quinta-feira, 7 de julho de 2016

Rage: do menos expressivo ao melhor álbum


A sessão “do mais fraco ao melhor álbum” foi criada com o objetivo de tentar elencar os álbuns de determinadas bandas, do menos expressivo ao mais significativo. Os critérios usados para o ranking são diversos, como aceitação crítica do álbum em questão, importância do lançamento para a época, nível técnico em comparação a outros trabalhos da banda e fator diversão (obviamente), entre outros.

Note que não há aqui certezas ou leis, apenas uma análise feita por mim para decidir a ordem dos álbuns baseado nas informações acima e, portanto, se seu álbum favorito estiver abaixo no ranking ou se aquele play que você acha uma merda estiver bem posicionado, lembre-se que a música é uma forma de arte subjetiva e pessoal, e não uma ciência exata. De qualquer forma, tentarei potencializar ao máximo os critérios técnicos acima e minimizar interferências pessoais.


Essa semana, um ícone do Metal Teutônico e uma das minhas bandas favoritas dá as caras, o Rage. A maioria de nós headbangers, mais pacientes que aquele tiozinho que fica sentado na praça do seu bairro só olhando o movimento da rua, já ouvimos a herege frase quando mencionamos esses monstros da Alemanha: “Po cara, daora, Rage Against the Machine?” Não, seu saco de merda, seu resto de aborto! É SÓ RAGE!

Criada por Peter ‘Peavy’ Wagner sob a alcunha de Avenger no ano de 1983, o Rage teve seu início oficial em 1986 com o álbum Reign of Fear, e a partir daí foi só alegria. Num ritmo frenético de lançamentos desde sua incepção, a banda teve seu auge de popularidade no início dos anos 1990 principalmente no Japão, mas sempre foi bem vista e respeitada ao redor do mundo. De Heavy ao Speed, passando por Power e até música orquestrada, o Rage é sem dúvidas um dos maiores expoentes do Heavy Metal da Alemanha e Peavy um dos mais experientes e inteligentes compositores da cena.

Vamos, então, ao que interessa e analisar essa discografia imensa e digna de aplausos. Deixo bem claro que não considero nenhum álbum dos caras ruim, mas tenho que dar nome aos bois do mais fraco ao melhor.

Rage on!

21 – Reflections Of A Shadow (1990)


Como disse ali em cima, não há álbum ruim do Rage, mas comparando Reflections of a Shadow friamente com os demais, fica claro que o play esta um passo atrás. A produção abaixo da média para a época e um pequeno lapso de criatividade de Peavy deixam, infelizmente, o bom Reflections em uma posição pouco confortável.

20 – Carved in Stone (2008)


Quando ouvi as primeiras notas da faixa título de Carved in Stone e a entrada fodástica e porradeira de André Hilgers ao final da introdução, fiquei extremamente animado com o possível resultado final do álbum. O que vemos na ordem cronológica do álbum, porém, é uma perda de foça conforme seu curso, mais ou menos da forma com que acontece quando você transa a noite toda: a primeira é só alegria, energia, explosão. A segunda é um pouco menos intensa. A terceira já começa a ficar meia-bomba. A quarta é arrastada, desidratada, feita por honra. E a quinta…não sei, nunca cheguei na quinta.

19 – Strings to a Web (2010)


Um dos mais experimentais álbums da carreira do Rage, Strings to a Web perde um pouco a mão com alguns devaneios de Viktor Smolski que fazem do álbum uma experiência um tanto cansativa. Faixas de qualidade como “Hunter and Prey”, “Empty Hollow” e “Saviour of the Dead” mantém um bom ritmo, porém.

18 – 21 (2012)


21 tem uma das músicas mais divertidas do Rage, “Forever Dead”, e mostra um trio um pouco mais à vontade em relação a Carved in Stone e Strings to a Web. O estranho de tudo é que após esse álbum, Vitkor Smolski e André Hilgers vazaram (foram vazados, na verdade) da banda, porque Peavy estava com dúvidas sobre o rumo que o Rage estava tomando musicalmente.

17 – Execution Guaranteed (1987)


Segundo play da carreira dos loucos, Execution Guaranteed mostra um Jörg Michael absolutamente possuido, obliterando tudo com sua bateria fodona e velocidade impressionante, e uma boa dupla em Rudy Graf e Jochen Schröder, principalmente nos solos. A porrada “Down by Law” e a doida “Grapes of Wrath” fazem do álbum um trabalho extremamente interessante.

