segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Live Review: Kool Metal Fest 2016


Teatro Mars - São Paulo - 27/11/201

Um dos eventos mais aguardados por uma considerável leva de fãs brasileiros da música pesada ocorreu no domingo do dia 27 de novembro. Falo nada mais nada menos que da última edição do Kool Metal Fest, que ocorreu no Teatro Mars, em São Paulo. O festival, que ocorre há 13 anos, já recebeu diversas grandes atrações, tanto nacionais como internacionais. Nessa tão aguardada edição, o cast contou com as bandas paulistanas Criminal Mosh, Urutu, The Black Coffins, Flicts, Possuído Pelo Cão, Ratos De Porão, além da atração internacional Dr. Living Dead! (Suécia). Como podem ver, a edição foi, simplesmente, um verdadeiro deleite para os fãs de Crossover Thrash/Hardcore Punk. A seguir, iremos mergulhar de cabeça nesse evento que certamente ficará marcado para a história do KMF.

A abertura do Teatro Mars ocorreu às 14h e os presentes que chegaram nessa faixa de horário no local, – enfrentando o calor terrível que estava fazendo, diga-se de passagem, – puderam conferir uma apresentação surpresa do duo Test, que evidentemente não estava no cast. João Kombi (vocal/guitarra) e Barata (bateria), volta e meia, como todos já sabem, fazem diversas apresentações imprevisíveis e ainda que poucas pessoas tenham assistido a dupla tocar, certamente realizaram um belo aquecimento para o evento.

Por volta das 15h, o evento foi oficialmente iniciado, com o show do Criminal Mosh. Uma fita de isolamento esticado no palco, além de uma introdução do Racionais MC’s deram o tom inicial da apresentação do grupo, que executa um Crossover com notáveis influências de nomes como Body Count e Suicidal Tendencies e é bastante respeitado na cena independente, abordando temas como a realidade da periferia e da violência do dia a dia. Embora o teatro ainda não estivesse cheio, parte do público abriu a roda, caiu no mosh, promoveu stage divings, cantou e agitou muito ao som de músicas como “Ensino Fundamental do Crime”, “O Despertar dos Mortos” e “Violência Explícita”. Certamente uma ótima escolha para abrir o festival. Uma ótima apresentação!

Na sequência, foi a vez do Paranóia Oeste mandar o seu som insano e experimental. Possuindo como influências bandas como Mr. Bungle, Sepultura e Nação Zumbi, as composições do grupo necessitam ser escutadas com atenção, tamanha é a experimentação dos músicos. Uma banda criativamente maluca!  Pouco depois, teve início a apresentação da terceira banda do evento, Urutu. O grupo, que possui três EP’s lançados, faz uma mescla bem feita e interessante de Heavy Metal com Punk e conta com Thiago Nascimento (D.E.R.) nos vocais. É muito interessante ver Thiago cantar de forma completamente diferente da proposta Grindcore do D.E.R., por sinal. Outra boa escolha para o evento, novamente “aquecendo os motores” dos presentes para as apresentações seguintes.

Dando continuidade ao evento, tivemos a apresentação do The Black Coffins, que executou seu híbrido de Death Metal com Crust. Um híbrido portentoso e com muito feeling, diga-se de passagem! Outra grande apresentação que foi sucedida pela aula de Punk Rock do Flicts. O trio realizou uma apresentação irrepreensível e que não deixou nenhum dos presentes indiferentes. Baita show, sem mais! Agora, caro leitor, se as coisas já estavam muito boas até aqui, um caos incessante – no melhor sentido da palavra, é claro! – estava prestes a surgir com a 6ª (66) banda do fest: Possuído Pelo Cão ou simplesmente PxPxCx. 

