhor o conteúdo apresentado pela banda. É também importante mencionar que em todas as oportunidades que o Accept tentou se arriscar e percorrer caminhos diferentes do habitual, foi alvo de muitas críticas, sendo assim, é quase uma loucura imaginar que depois de três registros elogiadíssimos e muito bem sucedidos, Wolf e cia pudessem tentar algo fora da sua zona de segurança. Não iriam.


Hoje, o Accept é uma banda veterana extremamente consciente e conhecedora de todos os seus limites, talvez este seja o seu maior trunfo. Tendo em vista que um arroz com feijão bem temperado e bem feito é sempre mais saboroso que um prato caro, requintado e que não te sustenta, espero que os alemães mantenham exatamente a mesma categoria e classe ao compor novos álbuns. A nova empreitada dos alemães é certamente mais um gol de placa anotado em 2017.

Nota: 8,8
*Nota do site The Metal Club: 7.63

Formação:

Mark Tornillo (vocal)
Wolf Hoffmann (guitarra)
Uwe Lulis (guitarra)
Peter Baltes (baixo)
Christopher Williams (bateria)

Faixas:

1. Die By the Sword
2. Hole in the Head
3. The Rise of Chaos
4. Koolaid
5. No Regrets
6. Analog Man
7. What’s Done Is Done
8. Worlds Colliding
9. Carry the Weight
10. Race to Extinction

Redigido por Fabio Reis

*A nota do site The Metal Club é sujeita a modificações de acordo com as avaliações dos seus usuários. Acesse, avalie e veja se sua nota bate com a nossa:

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Dead Kennedys - "Fresh Fruit for Rotting Vegetables"

Mundo Metal [ Clássicos ]



37 anos não são 37 dias, não é mesmo? Lançado em 2 de setembro de 1980, via Cherry Red Records, "Fresh Fruit for Rotting Vegetables" é indiscutivelmente um dos discos mais importantes e emblemáticos do Hardcore/Punk mundial e também um dos mais aclamados dos veteranos do Dead Kennedys, um dos grupos pioneiros do Hardcore americano. Formado em São Francisco, Califórnia (EUA), no fim dos anos setenta, o grupo estadunidense se tornou mundialmente conhecido por suas letras ácidas e poderosas, geralmente de natureza política e social, que muitas vezes fazem menções e sátiras a figuras políticas tanto liberais como conservadoras, bem como autoridade em geral, cultura popular e assuntos do gênero. 

Marcante desde a primeira nota até sua marcante capa, - que mostra vários carros de polícia em chamas, uma fotografia que foi tirada durante os "White Nite Riots", em 21 de maio de 1979, data em que o ex-senador da cidade de São Francisco, Califórnia (EUA), assassinou o prefeito George Moscone e o supervisor Harvey Milk - , o álbum de estreia da banda é simplesmente uma obra prima completamente intensa e que certamente deixou todos os moldes para uma centena de bandas e álbuns que surgiram anos mais tarde. Como grande fã da banda e desse tremendo álbum, me senti na obrigação de dissecar, na medida do possível, esse registro amalucado e maravilhoso. 

A clássica "Kill the Poor" se encarrega de abrir a bolacha, com seu ritmo delirantemente animado e estravagante. De cara, até mesmo o ouvinte menos familiarizado com a sonoridade da banda passa a entender o motivo do grupo ser tão influente e aclamado. Os vocais de Jello Biafra são simplesmente únicos e captam toda a psicose irônica contida na letra dessa composição. Mais pesada e rápida, "Forward to Death" traz uma uma letra recheada de desprezo e ódio. Os riffs de East Bay Ray são grudentos e empolgantes, enquanto a "cozinha", encabeçada pelo baixista Klaus Flouride e pelo baterista Ted, é igualmente robusta.

