sábado, 21 de janeiro de 2017

Resenha: Sepultura - “Machine Messiah” (2017)


Toda vez que uma banda consagrada do cenário metálico anuncia que vai lançar um novo trabalho, o que ocorre? Simplesmente um alvoroço e tal alvoroço pode ter proporções cada vez maiores dependendo de qual é a banda. Pois bem! Quatro anos após o lançamento do intenso “The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart” (2013), o Sepultura, indiscutivelmente a maior e mais emblemática banda do cenário nacional, retorna com um trabalho muito aguardado e ousado, “Machine Messiah”, o 14º álbum de estúdio da banda, lançado nessa última sexta-feira, 13 de janeiro, via Nuclear Blast Records. A produção desse novo registro foi realizada em parceria da banda com o produtor Jens Bogren (Kreator, Soilwork, Amon Amarth, Opeth), no Street Studios, em Orebro, na Suécia. 

A primeira coisa que gostaria de pontuar nessa resenha é a seguinte: os irmãos Max e Iggor Cavalera não estão mais na banda. Sim, eles são os fundadores do Sepultura e nada do que fizeram será apagado, muito pelo contrário.  Seja como for, vamos virar de uma vez por todas essa página. Outra coisa que é muito importante de ser ressaltada é, se você, caro leitor(a), busca ouvir um novo “Beneath the Remains” (1989), “Arise” (1991)” ou “Chaos A.D.” (1993), esqueça! O Sepultura nunca foi uma banda de gravar sempre o mesmo álbum e mesmo em sua formação clássica já se ousava muito, especialmente comparado com as demais bandas de Metal. Outro erro cometido por muitos é acreditar que a banda se encaixe em um rótulo. Ao longo de sua carreira, tocaram Death/Thrash Metal, Thrash/Groove Metal, Nu-Metal e Groove Metal com fortes influências de Hardcore e outras sonoridades, portanto tentar rotulá-los exclusivamente como uma banda desse ou daquele estilo é pura perda de tempo, não insista. 

Tendo isso em mente, vamos ao que realmente importa que é o mais novo trabalho do grupo. Antes de ser lançado oficialmente, o guitarrista Andreas Kisser declarou o seguinte a respeito do álbum: “A principal inspiração em torno de “Machine Messiah” é a robotização da sociedade hoje em dia. O conceito de uma “Máquina Divina” que criou a humanidade e agora parece que este ciclo está se fechando, retornando ao ponto de partida. Nós viemos de máquinas e estamos indo de volta para de onde viemos. O Messias, quando ele voltar, vai ser um robô, ou um humanoide, nosso salvador biomecânico”. Em poucas palavras, “Machine Messiah” traz um Sepultura ainda mais ousado e experimentando novos conceitos e sonoridades. Andreas Kisser (guitarra), Paulo Jr. (baixo), Eloy Casagrande (bateria) e Derrick Green (vocais) produziram uma obra consistente, poderosa e muito rica. A arte utilizada para a capa do álbum, a pintura “Deus Ex-Machina”, da artista filipina Camille Della Rosa, é simplesmente magnífica e capta exatamente a concepção desse trabalho. Sem mais delongas, vamos adentrar no conteúdo musical presente nesse lançamento.

Arranjos melódicos e instigantes de guitarra dão início à faixa título, “Machine Messiah”, a composição que abre o álbum. Logo de cara, o ouvinte é pego de surpresa. A canção possui uma vibração atmosférica muito diferente de tudo o que a banda gravou em sua carreira, sem exageros. Em seguida, surge uma levada progressiva de bateria e baixo, acompanhado por linhas vocais limpas de Derrick Green. À medida que a composição caminha, ela se torna mais intensa, especialmente próximo ao refrão, quando os vocais de Derrick se tornam ásperos e rasgados como de costume. A levada dessa canção como um todo é realmente hipnótica e com uma atmosfera Doom e progressiva, o que pode remeter de certa forma a nomes como Opeth e Paradise Lost em alguns momentos, por mais estranho que isso soe. Em um vídeo gravado para o canal oficial do Youtube da Nuclear Blast Records na qual a banda fala sobre as cinco primeiras faixas do álbum, o guitarrista Andreas Kisser menciona que o clima da canção lembra a releitura gravada por eles para “Angel” (Massive Attack), no EP de covers “Revolusongs” (2002). De fato, lembra mesmo, porém por se tratar de uma composição autoral, o resultado é no mínimo surpreendente. Em tempo, é uma excelente música e sinceramente, não teria abertura melhor que essa para o álbum. Escolheram a dedo!

