terça-feira, 2 de agosto de 2016

Entrevista: Vítor Rodrigues (Voodoopriest)


Algumas bandas nascem para se tornar grandes e alguns músicos, parecem ter o estigma de realizar grandes trabalhos não importando quem os cerca. O Voodoopriest é uma dessas bandas que desde sua formação, parece predestinada a se tornar um grande nome da cena e Vítor Rodrigues, o vocalista do grupo, seja em sua ex-banda, o Torture Squad, ou a frente do Voodoopriest, nunca apresentou nada que não fosse de extrema qualidade.

Após mais de vinte anos de carreira, diversos álbuns gravados e uma trajetória pra lá de consistente, Vítor é um dos nomes mais respeitados do Metal nacional e continua sendo um poço de humildade e simpatia. O Mundo Metal realizou uma entrevista muito bacana com o vocalista e ela pode ser conferida a seguir.

Boa Leitura!

1 - Vítor, é uma honra para o Mundo Metal fazer esta entrevista, você é uma das grandes figuras do Metal nacional e é um cara super humilde, talentoso e com diversas histórias vividas ao longo dos anos. Sei que já deve ter respondido isso milhares de vezes, mas a primeira pergunta é sobre sua saída do Torture Squad, o que te motivou a deixar a banda e como foi tomar esta decisão?

Muito obrigado pela oportunidade em fazer essa entrevista e pelas palavras. Bom, essa pergunta com certeza foi aquela que mais respondi (risos), mas não tem problema nenhum porque faz parte da minha história. O motivo era fazer algo novo mas não sabia que seria tão rápido assim. Meu plano era dar um tempo, mesmo porque tinha perdido a minha mãe na época e isso de certa forma deu um baque grande na minha vida. Foi difícil, mas por um outro lado vejo que os fãs de metal ganharam duas bandas da pesada!


2 - Conte-nos como o Voodoopriest foi montado. A banda conta com grandes e experientes músicos da cena, como se juntaram e chegaram a decisão de formar um novo grupo?

Após centenas de mensagens maravilhosas por parte dos fãs, tanto nas redes sociais como no meu e-mail, isso me motivou muito a iniciar o processo de seleção de músicos para o meu projeto. Fiz várias listas e cheguei ao Covero e Renato De Luccas nas guitarras, Bruno Pompeo no baixo e Edu Nicolini na bateria. Com o passar do tempo, o comprometimento dos músicos foi crucial ao ponto do projeto dar lugar à banda Voodoopriest.


3 - A aceitação ao Voodoopriest foi muito grande e apenas com um EP e um álbum lançados, a banda já é considerada uma das grandes representantes do Metal nacional. Como é para você começar de novo, ter que percorrer todo o caminho novamente e como se sente em relação a esta ótima aceitação?

Em relação à ótima aceitação fico imensamente grato. A base de fãs que adquiri nos vinte anos de Torture Squad permaneceu fiel ao meu trabalho e sou eternamente agradecido por isso. Não é fácil recomeçar e trazer à luz uma nova banda mas existe algo da gente, e que eu agora entendo completamente, é que apesar das adversidades temos que continuar e acreditar sempre.



4 - O álbum "Mandu" foi com toda a certeza um dos melhores trabalhos lançados em 2014. O disco é conceitual e conta a história de um herói indígena, conte-nos um pouco sobre o conceito de "Mandu" e como chegaram a ele.

Quando estava iniciando minha pesquisa sobre qual tema seria abordado no nosso primeiro álbum, me deparei com uma resenha detalhada do jornalista piauiense Pedro Laurentino Reis Pereira falando sobre o livro Mandu Ladinoi de Anfrísio Lobão Castelo. Quando comecei a ler senti que daria uma ótima letra mas ao final dela percebi que daria um ótimo conceitual. Infelizmente não dispunha de muitas informações sobre o herói indígena porque as duas edições do livro não existia mais, e portanto comecei a montar a história de Mandu com as informações que eu tinha. Ou seja, foram muitas idas à biblioteca e montando a história como se fosse m quebra-cabeça. Foi desafiador mas o resultado final traduz a enorme satisfação que tenho desse disco. Sobre Mandu, ele foi um sobrevivente do massacre de sua tribo, os Aranis. Foi levado para um aldeamento jesuíta onde aprendeu latim, português, história e dessa forma ele pôde compreender as intenções do invasor branco. Ótimo estrategista, Mandu conseguiu deter o avanço dessas milícias por sete anos causando grandes problemas para a Coroa Portuguesa. Traído pelos índios Ibiapavas, Mandu foi alvejado com um tiro enquanto tentava salvar sua tribo. Caiu no rio e nunca mais seu corpo foi encontrado. Na parte instrumental já tínhamos algumas prontas e enquanto criávamos mais músicas fui adicionando as letras.


5 - Pretendem manter essa linha de álbuns conceituais futuramente ou não será uma regra?

É difícil de dizer porque vale muito do momento, da vibe. Mas, a priori, estenderemos um pouco mais o tema indígena que é riquíssimo com histórias fantásticas que ainda precisam ser contadas.


6 - Vocês lançaram todas as faixas de "Mandu" em formato de lyric vídeos e disponibilizaram no canal oficial da banda no Youtube. Assisti a todos os vídeos e achei a iniciativa sensacional, de quem partiu essa idéia e qual a intenção?