Sem perder o pique, "When Ya Get Drafted" é outro petardo irresistível! Seu andamento transmite exatamente a ironia e o sarcasmo exigidos pela sua letra. O baixo se destaca, alto e pulsante e ainda há espaço para um inusitado e breve solo de guitarra. Pense num solo realmente curto, mas muito eficiente e hipnótico. É exatamente o que temos aqui. Cadenciada e trazendo uma notória influência de Surf Music e Rockabilly, "Let's Lynch the Landlord" contém uma pegada muito divertida e que funciona como o contraste ideal para a sua letra debochada.

Em seguida, os vocais de Biafra surgem metralhando e cuspindo palavras, introduzindo ao ouvinte a tresloucada "Drug Me". Certamente, outro grande momento do disco. Arranjos estranhos e desconcertantes se fundem aos lunáticos vocais, proporcionando uma experiência musical realmente única e assustadoramente viajante em todos os sentidos da palavra. Uma psicodelia insana, sem mais!"Your Emotions", pra variar, é outra pérola! Altamente energética e curtíssima, é uma faixa tão esquizofrênica e divertida como as anteriores, jamais deixando o ouvinte entediado.


Caracterizada por um andamento cadenciado, "Chemical Warfare" possui algumas variações inusitadas de andamento e ritmo, principalmente quando o seu refrão simples e de fácil assimilação - que apenas consiste na repetição do título da música - é cantado. Há um trecho ainda mais inusitado, próximo ao encerramento da composição. De repente, quando o ouvinte menos espera, temos a inserção de um sample de "Sobre Las Olas", do antigo compositor e violinista mexicano Juventino Rosas. Então, surge um trecho totalmente dissonante e alucinado e pouco após, o refrão é repetido pela última vez, finalizando a música de modo insano e perfeito.

Se iniciando de modo progressivo e instigante, "California Über Alles" ecoa pelos alto-falantes. Descrever essa composição beira a covardia, uma vez que estamos falando de simplesmente um dos maiores hinos não apenas do Dead Kennedys como do Hardcore/Punk, como um todo. A música foi originalmente escrita por Jello Biafra e John Greenway, para a banda de ambos, The Healers. Diga-se de passagem, esse foi um dos raros momentos onde Biafra compôs utilizando um baixo. O título que nomeia a composição é uma alusão ao primeiro verso do hino nacional da Alemanha, que se inicia com a frase "Deutschland, Deutschland über alles." - traduzindo para o português, "Alemanha, Alemanha sobre todos.". 

Por sua vez, a letra da música tece uma crítica direta ao governador da Califórnia, Jerry Brown. Ela simboliza uma canção imaginária de Brown sobre sua visão dos Estados Unidos da América. Nela, também há referências de Brown no papel de Grande Irmão, líder supremo descrito em "1984", obra distópica do autor inglês George Orwell. A narrativa da canção descreve o mesmo ano de 1984, quando Brown seria o "führer" dos EUA. Em poucas palavras, uma canção altamente energética, onde podemos destacar os tradicionais spoken words de Biafra, bem como as influências de Surf Music combinadas ao Hardcore/Punk com exímio. Obrigatória!

Resgatando a velocidade de faixas anteriores e mantendo o clima de ironia e sarcasmo intacto, a insana "I Kill Children" é outro deleite que se destaca muito na obra, deixando o ouvinte atônito com seu ritmo empolgante e irreverente. Sua letra é cantada em primeira pessoa, nos apresentando a visão de um assassino de crianças sem nome. A composição faz paródia com as obsessões gêmeas dos Estados Unidos com extrema violência e conservadorismo. Jello Biafra declarou certa vez que escreveu a música quando ele tinha apenas 18 anos, refletindo sobre o por que certas pessoas se tornam assassinas em série e, por mais incrível que possa parecer, a considera uma de suas músicas mais fracas. Seja como for, não deixa de ser uma música em tanto. 

