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Live Review: Kool Metal Fest 2016


Teatro Mars - São Paulo - 27/11/201

Um dos eventos mais aguardados por uma considerável leva de fãs brasileiros da música pesada ocorreu no domingo do dia 27 de novembro. Falo nada mais nada menos que da última edição do Kool Metal Fest, que ocorreu no Teatro Mars, em São Paulo. O festival, que ocorre há 13 anos, já recebeu diversas grandes atrações, tanto nacionais como internacionais. Nessa tão aguardada edição, o cast contou com as bandas paulistanas Criminal Mosh, Urutu, The Black Coffins, Flicts, Possuído Pelo Cão, Ratos De Porão, além da atração internacional Dr. Living Dead! (Suécia). Como podem ver, a edição foi, simplesmente, um verdadeiro deleite para os fãs de Crossover Thrash/Hardcore Punk. A seguir, iremos mergulhar de cabeça nesse evento que certamente ficará marcado para a história do KMF.

A abertura do Teatro Mars ocorreu às 14h e os presentes que chegaram nessa faixa de horário no local, – enfrentando o calor terrível que estava fazendo, diga-se de passagem, – puderam conferir uma apresentação surpresa do duo Test, que evidentemente não estava no cast. João Kombi (vocal/guitarra) e Barata (bateria), volta e meia, como todos já sabem, fazem diversas apresentações imprevisíveis e ainda que poucas pessoas tenham assistido a dupla tocar, certamente realizaram um belo aquecimento para o evento.

Por volta das 15h, o evento foi oficialmente iniciado, com o show do Criminal Mosh. Uma fita de isolamento esticado no palco, além de uma introdução do Racionais MC’s deram o tom inicial da apresentação do grupo, que executa um Crossover com notáveis influências de nomes como Body Count e Suicidal Tendencies e é bastante respeitado na cena independente, abordando temas como a realidade da periferia e da violência do dia a dia. Embora o teatro ainda não estivesse cheio, parte do público abriu a roda, caiu no mosh, promoveu stage divings, cantou e agitou muito ao som de músicas como “Ensino Fundamental do Crime”, “O Despertar dos Mortos” e “Violência Explícita”. Certamente uma ótima escolha para abrir o festival. Uma ótima apresentação!

Na sequência, foi a vez do Paranóia Oeste mandar o seu som insano e experimental. Possuindo como influências bandas como Mr. Bungle, Sepultura e Nação Zumbi, as composições do grupo necessitam ser escutadas com atenção, tamanha é a experimentação dos músicos. Uma banda criativamente maluca!  Pouco depois, teve início a apresentação da terceira banda do evento, Urutu. O grupo, que possui três EP’s lançados, faz uma mescla bem feita e interessante de Heavy Metal com Punk e conta com Thiago Nascimento (D.E.R.) nos vocais. É muito interessante ver Thiago cantar de forma completamente diferente da proposta Grindcore do D.E.R., por sinal. Outra boa escolha para o evento, novamente “aquecendo os motores” dos presentes para as apresentações seguintes.

Dando continuidade ao evento, tivemos a apresentação do The Black Coffins, que executou seu híbrido de Death Metal com Crust. Um híbrido portentoso e com muito feeling, diga-se de passagem! Outra grande apresentação que foi sucedida pela aula de Punk Rock do Flicts. O trio realizou uma apresentação irrepreensível e que não deixou nenhum dos presentes indiferentes. Baita show, sem mais! Agora, caro leitor, se as coisas já estavam muito boas até aqui, um caos incessante – no melhor sentido da palavra, é claro! – estava prestes a surgir com a 6ª (66) banda do fest: Possuído Pelo Cão ou simplesmente PxPxCx. 

Mal a apresentação do grupo havia se iniciado e camisinhas infladas, além de um peixe e  bolas infláveis flutuavam de um canto para o outro do teatro, indo, até mesmo em direção ao palco, chegando até mesmo a atingir a bateria em alguns momentos. Creio que somente de descrever isso já é possível ter uma noção da insanidade e demência que foi a apresentação da banda, porém o melhor  – ou pior, dependendo do ponto de vista  –  ainda estava por vir. Antes mesmo de Poney Ret (vocal) subir ao palco ao lado dos outros integrantes, um número absurdo de fãs já estava lá, pronto para promover insanos e intensos stage divings, tanto da forma convencional como em pranchas de surfe, prática no mínimo hilária e bastante comum em shows do estilo.