Depois de um início arrastado e viajante, a banda agride os tímpanos dos ouvintes desavisados com a implacável “I Am the Enemy”, composição que já é conhecida pelos fãs há algum tempo, uma vez que ela vem sendo executada ao vivo há meses e ganhou um lyric vídeo oficial. Trata-se de um Thrash portentoso, com elementos de Hardcore. É uma típica composição do Sepultura, perfeita para um circle pit devastador. Também há trechos mais fragmentados e com um groove viciante que somente a banda é capaz de conceber, perfeito para se banguear incessantemente e urrar cada verso cantado a plenos pulmões. Um maracatu, acompanhado por arranjos geniais de sintetizadores iniciam a terceira faixa, “Phantom Self”. Pessoalmente, creio que apenas o início da música, que ressalta a musicalidade brasileira de forma honesta e nada forçada, já mata a pau, porém o restante da canção também merece ser mencionado. Quando os vocais entram em cena, temos um groove intenso e destruidor. O refrão também é muito bem construído e repleto de feeling. Ao longo da composição temos um trabalho instrumental estupidamente ousado, técnico, surreal, climático e que conta não apenas com riffs e solos geniais, como passagens sinfônicas incorporadas de forma extraordinária. A banda realmente conseguiu captar todo o clima futurístico exigido pela temática que escolheram abordar. 

A composição seguinte, “Alethea”, se inicia com a bateria de Eloy Casagrande sendo tocada de forma introspectiva. Pouco depois, Andreas Kisser executa um arranjo simples e de fácil memorização na guitarra e a canção cresce aos poucos. Trata-se de uma faixa ainda mais diversificada e que alterna entre momentos mais arrastados e outros mais agressivos e pesados. Agora, na sequência, temos uma composição que irá fazer o queixo de muitos caírem: a instrumental arrasa-quarteirão “Iceberg Dances”! Trata-se de uma música inacreditável, repleta de variações rítmicas e andamentos que são capazes de dar nós nos subconscientes dos ouvintes. Em pouco menos de cinco minutos de duração, temos inserções de diversos arranjos, sonoridades e elementos assustadoramente surreais. Há riffs marcantes, que possuem peso e um clima progressivo, além de criatividade de sobra. A “cozinha” é entrosadíssima e simplesmente imprevisível. Os solos são um deleite indescritível. Também há passagens acústicas que parecem ter vindo de outro mundo, órgãos incorporados estrategicamente e que proporcionam uma viagem fantástica ao ouvinte. Enfim, uma faixa simplesmente impecável e que deve ser ouvida com bastante atenção por todos.


Em seguida, acordes progressivos de guitarra nos conduzem a épica “Sworn Oath”. De repente um arranjo sinfônico, muito bem feito e grudento surge acompanhado por uma "cozinha" empolgante. Trata-se de outra grande faixa, que para variar, possui mais variações rítmicas de andamentos. Há peso e melodia de sobra e ambos se complementam de uma forma absurda. Não há como prever nada que Kisser e Cia. farão a seguir e isso é simplesmente incrível. O final da composição, com o seu arranjo sinfônico sendo tocado de forma cada vez mais lenta, é simplesmente perfeito e encerra a música de modo deslumbrante.  O baixo de Paulo Jr. desempenha um papel fundamental na faixa seguinte, a cadenciada e não menos pesada “Resistant Parasites”. Novamente as orquestrações atmosféricas permeiam toda a canção, bem como as intrincadas mudanças de tempo e ritmo. Todos os integrantes brilham individualmente mais uma vez. Os riffs e solos de Kisser permanecem poderosos e inspiradíssimos, enquanto a “cozinha” encabeçada por Paulo e Eloy é precisa e violenta na medida certa. 

Contando com um peso estarrecedor logo de cara, “Silent Violence” é outra das músicas mais furiosas do álbum, trazendo uma veia totalmente Thrash/Groove. As linhas fragmentadas de bateria criadas por Eloy são surpreendentes e também temos mais variações vocais de Derrick na metade da música. Tudo ocorre naturalmente e sem exageros. É tudo tão natural que espanta, na verdade. Algo quase que sobrenatural. Quer mais uma dose de Thrash? Então a faixa seguinte, “Vandals Nest” certamente é para você. Trata-se de uma paulada que se inicia com riffs cortantes, uma “cozinha” empolgante e violentíssima e um urro avassalador. Os riffs rasgam os alto-falantes a cada verso tocado. Há um trecho próximo ao solo de guitarra de Kisser que Derrick alterna os seus vocais e remete muito a Burton C. Bell (Fear Factory). Fantástico!

