quarta-feira, 28 de junho de 2017

Live Review: D.F.C.

Clash Club - São Paulo – 27/05/2017


A Cospe Fogo Gravações, em parceria com a Loja 255, da Galeria do Rock foram responsáveis por outro grande evento underground no fim do mês passado, realizado na casa de shows Clash Club, localizada na região da Barra Funda, em São Paulo. Diretamente de Brasília (DF), o D.F.C., uma das bandas mais importantes do cenário Crossover Thrash/Hardcore, retornou a São Paulo e fez uma apresentação absolutamente matadora e memorável, entretanto, o evento também contou com a presença de outras 6 bandas igualmente insanas e heterôneas, sendo elas o V.M.R. (Vanguarda Metal Revolucionária) (SP), Sem Hastro (EUA), Santa Muerte (SP), Cerberus Attack (SP), CrotchRot (PR) e Surra (Santos). Pois é, meus caros amigos! A pancadaria foi realmente braba, como podem imaginar...


Conforme divulgado, a abertura da casa ocorreu às 16h e desde já deixo os meus mais sinceros elogios à organização. Como de praxe, os horários das apresentações de cada banda foram bem distribuídos e a playlist selecionada também estava totalmente de acordo com o público e com as bandas que foram escaladas para se apresentar. Os paulistanos do V.M.R. (Vanguarda Metal Revolucionária) foram os primeiros a subirem ao palco e fizeram isso com muita garra e presença, diga-se de passagem. Os rostos de comunistas famosos, como Karl Marx, Angela Davis e Carlos Marighella, foram exibidos durante toda a performance da banda, que possui um discurso político esquerdista muito acentuado, especialmente por parte de seu frontman, o carismático Marcelo “Mosh X” (Criminal Mosh), figura emblemática da cena underground. O restante da banda é composto por Edoom (guitarra), Juca (baixo) e Mindu (bateria). Dentre as composições apresentadas pela banda, podemos mencionar algumas como “Mulher, Negra e Comunista”, “Marighella”, “Viver é Lutar” e “Comunismophobia”. Ainda que a casa estivesse com um público ainda não muito expressivo, foi uma apresentação poderosa e que serviu como um grande aquecimento para o restante do evento. 


Algum tempo depois, foi a vez do Hardcore/Punk do Sem Hastro, banda estadunidense que conta com um vocalista brasileiro, Xavico. Sua formação também conta com Skuzz (guitarra), Vogel (baixo) e Viper (bateria) e o show dos caras foi igualmente furioso. O grupo destilou a sua proposta musical com muita desenvoltura e ainda prestou um pequeno tributo ao lendário Olho Seco, com um cover do clássico “Botas, Fuzis e Capacetes”.


O Power Trio feminino paulistano do Santa Muerte também foi responsável por uma apresentação igualmente insana. A banda, encabeçada por Marilia Massaro (vocal/guitarra), Rebecca Prado (baixo/vocal de apoio) e Jhully Souza (bateria), mandou muito bem o seu recado, tocando composições de seu EP lançado ainda nesse ano, “Psychollic”, como “Cyco Pit” e “Trap on Track”. Também houve espaço para uma pequena homenagem a uma banda que, de acordo com a frontwoman Marília, foi a principal influência da banda em seu início, o Sepultura. E dá-lhe “Troops of Doom”, que fez com que o público, ainda tímido e retraído, promovesse um pequeno moshpit. 


A quarta banda a se apresentar já é uma velha conhecida no cenário underground, especialmente quando o assunto é Thrash Metal. Falo do Cerberus Attack, grupo paulistano formado em 2009, que possui atualmente em sua formação Jhon França (vocal/guitarra), Marcelo Araujo (guitarra/vocal de apoio), Marcelo Maskote (baixo/vocal de apoio) e Bruno Morais (bateria). A banda está prestes a lançar finalmente o seu primeiro álbum de estúdio, “From East With Hate” e não deixou pedra sobre pedra, brindando a todos com pedradas como “Welcome to Destruction”, do EP homônimo de 2011 e a nova “Face Reality”. O show dos caras certamente foi um momento muito aguardado pelos seus apreciadores e o resultado foi uma sucessão animalesca de rodas e moshpit incessante. 