O terreno do caos já estava montado e então se inicia a icônica “A Marcha do Cão”. Em seguida, Poney profere “Nós somos Possuído Pelo Cão e nós somos feios por fora e por dentro também!”. Introdução mais que adequada para a ensandecida “Ugly Inside Too”. Imaginem um show insano! Agora imaginem uma apresentação ainda mais desvairada! Pois bem, isso ainda não chega nem perto do nível da maluquice que foi essa performance. A banda brindou a todos com as pedradas “Air Mail Surgery”, “Catholic Beast”, o genial cover de “Grey World” (Attitude Adjustment), “Demo(n)cracy?”, “Too Fast To Die”, “Toxic Possession”, “Anarco-Cops”, – que contou com o trecho inicial da clássica “Money Talks” (Cryptic Slaughter) – , “Policial de Cu”, “Impaled Nazi-Teen”, o inusitado cover de “Prowler” (Iron Maiden), “Blame Satan”, “Mosh Jocks”, além da divertidíssima “Semen Churches” e claro, para encerrar com chave de ouro, “Possuído Pelo Cão”, cover obrigatório do D.F.C.  

Próximo ao fim do show, a banda precisou parar de tocar por alguns minutos. A equipe do evento alegou que o palco não estava suportando o peso dos presentes que constantemente subiam para dar stage diving. O baixista Túlio interagiu com o público e explicou a situação da melhor maneira que pôde. Por um momento, pensava-se que o show iria se encerrar antes do esperado e alguns presentes chegaram a urrar de frustração. Felizmente, no final tudo se resolveu e a banda conseguiu prosseguir o setlist que, inclusive, já estava no fim. Apesar disso, nada tirou o brilho do show que certamente roubou a cena com seus psicóticos circle pits e stage divings incessantes. 

Aliás, é incrível e muito bom saber que muitos dos presentes, por incrível que pareça, estavam mais ansiosos em ver o Possuído Pelo Cão ao vivo do que o próprio Dr. Living Dead! que foi a apresentação internacional do fest.  Parando para analisar, isso é mais do que compreensível, uma vez que o PxPxCx já havia encerrado as atividades e decidiram se reunir para essa única apresentação de última hora. E que apresentação! Pouco antes de deixar o palco, Poney disse que infelizmente a banda havia acabado e que eram “coisas da vida”. Seria muito bom se um dia ele e os demais integrantes decidissem retomar as atividades definitivamente. Quem sabe um dia...


No início da tarde, muito antes de sua apresentação ter início, os suecos do Dr. Living Dead! já aprontavam no teatro. Houve um momento em que chegaram a pular a grade que separava a área externa do local e o camarim para tirar fotos com os fãs que ali estavam. Disse isso antes e repito: olhando todo o carisma e simpatia que os músicos da banda possuem, sequer parece que se trata de uma banda de um território escandinavo. Realmente, são artistas que não apenas possuem total influência das bandas de Venice, Califórnia (EUA), como também possuem as mesmas vibrações. Sem comentários!

Por volta de 20h20, a introdução “Final Broadcast” já rolava nos P.A.’s, aquecendo o público para mais uma maratona interminável de mosh, stage diving e euforia digna de um show de Crossover/Thrash Metal. Sem demora, somos bombardeados com a faixa título do mais recente álbum da banda, a literalmente esmagadora “Crush the Sublime Gods”. A banda, que não toca em solo brasileiro desde 2009, quando integraram o cast do evento “Night of the Living Thrashers”, retornou pela segunda vez ao Brasil e realizou uma apresentação para ninguém botar defeito, mesclando tanto composições do mais recente trabalho como dos anteriores, agradando em cheios aos fãs. 

Outro ponto que devemos mencionar é o atual line-up da banda. O guitarrista Dr. Toxic (Thomas Sundin) e o baixista Dr. Rad (Johannes Wanngren) já são velhos conhecidos do público, mas os mais recentes integrantes da banda, o baterista Dr. Slam (Staffan Lundholm) e o vocalista Dr. Mania (Christopher Hjelte), que estrearam no EP “TEAMxDEADx” (2015), vieram ao Brasil pela primeira vez e, pra variar, mandaram muito bem em seus respectivos postos, jamais desapontando por um segundo que seja.