Mal a apresentação do grupo havia se iniciado e camisinhas infladas, além de um peixe e  bolas infláveis flutuavam de um canto para o outro do teatro, indo, até mesmo em direção ao palco, chegando até mesmo a atingir a bateria em alguns momentos. Creio que somente de descrever isso já é possível ter uma noção da insanidade e demência que foi a apresentação da banda, porém o melhor  – ou pior, dependendo do ponto de vista  –  ainda estava por vir. Antes mesmo de Poney Ret (vocal) subir ao palco ao lado dos outros integrantes, um número absurdo de fãs já estava lá, pronto para promover insanos e intensos stage divings, tanto da forma convencional como em pranchas de surfe, prática no mínimo hilária e bastante comum em shows do estilo.

O terreno do caos já estava montado e então se inicia a icônica “A Marcha do Cão”. Em seguida, Poney profere “Nós somos Possuído Pelo Cão e nós somos feios por fora e por dentro também!”. Introdução mais que adequada para a ensandecida “Ugly Inside Too”. Imaginem um show insano! Agora imaginem uma apresentação ainda mais desvairada! Pois bem, isso ainda não chega nem perto do nível da maluquice que foi essa performance. A banda brindou a todos com as pedradas “Air Mail Surgery”, “Catholic Beast”, o genial cover de “Grey World” (Attitude Adjustment), “Demo(n)cracy?”, “Too Fast To Die”, “Toxic Possession”, “Anarco-Cops”, – que contou com o trecho inicial da clássica “Money Talks” (Cryptic Slaughter) – , “Policial de Cu”, “Impaled Nazi-Teen”, o inusitado cover de “Prowler” (Iron Maiden), “Blame Satan”, “Mosh Jocks”, além da divertidíssima “Semen Churches” e claro, para encerrar com chave de ouro, “Possuído Pelo Cão”, cover obrigatório do D.F.C.  

Próximo ao fim do show, a banda precisou parar de tocar por alguns minutos. A equipe do evento alegou que o palco não estava suportando o peso dos presentes que constantemente subiam para dar stage diving. O baixista Túlio interagiu com o público e explicou a situação da melhor maneira que pôde. Por um momento, pensava-se que o show iria se encerrar antes do esperado e alguns presentes chegaram a urrar de frustração. Felizmente, no final tudo se resolveu e a banda conseguiu prosseguir o setlist que, inclusive, já estava no fim. Apesar disso, nada tirou o brilho do show que certamente roubou a cena com seus psicóticos circle pits e stage divings incessantes. 

Aliás, é incrível e muito bom saber que muitos dos presentes, por incrível que pareça, estavam mais ansiosos em ver o Possuído Pelo Cão ao vivo do que o próprio Dr. Living Dead! que foi a apresentação internacional do fest.  Parando para analisar, isso é mais do que compreensível, uma vez que o PxPxCx já havia encerrado as atividades e decidiram se reunir para essa única apresentação de última hora. E que apresentação! Pouco antes de deixar o palco, Poney disse que infelizmente a banda havia acabado e que eram “coisas da vida”. Seria muito bom se um dia ele e os demais integrantes decidissem retomar as atividades definitivamente. Quem sabe um dia...


No início da tarde, muito antes de sua apresentação ter início, os suecos do Dr. Living Dead! já aprontavam no teatro. Houve um momento em que chegaram a pular a grade que separava a área externa do local e o camarim para tirar fotos com os fãs que ali estavam. Disse isso antes e repito: olhando todo o carisma e simpatia que os músicos da banda possuem, sequer parece que se trata de uma banda de um território escandinavo. Realmente, são artistas que não apenas possuem total influência das bandas de Venice, Califórnia (EUA), como também possuem as mesmas vibrações. Sem comentários!

Por volta de 20h20, a introdução “Final Broadcast” já rolava nos P.A.’s, aquecendo o público para mais uma maratona interminável de mosh, stage diving e euforia digna de um show de Crossover/Thrash Metal. Sem demora, somos bombardeados com a faixa título do mais recente álbum da banda, a literalmente esmagadora “Crush the Sublime Gods”. A banda, que não toca em solo brasileiro desde 2009, quando integraram o cast do evento “Night of the Living Thrashers”, retornou pela segunda vez ao Brasil e realizou uma apresentação para ninguém botar defeito, mesclando tanto composições do mais recente trabalho como dos anteriores, agradando em cheios aos fãs. 

