sexta-feira, 5 de maio de 2017

Havok - "Conformicide" (2017)

 Century Media Records

Mundo Metal [ Lançamento ]



O renascimento do Thrash Metal dividiu os fãs do estilo em dois campos opostos. De um lado, há aqueles fãs que sentem fortemente que nenhuma banda de Thrash moderna poderia superar as bandas clássicas que lançaram as bases do estilo, argumentando que as bandas da nova geração apenas reciclam riffs e não fazem nada que soe original. 

Do outro lado estão aqueles que abraçam completamente o movimento Neo Thrash, banqueteando-se com sua homenagem aos grandes expoentes do estilo, levantando a bandeira e carregando a tocha empírica do Thrash Metal.

Os primeiros devem estar fingindo ignorância, pois o movimento Neo Thrash nunca teve a presunção de substituir os grandes ícones do estilo, cujo legado é incontestável, mas sim, dar continuidade. 
O mesmo tem gerado algumas bandas excepcionalmente talentosas, dentre essas bandas, e sem dúvida no topo, está Havok de Denver.

Uma banda ainda relativamente jovem, sua estreia em (2009) com "Burn" foi certamente uma homenagem aos clássicos álbuns de Thrash que seus integrantes cresceram ouvindo, mas repleto de uma visão de originalidade e fúria.

O registro seguinte, "Time Is Up" de (2011), foi um salto à frente do Thrash clássico de "Burn", fazendo a banda mergulhar confortavelmente numa sonoridade mais técnica, sem abrir mão de sua ferocidade
"Unnatural Selection" (2013) foi uma mistura saudável de ambos, associando seu Thrash moderno com uma quantidade justa de Crossover, mas ainda deixando muito espaço para crescer. 
Agora, quatro anos mais tarde, o Havok, desencadeou seu quarto registro completo, "Conformicide", e valeu a pena esperar. 


No passado, a inovação provou ser o pior inimigo do Thrash Metal, mas o mais recente trabalho da banda prova que não necessariamente tem que ser assim, e que nem todos os álbuns têm que soar como "Master Of Puppets" ou "Reign In Blood", a fim de capturar esse espírito mágico dos anos 80 e traduzi-lo em algo novo para a atual geração e isso a banda conseguiu executar com maestria. 

Este é um daqueles álbuns que ratifica claramente que o  estilo não é apenas e então somente encadeado e engessado pela estilística oitentista, e sim pode-se utilizar e incorporar livremente influências dentro e fora do Metal, sem descaracterizar a proposta inicial do bom e velho Thrash Metal.

O resultado de tudo isso é uma coleção de canções bastante longas e extremamente multifacetadas que misturam velocidade, interlúdios, extensas passagens acústicas e agressividade.

As dez faixas que compõem "Conformicide" desdobram-se lentamente através de 58 minutos, esparramando-se em uma miríade de direções, repletas de técnica, floreios rítmicos insanos e linhas de baixo e riffs que vão fazer você banguear até o nariz sangrar. 

As linhas de baixo merecem menção especial, pois marca a estréia do novo baixista, Nick Schendzielos (Job For A Cowboy, Cephalic Carnage) emprestando seu talento virtuoso.
Seu estilo funky, slap-heavy desempenha um papel proeminente na totalidade do registro, oferecendo um desempenho do mais alto nível que faria Les Claypool orgulhoso.
Em outro canto da seção rítmica está Pete Webber, que equilibra técnica, ferocidade e velocidade fazendo uso pleno de seu kit de forma inexorável, com uma sensibilidade rítmica impecável com a precisão de um sommelier.
Ambos conduzem um seção rítmica poderosa ao extremo, quase telepática às vezes, mas mais do que isso, eles são verdadeiramente inventivos.

Os guitarristas David Sanchez e Reece Scruggs tecem riffs de condução cheios de intenções brutais e afiados com ganchos de ligação irresistíveis, nenhum riff é reciclado e nenhum solo soa reconstruído, dando a cada canção sua própria identidade. 


No departamento lírico, Sanchez cospe com ódio venenoso sobre as mentiras e traições e uma variedade de tópicos, desde política, meios de comunicação, religião, até a censura da cultura do politicamente correto em que nos encontramos, utilizando plenamente para isso sua assinatura vocal peculiar. 