Mantendo o mesmo nível, "Stealing Peoples' Mail" também nos presenteia com um arranjos estupidamente divertidos e que nos fisgam com uma facilidade incrível. "Funland at the Beach", a décima primeira faixa, traz um andamento mais cadenciado, porém igualmente agradável. Trazendo arranjos estranhos e inusitados, "Ill in the Head" é uma composição que se destaca justamente pela inserção desses elementos pouco convencionais, que acabam por chamar a atenção dos ouvintes de uma forma ou de outra.


Outro grande clássico do Dead Kennedys vem a seguir: "Holiday in Cambodia"! Originalmente gravada como o segundo single do grupo, a canção ganhou uma nova versão nesse primeiro álbum de estúdio, mais longa e com a inclusão de novos elementos, como uma introdução mais longa e influenciada por Surf Music, além de uma ponte extendida e um solo de guitarra. Sua letra também é bem interessante, retratando um ataque a um estudante americano estereotipado, moralizante e privilegiado. Ela oferece uma percepção debochada de jovens, bem-sucedidos e americanos auto-justos, contrapondo esse estilo de vida com a ditadura genocida do Khmer Vermelho, liderada por Pol Pot - retratada na capa do single original e mencionada nas letras, que se acredita ter sido responsável pelas mortes de cerca de dois milhões de pessoas no Camboja entre os anos de 1975 e 1979. 

Tal como "California Über Alles", o início dessa composição é progressivo e passados alguns segundos, somos conduzidos a uma experiência musical genuinamente cativante, com arranjos novamente poderosos e que assimilam exatamente o que a música se propõe a transmitir. Curiosamente, em outubro de 1998, Jello Biafra foi processado pelos antigos membros da Dead Kennedys. Segundo Biafra, o processo foi resultado de sua recusa em permitir que "Holiday in Cambodia" fosse usada em um comercial para Levi's Dockers. O vocalista perdeu o processo e como é proprietário do selo Alternative Tentacles, foi condenado a pagar 200.000 dólares em danos aos outros membros da banda. Controvérsias a parte, não há como negar a importância dessa grande composição. Outro clássico essencial!

Encerrando esse majestoso trabalho, temos uma divertida versão para "Viva Las Vegas", música escrita em 1963 por Doc Pomus e Mort Shuman e gravada no mesmo ano por Elvis Presley para seu filme homônimo. Embora Presley nunca tenha cantado a canção ao vivo, ela se tornou conhecida e ganhou diversas releituras através dos mais diferentes artistas. A versão gravada pelo Dead Kennedys possui uma abordagem diferente, como já era de se imaginar, trazendo um tempo ligeiramente mais rápido, porém mantendo a estrutura melódica da canção original. Biafra também fez algumas alterações na letra, inserindo sátiras no segundo e terceiro versos, mencionando um jogador usando anfetamina e cocaína para não "dormir um minuto sequer". Encerrar o disco com essa releitura foi uma brilhante sacada.


Não há muito o que se dizer! Quase quatro décadas após o seu lançamento e "Fresh Fruit for Rotting Vegetables" continua sendo uma obra atemporal! Jello Biafra e cia. criaram um registro que transcende gerações e permanece impecável em todos os quesitos. Um item obrigatório na coleção de todo apreciador de Hardcore/Punk que se preze e que merece ser ouvido sem qualquer moderação de tempos em tempos!

♫ "Now it is 1984
Knock, knock at your front door
It's the suede denim secret police
They have come for your uncool niece
Come quietly to the camp
You'd look nice as a drawstring lamp
Don't you worry, it's only a shower
For your clothes here's a pretty flower
Die on organic poison gas
Serpent's egg's already hatched
You will croak, you little clown
When you mess with President Brown
When you mess with President Brown

California über alles
California über alles
Über alles California
Über alles California" ♫

Integrantes:

Jello Biafra (vocal)
East Bay Ray (guitarra)
Klaus Flouride (baixo/vocal de apoio)
Ted (bateria)

Faixas:

