segunda-feira, 24 de abril de 2017

Power Trip - "Nightmare Logic" (2017)

Southern Lord Recordings

Mundo Metal [ Lançamento ]



Há uma declaração freqüentemente feita dentro da comunidade metal, que embora possa tomar uma variedade de formas, assim como alguma besta quimérica, que essencialmente, resume-se no seguinte: "O Thrash está morto, tudo soa como cópia descarada da década de 80 e qualquer coisa feita a partir deste lado do milênio não é nada além de música de merda agitada por meros posers" dizem os puristas. Declaração essa a qual repudio veementemente, pois a considero tão profundamente errônea, estupida e cheia de raciocínio falacioso que chega a embrulhar o estômago de quem possui qualquer tipo de bom senso.

Na contra mão do que muitos dizem ou pensam, o movimento Neo Thrash, trabalhou "silenciosamente" nas ultimas décadas e fez com que o estilo se recicla-se, obtendo grandes resultados nos últimos anos, nos apresentando uma infinidade de ótimas bandas, arrebatando uma legião de novos fãs, combinando elementos tradicionais do Thrash Metal oitentista e contemporâneo, com Crossover, Death Metal e Metal Extremo, basta ter um olhar mais atento, menos preconceituoso e retrogrado sob o estilo para notar isso facilmente. 

Bandas como Municipal Waste, Toxic Holocaust, Havok, Iron Reagan, Lost Society, Warbringer, Suicidal Angels, Vektor, Angelus Apatrida, etc, contribuíram fortemente para este ressurgimento. Mesmo veteranos bem estabelecidos como Anthrax, Death Angel, Slayer, Testament, Kreator, Overkill e Sodom, emergiram relativamente incólumes de anos de obscuridade e da perda de popularidade que se abateu sob o estilo na década de 90, lançando ótimos registros nos últimos anos, criticamente muito elogiados, impulsionando ainda mais a longevidade do estilo.


Uma das bandas que está vanguarda deste ressurgimento é o Power Trip.
Os caras estão chutando traseiros há quase uma década e a chegada de "Nightmare Logic" segundo full da banda não muda nada disso. 
A capacidade destrutiva desse quinteto texano está em plena exibição aqui: o poder, o intelecto e a imaginação centrais do metal clássico oitentista mesclados com absoluta perfeição à sensibilidade contemporânea, resultando num impenetrável muro de beleza e caos. 
Pode-se ouvir ecos de um tempo longínquo, mais socialmente consciente, assim como a ameaça do holocausto nuclear, o flagelo das drogas e a pobreza inescapável que proporcionaram a forragem lírica do metal underground americano na era Reagan, pois apesar de alguns avanços, nossos pesadelos sociopolíticos de quase 40 anos atrás continuam nos aterrorizando até os dias de hoje. 

Com o lançamento de seu segundo registro, "Nightmare Logic", ouso dizer que o Power Trip está finalmente pronto para se tornar um nome familiar entre os jovens e velhos fãs do estilo. 
Faixas como "Heretic's Fork", "Crossbreaker" e "The Hammer of Doubt", do álbum de estréia da banda de 2013, "Manifest Decimation", insinuaram sua paixão por transições criativas, velocidade implacável, solos viciantes e riffs memoráveis. Felizmente, isso se manteve e se fazem presentes, só que de forma ainda mais superlativa em "Nightmare Logic".
Em termos de produção, a banda recorreu novamente ao produtor/engenheiro Arthur Rizk (Inquisition, Pissgrave, Sumerlands) Rizk impregna este disco com o brilho e nitidez dos registros clássicos dos anos 80, enquanto também mantém a sujeira que faz o Power Trip soar como um híbrido de Thrash/Hardcore/Death Metal tão divertido.