Pedradas como “Gremlins Night”, “Dead End Life”, “Suffering”, “Streets of Doc-Town”, “World War Nine” e “Revenge on John” foram recebidas de forma extremamente positiva pelo público, que literalmente se arrebentou no moshpit, promoveu stage divings novamente incessantes, e por aí vai. As novas composições também não fizeram feio ao show, muito pelo contrário! “TEAMxDEADx” e “Civilized to Death” já são hinos da fase atual da banda e outras como “Another Life”, “Force Fed” e “No Way Out” também fizeram os presentes devastarem completamente o local.

Também não há como deixar de mencionar um dos destaques da apresentação, que foi o cover de um dos maiores clássicos da história do Metal nacional: “Inner Self” (Sepultura). Ainda que não tenha sido tocada na íntegra, fez todos agitarem e cantarem a sua icônica letra a plenos pulmões. O gran finale ficou para “UFO Attack”, que encerrou o show de maneira apoteótica e brilhante! Certamente é uma das melhores bandas da atualidade quando o assunto é Crossover/Thrash e que continuem em atividade por muitos e muitos anos, brindando a todos com grandes trabalhos e claro, retornando cada vez mais ao nosso país.


Dizem que tudo que é bom, dura pouco e creio que seja verdade mesmo, infelizmente. Cerca de 22h, uma das melhores e mais importantes bandas do cenário da música pesada brasileira sobe ao palco: Ratos De Porão! A banda, que excursiona no momento tocando na íntegra o clássico álbum de estúdio “Anarkophobia” (1991), que completou o seu 25º aniversário nesse ano, fez aquilo que sabe fazer de melhor, ou seja, uma apresentação digna de incontáveis elogios e nenhum ponto negativo. Além do repertório de “Anarkophobia”, João Gordo e sua trupe ainda executaram uma sequência de músicas destruidoras: “Conflito Violento”, “Jardim Elétrico” (cover de Os Mutantes), “Maquina Militar”, “Amazônia Nunca Mais”, “Beber Até Morrer”, “Aids, Pop, Repressão”, “Herança”, “Crucificados Pelo Sistema”, “Realidades da Guerra” e “Crise Geral”. É importante ressaltar que, por mais que o público estivesse visivelmente cansado após tantos shows intensos, engana-se quem pensa que os presentes não agitaram apenas por conta disso. O moshpit comeu solto novamente, bem como o stage diving, que continuava rolando a todo instante. Talvez não como a mesma intensidade de outrora, porém é bastante compreensível. 

Após ter o privilégio indescritível de comparecer a um evento impecável como esse, confesso que chega a ser praticamente impossível conseguir transmitir toda a satisfação através dessas linhas. Os organizadores, as bandas, o público, todos estão de parabéns! A música pesada como um todo ganha novos apreciadores a cada dia que passa e eventos como o Kool Metal Fest são uma prova cabal disso. Tanto fãs mais velhos como mais novos compareceram em peso para prestigiar o fest e que, cada vez mais, novas e insanas edições como essa surjam. 

Texto e imagens por David Torres

Discos trintões: Ratos de Porão - "Descanse Em Paz" (1986)


Segundo registro dos caras, lançado originalmente em 1986 o qual marcou em definitivo a incursão da mesma pelas trilhas do Crossover. 

Após o lançamento de "Crucificados pelo Sistema", as coisas dentro do Ratos, definitivamente não estavam muito harmoniosas, pois um estilo musical começava a estremecer e a rachar as bases da banda, o Crossover, mistura do Metal com o Hardcore. 

Em 1985, Mingau e João Gordo, deixam a banda, Jão remontou o Ratos como um trio, assumindo as guitarras e o vocal, com Jabá ainda no baixo e Betinho de volta à bateria. Com essa formação, registraram um Split ao vivo com o Cólera, "Ao Vivo na Lira Paulistana" (1985). 

Mas a paixão pela barulheira falou mais alto, e João Gordo retornou pouco tempo depois, dessa vez trazendo na bagagem influências de Crossover, bandas como D.R.I., Discharge e English Dogs, na época ainda chamadas de Punk Metal. 