16 – The Devil Strikes Again (2016)


Lançado recentemente, o play devolve um pouco da magia dos anos 1990 aos fãs hardcore (assim como eu) do Rage, com a ótima adição de Marcos Rodríguez nas guitarras e uma escolha sóbria em Vassilios ‘Lucky’ Maniatopoulos na bateria, mas tem alguns problemas nas letras – extremamente simples e pouco inspiradas – e, obviamente, na voz de Peavy Wagner. Sou só eu ou parece que ele esta cantando com a língua presa?

15 – Ghosts (1999)


Ghosts é o resquício de um Rage banhado em elementos orquestrados e com mais peso e menos velocidade. É sem dúvidas o álbum mais melódico da discografia dos Alemães, e não há aqui uma música ruim. “Back in Time”, “Wash My Sins Away”, “Love and Fear Unite” e “Love After Death” são apenas alguns exemplos da alta melosidade mas competente execução adotados no trabalho.

14 – XIII (1998)


Continuando em sua fase orquestrada, o Rage conseguiu alternar com maestria canções fortes e com o peso característico do Metal com belas harmonias inspiradas em música clássica. Com a habilidade impressionante de sempre para compor, Peavy criou junto de seus companheiros uma bela peça que, apesar de por vezes não ter seu devido reconhecimento, é um marco na história do Heavy Metal Alemão.  

13 – Secrets in a Weird World (1989)


O início maluco com “Intro (Opus 32 – Nr. 3) ilustra bem o que é esse magnífico álbum. Secrets in a Weird World é considerado o último que apresenta a veia Speed Metal do Rage, e é merecidamente posto no meio da extensa discografia do Rage por conter destruições como “Time waits for No One”, “Invisible Horizons”, “Make My Day” e a bela “Without a Trace”.

12 – Lingua Mortis (1996)


“Nossa, o Metallica inovou, mitou, quebrou as barreiras entre o agressivo e o sofisticado, ninguém nunca será tão gênio quanto Ulrich e Hetfield que tiveram a idéia de fazer um álbum inteiro com uma orquestra”. Novidade pra você, seu bostinha que não sabe nem distinguir entre sua mão e uma boceta: O Rage fez essa porra muito antes dos chorões do Metallica, e fez muito melhor. Clássicas músicas como “In a Nameless Time” e “Alive but Dead” foram repaginadas e construidas de forma magistral para Lingua Mortis, um álbum completamente diferente do que o Rage havia lançado até então, e que acabou por agradar tanto os fãs como a crítica. Belo, épico, inspirador e altamente recomendável.

11 – Reign of Fear (1986)


Hinos do Speed Metal ecoam e explodem as caixas de som cada vez que colocamos essa magnífica pepita pra rolar. “Deceiver”, “Scared to Death” e principalmente “Suicide” fazem de Reign of Fear uma pedida perfeita para os headbangers que preferem mais rapidez e crueza em sua dose diária de metal. Por motivos técnicos, infelizmente o álbum não conseguiu figurar mais acima no ranking. 

10 – Welcome to the Other Side (2001)


Peavy Wagner inicia aqui um trio de alta sacanagem apelativa com o homem de mil dedos Viktor Smolski e o demônio mais fodão do mundo, Mike Terrana. A transição de músicas mais melódicas para mais trabalhadas e agressivas também tem um começo aqui, com bons exemplos em “Paint the Devil on the Wall”, “Riders on the Moonlight” e “Straight to Hell”. Também vemos a liberdade dada por Peavy a Smolski, que passa a ser peça importante no trabalho de composição da banda. Magnífico álbum.

9 – Speak of the Dead (2006)


Última reunião do trio mais apelação dos anos 2000. Vitkor Smolski rouba a cena completamente em Speak of the Dead com a poderosa e sofisticada “Suite Lingua Mortis” e riffs de deixar qualquer garota molhada como em “No Fear”, “Full Moon” e a visceral e avassaladora “Kill Your Gods”, até hoje uma das minhas músicas favoritas do Rage. Um deleite para fãs de qualquer estilo do Metal, já que conta com uma vasta gama de elementos. 