Trazendo uma proposta anti-musical completamente indigesta, o Crotchrot, grupo de Goregrind de Curitiba (PR), deu continuidade ao evento com sua performance marginal, bizarra e assustadoramente hilária. Para se ter uma boa noção, de acordo com a própria banda, o nome “Crotchrot” re refere ao “aroma pungente oriundo da região do púbis genital característico de quem tem doença venérea em progressão”. Pois é, isso já diz tudo! Formada por Muringa (vocal), Cynthia (guitarra), Angela (baixo) e Karina (bateria), a banda já subiu ao palco no maior clima de “What the Fuck?”. As três instrumentistas foram as primeiras a dar as caras e, quando menos esperávamos, um tresloucado cidadão, vestindo apenas uma calça, uma touca com abertura para os olhos e a boca, além de fitas isolantes nos mamilos e no abdômen, também sobe ao palco, revelando ser o vocalista do grupo. Como já era de se esperar, o quarteto foi responsável por uma apresentação muito estranha, escrachada e ao mesmo tempo hipnótica, que deixou muitos sem saber o que pensar e certamente levou muitos dos presentes a, no mínimo, darem boas risadas com as músicas, que beiravam o mais hediondo non-sense, tendo, inclusive, inserções de Funk carioca, como na introdução de “Orgia do Crackudo”, a faixa de abertura do EP “Pata de Camelo” [sic] (2015). 


A essa altura do campeonato, a casa já estava bem cheia e muitos aguardavam ansiosamente pela apresentação dos santistas do Surra, banda de Crossover Thrash/Hardcore que cresce cada vez mais. Encabeçada por Leeo Mesquita (vocal/guitarra), Guilherme Elias (baixo/vocal) e Victor Miranda (bateria), os caras deram uma belíssima e excruciante aula de agressão musical, simplesmente isso. “Não Escolha”, a faixa de abertura do primeiro álbum da banda, o excepcional “Tamo na Merda” (2016), abriu o show dos caras da forma mais insana que se pode imaginar. Sem perder tempo, já emendam com outra do mesmo trabalho, “Peso Morto”, além da “carinhosa” “Tu Ainda Vai Se Fuder”. O frontman Leeo Mesquita faz um breve discurso a respeito do político Geraldo Alckmin e é claro, dá-lhe “Merenda”, clássico do devastador EP “Bica na Cara” (2012) cuja letra diz é um tremendo arregaço na fuça de qualquer desavisado. 

E o clima do público durante a apresentação? Simplesmente caótico, no melhor sentido da palavra! O stage dive e o moshpit jamais tinham fim e certamente a apresentação dos caras teve um clima quase que de headliner, principalmente levando em consideração que muitos ali estavam loucos para vê-los em ação. Mais pauladas sonoras foram executadas a seguir. “Xquema”, “Xerifão”, “Daqui Pra Pior”, “Sete a Um”, “Povo Feito de Imbecil”, “Tamo na Merda”, “Embalado pra Vender”, “Cubathrash”, “30 Kg de Merda”, “Valeu Memo”, “Não tem Boi” e “Ditadura” levaram todos a um delírio indescritível. Em poucas palavras, uma performance absolutamente irrepreensível e devastadora, tanto da banda como do público, que não parou de agitar por um minuto sequer. 


Pouco mais de 21h, os brasilienses Tulio (vocal), Miguel (guitarra), Leonardo (baixo) e Bruno (bateria) sobem ao palco e eis que chega o momento mais aguardado da noite: a apresentação D.F.C., é claro! Após uma breve e divertida saudação do sempre carismático vocalista Tulio, o que se assistiu foi uma legítima aula de Crossover Thrash/Hardcore, cujo início foi marcado pelo clássico obrigatório “Pau no Cú do Capitalismo em Posições Obscenas”, do primeiro álbum da banda, o clássico “Tchan Nan Nan Nan Nan” (1994). Em questão de segundos o moshpit e os stage dives mais insanos que se pode imaginar surgiram novamente. Sem tempo para respirar ou sequer pensar, a banda já manda outro clássico, “Lucro é o Fim”, de “Igreja Quadrangular do Triângulo Redondo” (1996). Logo após, tivemos uma sequência de porradas certeiras, “Eu Não Preciso do Sistema”, “Eu Não Preciso do Sistema” e “Eles Querem te Controlar”. A banda faz uma pequena pausa e Tulio menciona que a banda vem do mesmo local onde se encontram os políticos mais sujos do país e rapidamente oferece a todos a composição “Todos Eles te Odeiam”.

“O Vírus do Peculato”, de “O Massacre da Guitarra Elétrica” (2002) mantém a adrenalina e toda a atmosfera anárquica necessária em uma apresentação do gênero, bem como a música seguinte, “Pobre Coitado”. Os músicos fazem uma nova pausa e Tulio menciona que a próxima composição que irão tocar abre o último disco da banda, “Sequência Animalesca de Bicudas e Giratórias” (2014). E dá-lhe “Venom”, que é recebida de forma feroz e calorosa por todos, é claro! Os caras continuam com a segunda música do mesmo álbum, “Não São Casos Isolados”, cuja recepção é igualmente furiosa. Sempre introduzida em tom cômico e irônico, “Vai se Fuder no Inferno”, de “O Mal que Vem pra Pior” (2005) fez todos cantarem e se arrebentarem no mosh e nos stage dives. 