Para as baquetas é convocado Spaghetti, antigo membro da cena punk paulista. No ano seguinte, é gravado e lançado o álbum "Descanse em Paz", pelo selo Baratos Afins, de Luiz Calanca.


O que chama a atenção logo de cara é a capa, totalmente mórbida, chocante e politicamente incorreta, com a foto de uma mulher espancada até a morte, retirada de um jornal sensacionalista carioca, no mesmo naipe do falecido "Notícias Populares" de São Paulo. 

Ao pôr para tocar, o que se ouve é um verdadeiro caos sonoro, onde a banda mescla seu Hardcore/Punk sujo do primeiro álbum com algumas influências (ainda que tímidas) de Metal e Crossover. 

A produção é um pouco superior a de "Crucificados Pelo Sistema" (1984), mas ainda aquém do ideal. A temática continua sendo de contestação politica/social, mas as composições evoluíram, e já aparecem novos clássicos como “Cérebros Atômicos”, “Paranoia Nuclear” "Morrer Mais Uma Vez" e “Velhus Decréptus”, canções que são executadas ao vivo até hoje pela banda.

Os fãs mais xiitas, entusiastas do Hardcore/Punk do disco de estreia, "Crucificados pelo Sistema", não gostaram do flerte com o Metal, e o RDP virou alvo de críticas, com os integrantes sendo taxados de "traidores do movimento", por outro lado, o disco despertou a atenção e interesse dos headbangers junto a banda, que ainda buscava seu humilde espaço na cena musical brazuca. 

Em suma, "Descanse Em Paz" mostra uma evolução tanto nas composições da banda como também na parte técnica, massacrando os tímpanos desavisados e menos treinados com uma sonoridade, que embora mesclada, ainda é de uma brutalidade e crueza ímpares. mesmo sendo um álbum de transição de uma banda que ainda buscava sua identidade sonora.


Integrantes:

João Gordo - Vocal
Jão - Guitarra
Jabá - Baixo
Spaghetti - Bateria

Faixas:

01 - "Cérebros Atômicos"
02 - "Morrer Mais Uma Vez"
03 - "Velhus Decréptus"
04 - "No Junk"
05 - "Sofrimento Real"
06 - "Juventude Perdida"
07 - "Paranoia Nuclear"
08 - "Descanse em Paz"
09 - "Fora Eu"
10 - "Aviso Final"
11 - "Zona"

Por Claudio Santos

Ratos De Porão - Século Sinistro Tour 2016



Centro Cultural São Paulo - São Paulo - 27/05/2016

Nada como uma apresentação gratuita de uma banda veterana e importantíssima para o cenário nacional em pleno feriado, não é mesmo? Pois é e foi exatamente isso o que ocorreu em 27 de maio, feriado de Corpus Christi. Veteranos do Hardcore Punk/Crossover Thrash, o Ratos De Porão realizou mais uma apresentação gratuita, dessa vez no Centro Cultural de São Paulo, espaço que fica localizado na região da Zona Sul de São Paulo. Ainda promovendo o seu último álbum de estúdio, “Século Sinistro” (2014), os músicos devastaram o CCSP, tocando um repertório recheado de clássicos atemporais, sons mais recentes de qualidade indiscutíveis, além de alguns “covers” bem conhecidos pelos fãs.

No início da tarde, a casa foi lotando cada vez mais e os ingressos gratuitos foram disponibilizados a partir das 18h30. Cada pessoa teve direito a retirada de um par de ingressos e como já era de se esperar, os ingressos esgotaram muito rápido. Esse fato culminou numa verdadeira algazarra por parte dos fãs e pessoas que queriam assistir a apresentação da banda liderada por João Gordo. Pouco antes do show se iniciar, algumas pessoas que não conseguiram os ingressos arrebentaram o vidro do local e adentraram no CCSP. Os seguranças do local aparentemente tentaram impedir a multidão, no entanto, quando todos se deram conta, todos conseguiram entrar no recinto, ávidos para assistirem a performance do grupo. Infelizmente, problemas como esse podem acarretar na redução ou, na pior das hipóteses, proibição de eventos dessa categoria, uma vez que os organizadores pensarão duas vezes antes de promover um evento na qual as pessoas tentarão entrar a qualquer custo. 