A guitarras de Blake "Rossover" Ibanez e Nicky "Thrasher" Stewart soam asperas, com riffs veloses e pesados executando solos cativantes que abusam de disssonancias, a propósito, os riffs dominam o ambiente, são infernalmente viciantes, mas o que define e os diferencia para além do rebanho é o impressionante talento de ambos para a criação de excelentes ganchos. 
O baterista Chris Ulsh "desce o braço" vigorosamente, com velocidade e técnica apurada fazendo uso pleno de seu kit, o baixo de Chris Whetzel é pesadíssimo e distorcido enquanto o vocalista e compositor Riley Gale tem toda sua raiva embebida num reverb lamacento, toda essa mistura explosiva possui um alcance gargantuano e épico, de modo que cada solo ardente ou riff, batida, pulsação e urro soem como uma salva de canhões sobre um campo de batalha encharcado de sangue e corpos mutilados, arredondando e maximizando o impacto imediato e visceral de "Nightmare Logic".
A faixa de abertura "Soul Sacrifice" possui em seu inicio uma atmosfera sombria e inquietante antes que um riff de ligação turbo-carregado detone inesperadamente tal como uma granada em seus tímpanos, uma ótima introdução para "Nightmare Logic" tornando-se óbvio o que temos pela frente nessa audição, o mais puro caos sonoro, aonde o ouvinte é bombardeado com uma sonoridade visceral.


"Executioner's Tax" (Swing of the Axe) com seu ritmo hipnótico é o típico som pra banguerar até quebrar o pescoço, com letras cativantes e coros polifônicos raivosos.
"Swing of the Axe" é totalmente infecciosa, uma canção personalizada sob medida para os fãs de Thrash/Hardcore, feita para mergulhar num circle pit colossal. 
Faixas mais curtas como "Firing Squad" e "Ruination" mostram a natureza agressiva do Power Trip, com explosões rápidas e sujas de thrash acelerado e de alta octanagem.  
A faixa título do álbum ostenta um riff de "galope" e uma marcha sincopada de tambores absolutamente insanos, usados como pano de fundo por Gale para um sermão sobre o discurso político e a luta permanente contra a opressão, pontuando: "Através das profundezas mais escuras, vamos surgir".

Na segunda metade do disco, o Power Trip demonstra todo seu potencial, à medida que os arranjos e transições dos versos aumentam em complexidade com resultados espetaculares. 
Em "Waiting Around To Die" temos um dos poucos momentos para respirar, com sua introdução sinistra e ameaçadora de sintetizador, a qual evoca a sensação de ouvirmos uma trilha sonora de alguma das obras do mestre do terror John Carpenter em meio a um comedown vicioso. 

A magnífica "If Not Us, Then Who" possue aquela pegada oitentista clássica, um refrão pegajoso, coros polifônicos ameaçadores, enquanto seus os riffs soam frenéticos e afiados. 
Fechando o registro a excepcional "Crucifixation", com uma introdução absolutamente selvagem, seguida de uma ruptura súbita de tambor anunciando a chegada de um riff assassino acompanhado de uma letra raivosa e repleta de desprezo, com ouvinte sendo propelido num vórtex massivo de head-bang.



Considerações finais:

Após várias audições minuciosas posso dizer categoricamente: não há erros aqui; digo isso mesmo me esforçando para encontrar qualquer falha no material ou nas performances. Este é um álbum que funciona de ponta a ponta. 
"Nightmare Logic", é um registro extremamente sólido em todos os aspectos, composições extraordinárias, riffs estelares e um nível de urgência e intensidade que é simplesmente incomparável. 

Registro altamente recomendado à todos os fãs do bom e velho Thrash Metal que tanto amamos! 


Integrantes:

Chris Whetzel - Baixo
Chris Ulsh - Bateria
Blake "Rossover" Ibanez - Guitarra (lead)
Nick Stewart - Guitarra (rhythm)
Riley Gale - Vocal


Faixas: 

01. Soul Sacrifice
02. Executioner’s Tax (Swing of the Axe)
03. Firing Squad
04. Nightmare Logic
05. Waiting Around to Die
06. Ruination
07. If Not Us Then Who
08. Crucifixation


Avaliação: 9,0

Redigido por Claudio Santos