Outro ponto que devemos mencionar é o atual line-up da banda. O guitarrista Dr. Toxic (Thomas Sundin) e o baixista Dr. Rad (Johannes Wanngren) já são velhos conhecidos do público, mas os mais recentes integrantes da banda, o baterista Dr. Slam (Staffan Lundholm) e o vocalista Dr. Mania (Christopher Hjelte), que estrearam no EP “TEAMxDEADx” (2015), vieram ao Brasil pela primeira vez e, pra variar, mandaram muito bem em seus respectivos postos, jamais desapontando por um segundo que seja.

Pedradas como “Gremlins Night”, “Dead End Life”, “Suffering”, “Streets of Doc-Town”, “World War Nine” e “Revenge on John” foram recebidas de forma extremamente positiva pelo público, que literalmente se arrebentou no moshpit, promoveu stage divings novamente incessantes, e por aí vai. As novas composições também não fizeram feio ao show, muito pelo contrário! “TEAMxDEADx” e “Civilized to Death” já são hinos da fase atual da banda e outras como “Another Life”, “Force Fed” e “No Way Out” também fizeram os presentes devastarem completamente o local.

Também não há como deixar de mencionar um dos destaques da apresentação, que foi o cover de um dos maiores clássicos da história do Metal nacional: “Inner Self” (Sepultura). Ainda que não tenha sido tocada na íntegra, fez todos agitarem e cantarem a sua icônica letra a plenos pulmões. O gran finale ficou para “UFO Attack”, que encerrou o show de maneira apoteótica e brilhante! Certamente é uma das melhores bandas da atualidade quando o assunto é Crossover/Thrash e que continuem em atividade por muitos e muitos anos, brindando a todos com grandes trabalhos e claro, retornando cada vez mais ao nosso país.


Dizem que tudo que é bom, dura pouco e creio que seja verdade mesmo, infelizmente. Cerca de 22h, uma das melhores e mais importantes bandas do cenário da música pesada brasileira sobe ao palco: Ratos De Porão! A banda, que excursiona no momento tocando na íntegra o clássico álbum de estúdio “Anarkophobia” (1991), que completou o seu 25º aniversário nesse ano, fez aquilo que sabe fazer de melhor, ou seja, uma apresentação digna de incontáveis elogios e nenhum ponto negativo. Além do repertório de “Anarkophobia”, João Gordo e sua trupe ainda executaram uma sequência de músicas destruidoras: “Conflito Violento”, “Jardim Elétrico” (cover de Os Mutantes), “Maquina Militar”, “Amazônia Nunca Mais”, “Beber Até Morrer”, “Aids, Pop, Repressão”, “Herança”, “Crucificados Pelo Sistema”, “Realidades da Guerra” e “Crise Geral”. É importante ressaltar que, por mais que o público estivesse visivelmente cansado após tantos shows intensos, engana-se quem pensa que os presentes não agitaram apenas por conta disso. O moshpit comeu solto novamente, bem como o stage diving, que continuava rolando a todo instante. Talvez não como a mesma intensidade de outrora, porém é bastante compreensível. 

Após ter o privilégio indescritível de comparecer a um evento impecável como esse, confesso que chega a ser praticamente impossível conseguir transmitir toda a satisfação através dessas linhas. Os organizadores, as bandas, o público, todos estão de parabéns! A música pesada como um todo ganha novos apreciadores a cada dia que passa e eventos como o Kool Metal Fest são uma prova cabal disso. Tanto fãs mais velhos como mais novos compareceram em peso para prestigiar o fest e que, cada vez mais, novas e insanas edições como essa surjam. 

Texto e imagens por David Torres