sexta-feira, 19 de maio de 2017

The Great Old Ones​ - "EOD: A Tale of Dark Legacy" (2017)

Season of Mist

Mundo Metal [ Lançamento ] 



Vou começar minha resenha da vez com um desabafo, e explico melhor o motivo no último parágrafo desse texto: Dar notas para álbuns é difícil pra porra. Escrever sobre o som, particularidades, estilos, nuances e o caralho a quatro é mamãozinho com açúcar. Meter o malho aonde tem que meter e enaltecer o que é bom são coisas fáceis, mas quando chega a hora de mensurar toda essa baboseira subjetiva que escrevemos por linhas a fio e colocar o pau na mesa pra solidificar tudo em números, o saco aperta. Dar notas para álbuns – de novo – é um cu cagado. Mas eu divago, vamos ao que interessa.

A atmosfera “Lovecraftiana” na música é uma parada capciosa de se alcançar. Um número alarmante de bandas de Metal têm se aventurado nas tentativas de emular essa aura horripilante e atraente quase que de forma sexual (para alguns poucos retardados por aí) e, por via de regra, falham miseravelmente. Algumas, porém, parecem entender o que diabos o pobretão de queixo avantajado criou de forma genial. Lovecraft não era só sobre um ser cósmico cheio de tentáculos aterrorizando a molecada: era ficção sci-fi unida à fantasia, religião, ao sobrenatural e a temas densos e extensos como insanidade mental, e esses franceses de Bordeaux se encaixam no segundo bolo, o daqueles que compreendem e transpiram a obra magnífica do escritor.


O The Great Old Ones ressurge das sombras depois do interessante ‘Tekeli-li’ para pregar mais uma vez a palavra de Cthulhu na forma de um Post-Black Metal minucioso e cativante com seu terceiro álbum de estúdio, ‘EOD: A Tale of Dark Legacy’. Definitivamente o trabalho mais bem produzido e igualmente bem executado dos nativos de Bordeaux, o álbum consegue repassar o recado lírico de uma forma que talvez seja a melhor que vi até hoje sobre o tema. Num misto de nebulosidade e sombriedade, o som dos caras parece sair das profundezas aquáticas, como que anunciando a vinda do bichão de mil tentáculos mais temido desse lado dos multiversos. Obras longas e cheias de terror como “The Shadow Over Innsmouth”, “The Ritual” e “In Screams and Flames” ditam o ritmo de peso e satisfazem os ouvidos na medida certa, lembrando em partes mais viscerais e gélidas um Immortal inspirado. Ao passo que as linhas de guitarra se entrelacam com os efeitos sonoros de fundo e a cozinha adiciona força aos sons, Benjamin Guerry e Jeff Grimal explodem em um frenesi vocal e entregam ótima performance, especialmente na bombástica “When the Stars Align”. 

Bombástico, inclusive, é um bom adjetivo pra ilustrar a experiência completa do play. O grande esquema aqui é que nenhuma música perde poder pra sua antecessora, mantendo a consonância instrumental até o fim épico com – pra mim – a melhor performance do trabalho em “Mare Infinitum”, que se tornou uma das minhas favoritas da carreira dos franceses. Mas, como tudo possui a maldita conjunção, o álbum tem algumas derrotas em sua campanha, como a masterização horrenda que comprimiu as várias camadas instrumentais e atmosfera maravilhosa em um bloco do tamanho de um passarinho, tornando a experiência de ouvir com atenção aos detalhes e tentar capturar cada nuance do rico som dos caras em uma tortura sonora, especialmente pra audiófilos como eu, e a fluidez musical estranha. O poder que eu mencionei acima esta presente em todas as faixas, sim, mas é basicamente obstruído por quebras de fluxo em partes selecionadas do álbum que fazem com que o produto final não saia tão natural como os outros dois trabalhos do The Great Old Ones, por exemplo. Nada que estupre a qualidade do disco, porém.


Eu amei esse álbum. Das linhas viscerais de guitarra à la Altar of Plagues à atmosfera de cagar nas calças e não querer escutar essa bagaça de luz apagada, na pilha de estar sendo observado por seres do outro mundo, ‘EOD: A Tale of Dark Legacy’ consegue, como eu disse, capturar uma parte substancial da genialidade “Lovecraftiana” e traduzir em algo musicalmente amedrontador e ao mesmo tempo satifsatório. E é agora que aquele primeiro parágrafo choroso entra na análise; depois de tudo que escrevi, babando um ovo nervoso pros caras, ainda é impossível dar uma nota maior ao play por dois motivos: 1) não é tão bom como seu antecessor e, 2) peca em alguns aspectos técnicos. Mas não abaixa a guarda não, seu saco de vacilo, porque se relaxar muito o Starspawn vai te pegar, dilacerar esse bracinho de frango que você tem e despejar seus restos espalhados por R’lyeh, então atenda ao chamado de Cthulhu e aguarde seu despertar.  ph'nglui mglw'nafh Cthulhu R'lyeh wgah'nagl fhtagn!


Nota: 8.3


Formação: 

Sébastien Lalanne (baixo)
Xavier Godart (Guitarra)
Benjamin Guerry (Guitarra, Vocal)
Léo Isnard (Bateria)
Jeff Grimal (Guitarra, Vocal)

Faixas:

01. Searching for R. Olmstead
02. The Shadow over Innsmouth
03. When the Stars Align
04. The Ritual 
05. Wanderings
06. In Screams and Flames 
07. Mare Infinitum
08. My Love for the Stars (Cthulhu Fhtagn) (bonus track)


Redigido por Bruno Medeiros