Valeu! Bom, a ideia dos lyrics vídeos foi de todos, mas o formato que foi apresentado foi do baixista Bruno Pompeo. Ele conhece aquele locutor que faz narrações de filmes e isso deu um lance bem legal nos vídeos. Como o álbum Mandu é conceitual, então foi natural a ideia de fazê-lo como se fosse capítulos de um filme. Aliás, uma curiosidade, na época da criação das músicas do álbum, rolou uma notícia de que o ator Paulo Betti estava seriamente interessado em fazer um filme baseado no índio guerreiro Mandu Ladino.


7 - Dois anos se passaram desde o lançamento de "Mandu", como anda o processo criativo do Voodoopriest, já trabalham idéias para novas músicas ou ainda é cedo?

O processo criativo é constante. Temos muitas ideias para o álbum novo e estamos sempre trocando ideias pelo e-mail. Não vejo a hora de entrar no estúdio para gravarmos o sucessor do álbum Mandu.



8 - Vítor, como uma pessoa que vive o underground diariamente, como você analisa a cena nacional hoje?

Bom, a cena existe e é forte. Você pode perceber que há shows e bandas fazendo seus discos, mas precisamos de uma renovação do público. Hoje temos uma geração voltada para a internet que vive atrás das telas dos computadores e celulares e não estão vivenciando esse universo. O underground brasileiro é forte, mas às vezes me pergunto onde estão aqueles fãs que lotam os festivais como o Monsters of Rock e demais shows internacionais. As bandas estão aí, os promotores de shows também, cabe agora ao público fazer a parte dele que é ir e prestigiar as bandas undergrounds.


9 - O Voodoopriest hoje faz parte do Levante do Metal Nativo juntamente com grandes nomes como Armahda, Arandu Arakuaa, Cangaço, Hate Embrace e outras. Conte-nos o que vem a ser o Levante e qual a sua importância para o Metal nacional.

O Levante do Metal Nativo nasceu da espontaneidade. A coisa foi se formando naturalmente. Quando lançamos o álbum Mandu, mantive contato com o Zândhio, guitarrista do Arandu Arakuaa e trocamos muitas ideias, ao mesmo tempo o Tato da banda Aclla entrou em contato comigo dizendo sobre o futuro disco deles, Pindorama, falaria sobre a chegada dos portugueses à terra de Pindorama, nome do Brasil em Tupi-Guarani, e ele também mantinha contato com o Zândhio e com o pessoal do Armahda, banda que faz um Power metal fantástico, à La Blind Guardian. Acrescentamos mais bandas que versam sobre a cultura indígena e história do Brasil e daí surgiu o Levante do Metal Nativo. A importância nós só saberemos com certeza no futuro, porém o Levante continua ativo e forte mesmo com a saída do Arandu Arakuaa por motivos particulares.


10 - Você é um dos músicos de maior experiência no Metal, quais os momentos que considera o ápice de sua carreira e o que Vítor Rodrigues ainda espera conquistar?

Existem muitos ápices que considero em minha carreira: A vitória no Wacken em 2007; subir e cantar Roots Bloody Roots com o Max Cavalera num festival na República Tcheca; e excursionar com o Overkill e Exodus em 2008. Todas foram muito especiais pra mim e guardo com muito carinho. Agora com o Voodoopriest quero continuar com um trabalho competente e arrojado para que eu tenha em breve mais momentos como estes que descrevi.



11 - Qual a dica que Vítor Rodrigues dá as bandas que estão começando agora?

Primeiro de tudo você tem que se perguntar se é isso que você quer fazer da sua vida. Se a resposta é sim então acredite até o fim. Não esmoreça nunca. Trabalhe muito e aprenda novas habilidades. Ler muito. Aprender inglês. Cuidar do corpo se exercitando. Por que tudo isso? Veja bem, para o pessoal que quer escrever e cantar em inglês, e que visa o mercado internacional, é de suma importância que aprenda a falar e a escrever corretamente. Dessa forma você conseguirá se comunicar perfeitamente com o público e torna sua apresentação mais profissional. Ler é outra dica importante porque gera conteúdo, e para a criação das letras é vital. Por fim, cuidar do corpo é uma necessidade, é a sua máquina, e com ela funcionando perfeitamente bem teremos energia para encarar viagens de uma cidade à outra, ensaios, shows em péssimas condições, enfim, invista em você e no seu talento.


12 - Muito obrigado pela entrevista e conte sempre com o Mundo Metal, espaço aberto para que deixe uma mensagem a amigos e fãs.

Caro Fabio Reis e amigos do site Mundo Metal, quero desejar a todos muita saúde e alegrias. Nós somos privilegiados por gostar de um estilo musical que nos alimenta com boa música. Não deixem a peteca cair. Vá aos shows e prestigiem as bandas nacionais. Precisamos muito do seu apoio para continuarmos criando música. Gratidão imensa por esse apoio. Vamos voodoozar!!!


Se você ainda não conhece o Voodoopriest, porém gosta de Metal extremo de qualidade, não perca mais tempo e faça a audição do álbum de estréia "Mandu", no canal oficial da banda. Link abaixo:


por Fabio Reis