1. Kill the Poor
2. Forward to Death
3. When Ya Get Drafted
4. Let's Lynch the Landlord
5. Drug Me
6. Your Emotions
7. Chemical Warfare
8. California Über Alles
9. I Kill Children
10. Stealing Peoples' Mail
11. Funland at the Beach
12. Ill in the Head
13. Holiday in Cambodia
14. Viva Las Vegas

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

M.O.D. - "Busted, Broke & American" (2017)

Megaforce Records

Mundo Metal [ Lançamentos ]



Para os mais velhos, deve parecer que foi ontem, mas já faz 30 anos que "U.S.A for M.O.D." (1987), o clássico álbum de estreia do Method of Destruction - ou simplesmente M.O.D., para os íntimos - foi concebido. Sempre que pensamos em uma banda veterana, é inevitável refletirmos sobre seu passado glorioso e seus registros mais emblemáticos e influentes. Se tratando de nomes importantes do Crossover Thrash, ainda que a grande maioria dos apreciadores do estilo lembrem muito mais do Stormtroopers of Death (S.O.D.) e seu lendário disco "Speak English or Die" (1985), o M.O.D. foi o responsável pelo surgimento de obras igualmente importantíssimas para o gênero. Além do já mencionado debut, podemos citar facilmente o divertidíssimo EP "Surfin' M.O.D." (1988) e o segundo álbum da banda "Gross Misconduct" (1989). 

Capitaneado pelo mesmo frontman do S.O.D., o "gordinho invocado" e carismático Billy "Mosh" Milano, "Busted, Broke & American" é o oitavo álbum de estúdio do grupo estadunidense. Lançado em 7 de julho, através da lendária Megaforce Records, o mais recente trabalho da banda traz uma direção bem diferente de seus materiais antigos e mais aclamados. E é isso é ruim? Não, muito pelo contrário. A faixa encarregada de abrir o disco é "Eisenhower Was Right", que nada mais é que aquela típica introdução que prepara o ouvinte para o que está por vir. Ela traz um discurso do presidente Eisenhower tecendo uma crítica ao complexo militar-industrial e se encerra com um discurso do presidente Kennedy alertando sobre sociedades secretas e fechadas. 

Logo após a introdução terminar, os alto-falantes são atacados selvagemente pela primeira música do álbum, a excruciante "The Final Declaration". De cara, o ouvinte percebe que a pegada desse novo registro é o Hardcore novaiorquino - o tão amado N.Y.H.C. Aliás, essa primeira música já demonstra fortes influências de gigantes desse cenário, como Agnostic Front e Madball. Riffs poderosos, uma "cozinha" de bateria e baixo robusta e altamente energética, além de um refrão memorável e forte como uma rocha são os ingredientes dessa receita. Billy Milano sempre causou muita polêmica tanto no S.O.D. como no M.O.D. graças as suas letras repletas de ofensas a tudo e a todos. Ao ouvirmos esse trabalho, é perceptível que a raiva do vocalista agora está mais direcionada ao governo americano, na economia e na sociedade, com menções recorrentes à respeito da pobreza e sonhos quebrados. Milano pode não ser mais um jovem garoto, entretanto ainda consegue chutar muitos traseiros e composições como essa são a prova cabal disso. Uma tremenda música de abertura e um dos grandes destaques aqui presentes!

Dando sequência ao álbum, "You're a Fucking Dick" é uma fusão do velho M.O.D. com esse andamento Hardcore mais pungente. Ela começa com arranjos instigantes e novamente temos outro som bem intenso e animado, perfeito para um slam dance. Por sua vez, a faixa título "Busted, Broke & American" possui uma letra que promove uma árdua crítica a economia americana e até mesma a "cultura do café" tão comum na terra do Tio Sam. O verso "You're a frappuccino fucking asshole" deixa isso bem evidente. A faixa se inicia de forma vagarosa, com Billy cantando linhas sutilmente melódicas. Subitamente, a canção cresce e toma sua forma explosiva, como um hino imponente, muito encorpado e estonteante. Há alternâncias de ritmo e andamento bem cativantes e que certamente proporcionam muita diversão. Outro destaque do trabalho.