A primeira faixa de “Sob o Signo de Satã” (1999), “Roleta Russa” chegou destroçando tudo e todos, dando continuidade a apresentação da melhor maneira possível, ou seja, muita demência e balbúrdia. E o que falar do restante do repertório da banda? “O Mal da Liberdade”, “Punk ou Panqui?”, “Possuído Pelo Cão”, “Hidelbrando Chainsaw Massacre”, “Petróleo Maldito”, “CPMF”, “Censura e Corroído Pelo Ódio” deixaram todos completamente eufóricos e não é para menos. Especialmente dedicada à cidade natal de seus integrantes, “Cidade de Merda” prosseguiu com o pandemônio, não deixando qualquer um indiferente ao que estava acontecendo. “Dirty Sanchez”, “Demônio da Fé Cristã”, “Existência Ignóbil”, “Franchising”, além da hilária e divertidíssima “Querida Sogra” também não deixaram por menos, adicionando ainda mais insanidade a performance. 

Os integrantes fazem mais uma pequena pausa e Tulio menciona que tocarão uma música que foi gravada originalmente na primeira demo da banda, “Erramos Tudo ao Mesmo Tempo Agora” (1993). Nesse pequeno discurso, ele apresenta o ex-baixista e fundador do D.F.C. Phú, que inclusive assistiu a apresentação inteira, de forma extremamente bem-humorada, na lateral esquerda do palco, ao lado dos managers e demais membros da equipe da banda. A música em questão foi a clássica “P.A.T.A.M.O.”, que pra variar, fez todos o que sabiam sua letra cantarem e obviamente promoveu mais uma roda generosa. Pouco depois, houve um momento muito engraçado, onde Túlio brinca que apresentaram o fundador da banda, mas se esqueceram de apresentar o novo baterista, Bruno, que foi aplaudido por todos em seguida.


Ainda falando de mosh/circlepit, “Inferno na Terra”, “Cuspindo no Sagrado”, “Respeito é Bom e Conserva os Dentes”, “O Caguete” e “Há Males que Vem para Pior” também fizeram todos agitarem incessantemente. A euforia e o caos jamais tinham fim! Túlio pede para o público que está na roda dar as mãos e hilariamente oferece a “gentil” “Vou Chutar a Sua Cara”, composição muito apropriada para “dançar” com os amigos, mas é claro! Infelizmente, tudo que é bom, dura pouco e a apresentação chega ao fim com as músicas “Quadrilha de Sádicos”, “Guilhotina” e claro, o ultra-clássico do D.F.C. “Molecada 666”. Aliás, ao mencionar que o show estava chegando ao fim, todos gritavam justamente pela música. Alguns fãs cantaram até mesmo sua letra debochada e marcante. Sempre muito cortês e simples, Tulio indaga ao público sobre qual show da banda deixa essa música de fora do setlist e em um clima extremamente animado, os músicos executam o som, que encerra a apresentação de modo maravilhosamente apoteótico, com muitos fãs subindo ao palco para cantar a agitar com a banda.

Muitos são os adjetivos que podem ser atribuídos a esse evento, entretanto serei muito breve e incisivo com minhas palavras: foi simplesmente IxNxSxAxNxOx! Ao término do fest, dava para notar de longe que todos que compareceram estavam exaustos e plenamente satisfeitos. Não apenas o D.F.C., como todas as bandas e o público proporcionaram um evento intenso e perfeito. Novamente, é de suma importância ressaltar a organização da Cospe Fogo Gravações e da equipe da Loja 255, que como sempre, concebem espetáculos volumosos dentro do cenário independente.

Integrantes:

Tulio (vocal)
Miguel (guitarra)
Leonardo (baixo)
Bruno (bateria)

Setlist:

01. Pau no Cú do Capitalismo em Posições Obscenas
02. Lucro é o Fim
03. Eu Não Preciso do Sistema
04. Só Tem Merda na TV
05. Eles Querem te Controlar
06. Todos Eles te Odeiam
07. O Vírus do Peculato
08. Pobre Coitado
09. Venom 
10. Não São Casos Isolados
11. Vai se Fuder no Inferno
12. Roleta Russa
13. O Mal da Liberdade
14. Punk ou Panqui?
15. Possuído Pelo Cão
16. Hidelbrando Chainsaw Massacre 
17. Petróleo Maldito
18. CPMF
19. Censura
20. Corroído Pelo Ódio
21. Cidade de Merda
22. Dirty Sanchez
23. Demônio da Fé Cristã
24. Existência Ignóbil
25. Franchising
26. Querida Sogra
27. P.A.T.A.M.O.
28. Inferno na Terra
29. Cuspindo no Sagrado
30. Respeito é Bom e Conserva os Dentes
31. O Caguete
32. Há Males que Vem para Pior
33. Vou Chutar a Sua Cara
34. Quadrilha de Sádicos
35. Guilhotina
36. Molecada 666


Redigido por David “Fanfarrão” Torres

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