A produção de Alan Douches é cristalina e equilibrada, o resultado é uma banda em que todos os membros brilham majestosamente exibindo uma sonoridade exuberante e completa, desde o segundo em que você pressiona play até o segundo final, o registo soa fantástico. 

"FPC" é uma ótima abertura para o álbum, começa com uma introdução de guitarra acústica melódica antes de um riff assassino, aos poucos é dominada por alguns funky, groovy slap-bass, pois coloca um foco sobre a direção aonde o Havok pretendente levar sua música, sem medo de romper limites, trabalhando com sabores de outros gêneros musicais, aliada a uma letra bastante clara e ousada: "Eles querem te calar, e colocar sua mente em uma gaiola"

"Hang 'em High" é uma crítica aberta ao governo dos EUA, "O inimigo não vem do exterior", regada com seus riffs frenéticos e seção rítmica urgente.

"Dogmaniacal" é uma canção selvagem efervescendo uma aversão à religião em todos os níveis, "Você olha com seus olhos, Mas você não consegue ver, Porque você está cego, cego pela ideologia religiosa" enquanto um pouco contraditoriamente mostra algumas das mais fortes intenções melódicas ao longo do registro. 

A introdução para 'Intention To Deceive' é absolutamente brilhante. "... e nas notícias de hoje, cobrimos histórias triviais para distraí-lo do que realmente está acontecendo no mundo", o que se segue é um forte e incisivo groove carregado, com riffs que são instantaneamente viciantes, com letras se referindo a preocupação com o posicionamento da mídia que mente e manipula a população. 


"Ingsoc", uma referencia a obra-prima de George Orwell, 1984 e seu partido "Newspeak", se baseia em uma introdução estranha, mas atraente, oferecendo na sequencia um buffet de riffs cativantes antes de se estabelecer em um que finalmente propulsa a canção assim como uma turbina de um caça supersônico. 

"Masterplan", com sua introdução lembrando uma marcha militar acompanhada de riffs melódicos pegajosos, trazendo em sua letra referencia aos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. 

"Peace Is in Pieces" repleta de raiva e agressividade, é uma canção impressionante, uma trilha peculiar possuindo uma pegada Hardcore/Punk em cima de uma abertura insolente que chama a atenção,

"Claiming Certainty" o bom e velho Thrash Metal que tanto amamos, rápido e direto, contendo uma muralha de riffs intransponível. 

"Wake Up" revela uma introdução apocalíptica, buzinas, gritos e tiros ao fundo, é mais uma vez um caso acelerado e frenético riffs  rugindo de todos os lados, mas abertamente melódica. 

"Circling the Drain" tem o que quase pode ser descrito como um raio positivo de esperança em seu tom, um chamado para a humanidade se levantar contra todos seus aspectos negativos para construir um amanhã melhor.

"String Break" a canção mais curta do álbum, repleta de coros polifônicos ameaçadores. 

E finalmente "Slaughtered" cover do Pantera, originalmente gravada no álbum "Far Beyond Driven" (1994) com sua levada, pesada e grooveada na medida certa, fechando o registro.


Considerações finais:

Com o risco de fazer uma declaração ousada, "Conformicide" provavelmente será lembrado como um clássico do Thrash moderno. 
A banda sem duvida alguma trouxe à luz seu trabalho mais completo e eloquente até hoje. Poucos álbuns na memória recente captam a atitude e a essência do Thrash Metal tão perfeitamente quanto esse registro o faz.


Avaliação: 9,5


Integrantes:

David Sanchez - Vocal e Guitarra 
Pete Webber - Bateria
Reece Scruggs - Guitarra e Vocal (backing)
Nick Schendzielos - Baixo e Vocal (backing)

Faixas:

01. F.P.C.
02. Hang ‘Em High
03. Dogmaniacal
04. Intention to Deceive
05. Ingsoc
06. Masterplan
07. Peace Is in Pieces
08. Claiming Certainty
09. Wake Up
10. Circling the Drain
11. String Break
12. Slaughtered


Redigido por Claudio Santos
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