8 – 10 Years in Rage: The Anniversary Album (1994)


Porradaria, destruição, sangue pingando, mulheres chorando, cidades inteiras sucumbindo. The Anniversary Album é o caos completo e absolutamente acima da média. De “Vertigo” a “The Blow in a Row”, passando pela repaginada “Prayers of Steel ‘94” e a divertidíssima “Take My Blood”, esse é definitivamente o trabalho mais pesado da discografia do Rage (muito mais pesado do que você ficou quando casou), e também um dos meus favoritos. 

7 – End of All Days (1996)


End of All Days é um trabalho peculiar. Vemos aqui Peavy usando um timbre diferente do que estávamos acostumados, e o álbum conta com uma produção um pouco mais crua do que seus antecessores, mas nada que tire o brilho do álbum. Aliás, esses elementos ajudam o play a se destacar na discografia da banda e quase alcançar um lugar no pódio desse ranking. “Under Control”, “Deep in the Blackest Hole”, “Visions”, “Voice From the Vault” e a talvez mais famosa música da carreira dos alemães, “Higher Than the Sky”, colocam a qualidade de End of All Days lá em cima.  

6 – Unity (2002)


“All I Want”, “Down”, “Set This World on Fire”, “Shadows”…é difícil parar pra respirar com Unity. Agressivo, melódico, grudento e extremamente técnico, tem pra mim o melhor solo da história do Rage em “Dies Irae” (Viktor Smolski, você é ridículo!) e um mamute destruidor em forma de música com a faixa-título instrumental. Em algum momento entre o começo avassalador ao som de motores, as porradas astronômicas e os riffs e solos inacreditáveis em “Unity”, devo ter gozado na primeira vez que ouvi. 

5 – Perfect Man (1988)


“Don’t Fear the Winter”. Não precisaria dizer mais nada pra justificar o quinto lugar para Perfect Man, mas seria injusto resumir o álbum em apenas uma música. Manni Schmidt faz sua estréia na banda aqui, e como o Rei Midas que é, tornou todas as linhas de guitarra em verdadeiras pepitas de ouro. Rápido, rebelde e descolado, sem deixar de lado a tecnicidade, Perfect Man é uma instituição do Heavy Metal Alemão dos anos 1980.

4 – Trapped! (1992)


A época perfeita do Rage começa aqui. Em um nível absurdamente alto de inspiração, performance e execução, Peavy, Manni e Chris Efthimiadis entregam um trabalho mais delicioso que aquela loira que você tinha tesão na faculdade. Mas diferente dessa loira, Trapped! te ama de volta.

3 – Soundchaser (2003)


Soundchaser é pra mim o melhor trabalho do Rage; tanto que, pra justificar minha opinião, tatuei a capa do álbum no meu braço esquerdo. Mas, como opinião não vale nada aqui, o play fica com a medalha de bronze por motivos maiores. Não restam dúvidas, porém, que Soundchaser é o trabalho mais polido, técnico e musicalmente limpo de toda a discografia da banda. Mike Terrana entrega sua melhor performance da carreira e Viktor Smolski executa riffs e solos simplesmente mágicos, e aliados aos bons vocais e apoio fundamental no baixo de Peavy, fazem desse um dos melhores álbums da década de 2000.

2 – Black in Mind (1995)


Black in Mind tem passagens melódicas, alegres, melancólicas e agressivas. A faixa título chega a ser maligna de tão poderosa e não há sequer um minuto que poderia ser jogado fora no álbum. O negócio aqui é Metal de primeira linha, sem espaços pra encher linguiça ou tempo pra relaxar. Black in Mind é considerado por muitos como o ápice da carreira do Rage, e se não fosse a obra-prima abaixo, seria mesmo. 

1 – The Missing Link (1993)


O auge intelectual de Peavy, com canções minuciosamente escritas e execução inspiradíssima de Chris e Manni. “Firestorm” e “Nevermore” anunciam de cara a obliteração que é The Missing Link. Em faixas épicas como “Lost in the Ice” a expressões de força bruta como “From the Underworld” e “Who Dares”, Peavy, Manni e Chris atingem um nível que poucos músicos podem se gabar de terem alcançado. Nenhuma nota fora do lugar, nenhum momento de dúvida, nenhuma passagem monótona. Somente vitória, poder e perfeição.

E aí gostaram? Concordam com as colocações? Bem, talvez você possa não ser um catedrático na discografia dos caras ou até mesmo nunca ter parado pra escutar devidamente, mas nesse caso, eis aqui uma grande oportunidade para isso.

por Bruno Medeiros