Transtornos a parte, pouco mais de 20h, Jão (guitarra), Juninho (baixo), Boka (bateria) e João Gordo (vocal) subiram ao palco, incendiando o espaço com a clássica “Amazônia Nunca Mais”. Assim que os primeiros acordes foram tocados, o terror tomou conta do local, com todos os presentes cantando, “bangueando”, “moshando” e até mesmo – Pasmém! – promovendo “stage divings” sem mesmo ter condições para se realizar esse tipo de prática, uma vez que a infraestrutura do CCSP não é propícia para isso. Outro grande som do clássico disco “Brasil” (1989) dá continuidade à apresentação, “Terra do Carnaval”. Clássicos jamais desapontam ao vivo, ainda mais quando as composições em questão contam com algumas das letras mais atemporais da história da música pesada. 

Antes de darem sequência ao show, Gordo canta, ao lado da plateia, os versos iniciais da próxima música do “setlist”:

♫ “Gás lacrimogêneo
Bomba de efeito moral
Bala de borracha na cara
Repressão policial
No conflito violento
Desobediência civil
Caminhando contra o vento
Patriotada varonil” ♫

E dá-lhe “Conflito Violento”, faixa de abertura do esmagador último lançamento da banda até o momento, “Século Sinistro” (2014), álbum que certamente foi um dos grandes destaques do estilo em 2014. Logo após, tivemos também “Viciado Digital”, mais uma de “Século Sinistro”, que mais uma vez foi recebida com muita energia e empolgação por todos os presentes.  Gordo e Cia. decidem voltar no tempo e nos brindam com a antiga e sensacional “Ascenção e Queda”, do estupendo “Anarkophobia” (1991), seguida da truculenta “V.C.D.M.S.A.”, do excepcional “Cada Dia Mais Sujo e Agressivo” (1987).


Se você quer tranquilidade e músicas lentas, por favor, não vá a um show desses caras, pois não há descanso por um segundo sequer e outra prova cabal disso foram às músicas seguintes do repertório escolhido pelo grupo. O hino “Crucificados Pelo Sistema”, do clássico álbum de estreia autointitulado surge na sequência, arremessando os presentes em mais uma onda de caos e adrenalina. A desgraceira prossegue com a mortal “Herança”. O show estava apenas começando e o local já havia se transformado num território totalmente feroz e anárquico.

Falando em anarquia, a banda introduz a todos “Anarkophobia”, faixa-título do clássico álbum de 1991. O que dizer sobre a performance desses veteranos? Nota mil!  A veloz “Vida Animal” não deixa ninguém descansar e funciona como um legítimo soco na boca do estômago dos presentes. Os arranjos arrastados de “Grande Bosta”, outra composição de “Século Sinistro” fazem todos agitarem com muita intensidade. 

No ato seguinte da apresentação, os músicos tocaram quatro “covers” bem conhecidos por todos os fãs da banda, presentes no álbum de “covers” “Feijoada Acidente? – Brasil” (1995). O primeiro a ser tocado foi “Olho de Gato” (Olho Seco), seguido de “Medo de Morrer” (Inocentes), “Buracos Suburbanos” (Psykóse) e “O Dotadão Deve Morrer” (Cascavelletes). O que falar sobre a execução dessas quatro releituras de clássicos do Punk/Rock nacional? Por esse e muitos outros motivos que a banda é um verdadeiro orgulho para o cenário musical brasileiro. 

Um fato bastante inusitado e engraçado ocorreu antes da apresentação prosseguir. João Gordo encontrou um celular de cor vermelha no palco onde a banda estava se apresentando e dirigiu a palavra ao público, com o aparelho em mãos: “Alguém perdeu um celular vermelho! De quem é o celular comunista?”. Evidentemente, todos caíram na gargalhada e pouco depois, a pessoa dona do celular recuperou o aparelho com o sempre descontraído “frontmen”.

Clássicos não podem deixar de ser tocados de uma hora para a outra e uma banda do nível do Ratos De Porão obviamente não deixaria de fazer isso à essa altura do campeonato, certo? De repente, se iniciam os primeiros – e sujos! – “riffs” da clássica e violenta “Morrer”. Assim como em muitas de suas apresentações, o grupo tocou apenas os dois primeiros versos da música, emendando com a igualmente clássica “Não Me Importo”. Suja e agressiva até dizer chega, “Cérebros Atômicos” tritura os tímpanos e os miolos de todos os presentes, que se arrebentam no “mosh” de maneira brutal. 