Para encerrar o disco de forma excepcional, a banda escolheu “Cyber God”. A composição começa com palhetadas graves e arrastadas e com Derrick proferindo vocais na linha spoken Word. Logo após, somos conduzidos a um andamento percussivo e com mais variações vocais de Green, que canta de forma melódica e então alterna para um drive invejável e sem perder tempo, muda para vocalizações rasgadíssimas e intensas. O trabalho instrumental? Experimental, progressivo, entrosado e muito coeso. O quarteto permanece em uma sintonia formidável. O ouvinte realmente se sente parte de todo aquele clima Sci-Fi presente na obra, A composição se encerra com um trecho dinâmico, cadenciado, pesado e com muito feeling, com a bateria e o baixo dando o tom e a guitarra brilhando incessantemente. Uma ótima forma de encerrar esse trabalho tão desafiador. 

Ainda que o álbum já tenha se encerrado a essa altura, há duas faixas da edição especial que merecem ser mencionadas. A primeira delas é “Chosen Skin”. A primeira coisa que pensei ao ouvir essa faixa foi “Uma pena que não a incluíram junto com as demais!”. Trata-se de um Thrash perfeito, que começa com um riff destruidor, acompanhado por uma levada agressiva de bateria, além de um urro devastador. Nessa música, temos mais uma sequência de riffs e mudanças bruscas de ritmo e andamentos capazes de fazer qualquer fã dessa sonoridade ficar admirado. Há peso, velocidade, groove, harmonias bem construídas e todos os ingredientes que uma composição desse naipe deve ter. Em contrapartida, a segunda faixa bônus é uma divertidíssima releitura do tema de abertura do ultra – literalmente! – clássico seriado de Tokusatsu setentista Ultra Seven, “Ultra Seven No Uta”. Coincidentemente, o Ratos De Porão também havia feito uma versão bem diferente e extrema para esse tema no álbum “Just Another Crime... in Massacreland” (1994). A versão do Sepultura é uma ótima faixa bônus e que funciona como um breve momento de descontração, indo na contra mão de todo o restante do álbum. 

Mesmo após tantos anos de estrada, marcados por incontáveis acontecimentos, tais como mudanças polêmicas de integrantes, na sonoridade, constantes e profundas experimentações musicais e tudo mais, o Sepultura prova de uma vez que está mais vivo do que nunca. Em um trabalho como esse, simplesmente todos da banda merecem ser mencionados. Andreas Kisser parece estar mais inspirado do que nunca, entregando riffs e solos absurdos e muito bem construídos. A cozinha também está matadora! O baixista Paulo Jr., que constantemente recebe críticas negativas por uma grande parcela dos fãs, executa uma marcação invejável nas quatro cordas em várias composições e o baterista Eloy Casagrande prova mais uma vez que é um garoto prodígio com um futuro brilhante pela frente, ainda mais criativo e à vontade em seu instrumento. E Derrick Green? O vocalista já está há quase vinte anos na banda e seu vocal parece soar melhor a cada lançamento. 


“Machine Messiah” não é apenas mais um álbum do grupo, como também é um novo e invejável capítulo em sua história. Conforme foi mencionado anteriormente, a cada novo trabalho, os músicos buscam evoluir e trazer novos elementos e sonoridades. Isso não é apenas nobre, como também é enriquecedor para eles mesmos e para os fãs. Que continuem fazendo isso, pois certamente continuarão alçando grandes voos e consequentemente, lançarão muitos discos de qualidade, tais como esse aqui.

Integrantes:

Derrick Green (vocal)
Andreas Kisser (guitarra)
Paulo Jr. (baixo)
Eloy Casagrande (bateria)

Faixas:

01. Machine Messiah
02. I Am the Enemy
03. Phantom Self
04. Alethea
05. Iceberg Dances
06. Sworn Oath
07. Resistant Parasites
08. Silent Violence
09. Vandals Nest
10. Cyber God

Por David Torres