segunda-feira, 4 de julho de 2016

AVANT-GARD TECHNICAL PROGRESSIVE TIMELESS INTROSPECTIVE ESSENTIAL THRASH METAL


E apresentamos mais uma contribuição do nosso grande amigo Luís Henrique Campos. O cara sabe como ninguém, ser polêmico, ácido e até mesmo poético, seus textos abordam o Metal de uma forma bem diferente da que você está acostumado. Dúvida? Então aventure-se e... 

Boa leitura!

Resenhar uma banda de metal da Suíça deve ser coisa de doido, não? Quem falou que na Suíça existem bandas de metal? Anos 80, old school? Você só pode estar de brincadeira!

Pois é, rapaziada! É isso que muitas vezes escuto por esse mundão metálico de "meudeuzu". Krokus, Carrion, Sultan, Headhunter, Killer, Apocalypse, Drifter, Paganini, Poltergeist, Hellhammer, Celtic Frost, caralho! Essas são algumas dos anos 80. País pequeno, de poucas bandas, mas uma sumidade no quesito fodeza.

Acredito eu que, excetuando o “brékimérow metranca”, o thrash metal é a vertente que mais produziu e ainda produz bandas e, diferente da vertente extrema citada, é também o segmento “headbanguiano” que mais nos brindou com bandas de altíssima qualidade, isso até nos dias de hoje.

Quando da fundamentação dos alicerces de ouro do thrash metal, no início da década de oitenta, os roadies da Celtic Frost, Marquis Marky e Oliver Amberg, em suas horas vagas, fundam a banda que, na minha opinião, é a sublime materialização do requinte e da suntuosidade. É certo que, inicialmente, eles não tinham nada de thrash. Na verdade, faziam um glam rock estiloso nos moldes de Motley Crue e Ratt e, somente após 3 anos (em 1986) eles sapecaram sua primeira demo tape nos bastidores do underground, a Death Cult.

A seguir, em 1987, eles lançam “R. I. P.” em formato demo tape independente, com 9 canções e, na sequência, o debut homônimo, já pela Noise Records, melhor produzido e com um número maior de canções.

Tanto se fala em “debuts massacrantes” mundo e tempo afora, mas poucos citam o “Descanse em Paz” dos suíços. Um álbum maravilhoso, soberbo, impactante. Impressionante. Não só na forma técnica de execução das canções, mas também no requintado veio poético de Marquis. Letras ácidas e bem construídas sobre política, humanismo, depressão, existencialismo, onde a intenção principal era alfinetar a amoralidade humana em todos os sentidos de sua mesquinha existência. De quebra, o requinte: Velocidade e técnica apuradas.


Originalidade, fôlego e virtuosismo. Logo de cara, na fundação de seus pilares, o thrash metal conhecia “o fino da bossa” e a boçalidade das composições infantis e de pouco senso de outras bandas, começava já a ficar em segundo plano. R.I.P. é atemporal e invejável, virtuoso e progressista, hiperativo e introspectivo, complexamente simples e simplesmente complexo.

Em 1988 os caras vêm com o ultrajantemente estratosférico “Punishment for Decadence”. Magistralidade mecânica, inexorabilidade lúdica, incredulidade semântica. Composições de fino trato. Música tão além de seu tempo que até hoje é incompreendida . 9 canções como nunca vistas. E é da suíça... fazer o quê?

Os riffs complexos de todas as composições definiram o DNA evoluído do mais inusitado thrash metal. As escalas acachapantes das linhas de baixo são algo jamais degustado por simples mortais. Os repiques e quebradas da bateria deixaram muitos grandes experts no assunto de queixo caído. “Punishment for Decadence” o top 1 entre todos os tops do mais fino thrash metal de todos os tempos.

Mais um ano e mais um álbum magnânimo: Em 1989 os caras lançam a joia rara “No More Color”. Tudo continua na mesma.

Composições do mais alto grau de complexidade, muitas artimanhas progressivas, uma gama sem fim de argumentos técnicos. Na minha opinião é o apogeu de Ron Royce como vocalista. Principalmente neste álbum ele fez escola. Como baixista ele sempre se apresentou maravilhoso, como vocalista idem, mas em “No More Color” ele se apresenta anos-luz à frente de qualquer menestrel das nuances extremas, no que tange a vocalizações para a época. Tommy T. Baron faz de sua guitarra uma diversão de criança e aos seus ouvintes não lhes resta nada além de a boca aberta. Solos, riffs, harmonizações de elevado gabarito com um espírito genuinamente progressivo. 1989?

Thrash Metal? É isso, pessoal! Pasmem! 3 álbuns muito além de seu tempo lançados consecutivamente, ano após ano, sem deixar pedra sobre pedra, construindo a essência thrash. A intersecção entre o requinte do progressivo e a paixão da podridão trhashmaniac.


Em 1991, já mais “maneirinhos”, mas não menos virtuosos, os suíços aparecem com “Mental Vortex”. Mesma linha. Harmonias, riffs e solos complicadérrimos, verve intrincada e contemporânea. Ron Royce continua único e inacreditável. Baron é sim o mestre das 6 cordas. Novamente, Baron é exímio nas linhas de baixo e Marky sempre soberbo em suas batidas.

A linhagem progressiva é, novamente, inconteste. A banda, nessa linha oscila entre ELP e Rush, na lixosidade dos desmandos thrash é inegável (até mesmo pela proximidade) a pegajosidade das Big Four Teutônicas, desde Kreator até Tankard. Mais um álbum extraordinário, mais uma vez todo o conjunto serve apenas como aula de virtuosismo para a posteridade sempre embasbacada.

“Grin” é o último álbum da banda. Lançado em 1993, está definitivamente progressivo com pitadas thrash, às vezes generosas, às vezes imperceptíveis... meio que flertando com (ou inventando) o Industrial Metal. É o álbum “esquisitão” da banda. Quanto à musicalidade, não há o que argumentar: Eles são experts no que fazem, mas a pegajosidade das canções aqui não é a mesma. Letra e música são, sim, requintadas e dignas dos mais exaltados aplausos, mas o conjunto é algo pra ser degustado com calma, como vinho. Deve-se sentir cada aroma, cada graduação dos flavonoides entorpecedores, como tal deve ser apreciado com moderação, senão sai-se da razão e cai-se num mundo inimaginável como as viagens do progressivo.

Velho, quer saber? Grin é thrash pra caralho! É a coisa mais modernosa quando ainda não se aventavam as invencionices e esquisitices modernosas dos anos 2000. Grin coloca, como sempre, esses suíços como homens à frente de seus próprios tempos.

Essa cambada de marmanjo que saca, com riqueza de detalhes, as obras sui generis do universo heavy metal, sabe de quem to falando. Obviamente não é nenhuma novidade pra eles, sejam os títulos dos álbuns, sejam os nomes dos componentes da banda. Em 5 magníficos álbuns, os mesmos 3 seres detentores das mais bestiais das genialidades. Já a cambada que não saca... fico imaginando o desespero em buscar o assunto: “- De que caralho esse "filhadaputa" ta falando?”


Por isso o título dessa narrativa:
“AVANT-GARD TECNICAL PROGRESSIVE TIMELESS INTROSPECTIVE ESSENTIAL THRASH METAL”

To falando do CORONER, porra! A mais atemporal banda de thrash metal de todos os tempos! Na minha opinião, é claro!


por Luís Henrique Campos

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