Presença obrigatória nos shows da banda, a maravilhosa e cadenciada “Sofrer” é tocada na sequência. Existem diversas músicas que podemos ouvir centenas de vezes e sempre soaram da mesma maneira. Talvez até melhor, dependendo do ponto de vista e esse clássico indubitavelmente é um forte exemplo disso. Conforme já foi mencionado antes, se você quer descanso, não vá a um show da banda, ou você poderá se deparar com cantigas hediondas como a próxima música do “setlist”, “Paranóia Nuclear”. Devastação em forma de música define bem o que é esse som!


Alguém clamou por mais clássicos? “Crianças Sem Futuro” surge na sequência, levando todos ao delírio mais uma vez. A banda faz uma pequena pausa e Gordo inicia um de seus muitos discursos engraçados em tom de zombaria. O vocalista brinca de forma hilária que ninguém se prejudica mais na vida que um gordo. Como já era de se esperar, dá-lhe “Diet Paranoia”, do controverso álbum de estúdio “Just Another Crime... in Massacreland” (1994). Certamente, uma das melhores músicas do disco.

Representando o extremamente agressivo “Carniceria Tropical” (1997), temos a arrasa-quarteirão “Crocodila”. Impossível não cantar esse som imitando o tom de voz esgoelado de João Gordo! Mais uma vez, a banda realiza um breve intervalo e Gordo, pra variar, decide fazer uma brincadeira com Boka, o baterista da banda. A brincadeira rende gargalhadas e um clima de descontração gigantesco se propaga no ar. Quem acompanha a banda já sabia exatamente qual seria o próximo som a ser tocado: “Igreja Universal”, outro dos maiores clássicos da banda. Mais uma vez, sem comentários!

A dobradinha seguinte também fala por si: “Beber Até Morrer” e “Aids, Pop, Repressão”, duas composições que novamente dispensam apresentações. Expressar qualquer argumento para esses dois hinos é realmente chover no molhado.  Para encerrar, ainda tivemos a curtíssima e destruidora “Realidades da Guerra” e a clássica “Crise Geral”, que encerrou o show de maneira brilhante. Destaque para João Gordo, que saiu do palco cantando a música em direção ao camarim poucos segundos antes da música terminar. 

Existem bandas que quanto mais o tempo passa, soam ainda melhores e com toda certeza o Ratos De Porão – vulgo RxDxPx –  é um dos exemplos mais cabais disso. Exceção feita ao baixista Juninho, que é o caçula da banda, os outros três integrantes já passaram da faixa dos 40 anos de idade e ainda assim tocam com uma energia invejável e que deixa muitas bandas mais novas no chinelo.  Exceção feita à invasão  do público no CCSP, a apresentação do grupo foi excepcional, como sempre. Que essa instituição do Hardcore Punk/Crossover Thrash continue na ativa por muito mais tempo. Nós agradecemos imensamente!

♫ "Nascer para liberdade
E crescer para morrer

Crucificados pelo sistema

Morrer sem esquecer
O povo que ficou

Crucificados pelo sistema" ♫

Setlist:
01. Amazônia Nunca Mais
02. Terra do Carnaval
03. Conflito Violento
04. Viciado Digital
05. Ascenção e Queda
06. V.C.D.M.S.A.
07. Crucificados Pelo Sistema
08. Herança
09. Anarkophobia
10. Vida Animal
11. Grande Bosta
12. Olho de Gato (Olho Seco cover)
13. Medo de Morrer (Inocentes cover)
14. Buracos Suburbanos (Psykóse cover)
15. O Dotadão Deve Morrer (Cascavelletes cover)
16. Morrer/Não Me Importo
17. Cérebros Atômicos
18. Sofrer
19. Paranóia Nuclear
20. Crianças Sem Futuro
21. Diet Paranoia
22. Crocodila
23. Igreja Universal
24. Beber Até Morrer
25. Aids, Pop, Repressão
26. Realidades da Guerra
27. Crise Geral

Banda:
João Gordo (Vocal)
Jão (Guitarra)
Juninho (Baixo)
Boka (Bateria)

por David Torres

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