O álbum prossegue com "Fight", uma música mais agressiva, mas que não abandona os versos mais melódicos e notáveis. Uma faixa impetuosa e que também é memorável graças a sua execução como um todo. Enquanto isso, "Holligan" já ecoa pelos alto-falantes com sua vibração totalmente Hardcore e recheada de muita energia. Tiro certeiro para cair no moshpit sem medo de ser feliz. Mais voraz e frenética, "Billy Be Damned" é a sétima faixa e é uma das mais violentas do trabalho. Há um momento próximo ao fim da composição onde o baixo se destaca bastante e temos uma quebra de andamento que descamba em um breakdown muito eficiente e acentuado. Caso essa música seja tocada ao vivo, será no mínimo interessante. 

Novamente abordando sonhos arruinados, "Shattered Dreams & Broken Glass" pode ser resumida com duas palavras: energia pura! Coros polifônicos de primeira, "cozinha" arrasadora, riffs diretos... ou seja, tudo perfeito! Um som que reúne todos os melhores elementos que uma música do estilo deve ter e irrefutavelmente, um dos grandes destaques do play. "They", a nona faixa, mantém o mesmo nível das anteriores, contando com guitarras espetaculosas, viscerais e cheias de vida, versos memoráveis e tudo mais.

Cadenciada e dinâmica, a curta instrumental "All Out" vem a seguir e funciona como uma espécie de introdução para a faixa seguinte, "Go Go Revolution", a matadora última música do álbum. Após um eficiente "One, two, three, four!", somos novamente assaltados por um andamento veloz e muito expressivo, contudo, as variações rítmicas jamais cessam e não faltam versos marcantes e coros polifônicos encaixados de maneira brilhante. Outro grande destaque da obra. O final da canção também merece ser mencionado, com dedilhados dando um aspecto mais melódico e alegre a composição, em especial nos últimos segundos. Foi uma boa sacada finalizar a canção dessa forma. Como já bem entrega o seu título, "Kennedy Speaks", a última faixa do registro, é mais um discurso do presidente Kennedy. Pessoalmente, creio que tenha sido um tanto desnecessário encerrar o trabalho com um discurso de pouco mais de cinco minutos de duração, ainda que não seja algo que prejudique significantemente a qualidade do disco em si. 


"Busted, Broke & American" pode não ser uma obra essencial para os fãs de Hardcore/Crossover, mas sem dúvidas é um material bem interessante, portentoso e que merece diversas audições. Aliás, a cada audição ele parece soar mais agradável e viciante, pelo menos sob o ponto de vista de quem vos escreve. Não há músicas ruins aqui. Todas possuem sua importância e como mencionei acima, certamente farão a festa dos moshers e stage divers de plantão. Reza a lenda que Billy Milano se aposentará. Se for realmente verdade, ao menos o vocalista encerrará sua carreira de forma bastante positiva, saindo pela porta da frente e não pela dos fundos. 

Nota: 8

Formação:

Billy "Mosh" Milano (vocal)
Tim "Tank" Casterline (baixo)
Ben Drinkin (guitarra)
Jason Kottwitz (guitarra)

Músicos convidados:
Michael Arellano (bateria)
Mike DeLeon (guitarra)

Faixas:

1. Eisenhower Was Right 
2. The Final Declaration 
3. You're a Fucking Dick 
4. Busted, Broke & American 
5. Fight 
6. Hooligan 
7. Billy Be Damned 
8. Shattered Dreams & Broken Glass 
9. They 
10. All Out of Bubblegum 
11. Go Go Revolution 
12. Kennedy Speaks

Redigido por David "Fanfarrão" Torres

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