quinta-feira, 30 de junho de 2016

Metallica - "Kill 'Em All" (1983) Uma análise diferente de todas as que você leu até hoje


Nosso grande amigo Luís Henrique Campos, escreveu esta verdadeira pérola sobre o primeiro disco do Metallica.
Boa Leitura!

A internet, veículo criado com a intenção de disseminar a informação, deu um tiro no próprio pé a partir do momento que, como veículo de massa totalmente aberto à opinião de todos, transformou-se num purgatório de desinformação, conceitos pré estabelecidos, irracionalidade e necessidade de fama.

O fator principal dessa derrocada do esclarecimento de um fato histórico é a famigerada teoria da conspiração, que é, por origem filosófica, a hipótese especulativa degenerativa onde pessoas em conluio (confrarias) em prol de interesses próprios, através de arquitetação premeditada e tendenciosa, tomam como arma de manipulação um evento de embuste, de pouco embasamento que contraria a compreensão da verdade, mesmo que essa não absoluta. São tão absurdamente manipuláveis que tendem a evoluir pelo mecanismo da "inclusão" de provas contra sua própria fundamentação, de forma que causem a aparência de não falseáveis, movidas muito mais pela fé do que por qualquer episódio evidentemente comprovado.

Todo esse discurso para podermos divagar, dissertar e chegar à razão do quão portentosa e prejudicial é a informação corporativamente linear, tipo o paradoxal "livre arbítrio", pra lá e pra cá, navegando num plano sem a possibilidade de um terceiro caminho, hipótese única de algo tornar-se sólido, tridimensional.
Mas o que essa porra tem a ver com Metallica? Divaguemos pois...

Apesar de o álbum "Kill'em All" ter muito pouco ou quase nada de thrash metal, é inexoravelmente indiscutível sua importância para a fomentação dos alicerces que comporiam mais tarde toda a estrutura de sustentação da vertente, conhecida como "pilares do thrash metal".

À época já era evidente a cultura da rebeldia e do anarquismo, contrários ao psicodelismo setentista de "viagens astrais" [sic!] do universo clássico e progressivo do rock'n'roll. O punk rock inglês, o kaltrock alemão e a ressurreição do rockabilly influenciaram a gênese da NWOBHM, mas esta estava acorrentada aos grilhões da filosofia "nadavê" e da inércia e a juventude clamava por algo menos destrutivo, mas que ao mesmo tempo fosse destruidor, podemos assim dizer. Daí o aumento da velocidade, o culto ao obscuro, a verdade dita nas entrelinhas, o speed metal tomando forma e ganhando força. No entanto, a pobreza poética do visceral speed fez surgir a necessidade de um ruído mais dinâmico e ao mesmo tempo mais distorcido.


Kill'em All agrega exatamente esses componentes: Lirismo anarquista de livramento a la Schopenhauer e Nietzsche, estrutura musical simplista e mentes assoberbadas, ideias principalmente discutidas e difundidas em porões e garagens de pouco acesso a curiosos e críticos.

Estava deflagrado o poder da liberdade: Liberdade em criar!
Não importa se o Metallica usurpou esse ou aquele riff, essa ou aquela harmonia. Não importa se Mustaine foi chutado de lá, visto que dois bicudos não se beijam, e o egocentrismo em pauta, tanto dele quanto de Lars, só poderia dar em dissidência. O que importa é que eles criaram. Algo magistral. Único em toda face da terra.

Kill'em All é o único álbum que conseguiu emplacar mais de 10 riffs pegajosos e viciantes numa lista "Top10 Riffs Mais Pegajosos e Viciantes de Todos os Tempos".

O que dizer do riff de "Hit the Lights"? Absurdo, não? E o riff de "The Four Horsemen", este criação de Mustaine, mas que em "The Mechanix", apesar de ser o mesmo, é frouxo e sem sal, mesmo com toda virtuose do pato, predicado que passa longe de Hetfield ou Hammett.

A cavalgada em "Motorbreath" é um grude só e, em "Jump in the Fire" é coisa de se ouvir um sem número de vezes consecutivamente sem enjoar.

Até a chatice inicial de "Pulling Teeth", que, na verdade, é coisa de arrancar-se vários dentes sem anestesia, deixa qualquer um extasiado (ou anestesiado) pra poder conter-se em sua cadeira e não sair por aí destruindo tudo a chicotadas, como sugere o riff de "Whiplash", este que considero o mais visceral e pegajoso de todos os tempos.

"Pahntom Lord" é na mesma pegada de "Whiplash" e, em "No Remorse", o riff batidão é bem sugestivo para aquela repetitiva martelada na cabeça quando arquitetamos algum plano mal intencionado que, se idealizado, não nos venha causar remorso algum.

Em "Seek and Destroy" consta o riff que por mais tempo pode habitar a cabeça de um mortal sem danificar seu já quase desmiolado crânio. É algo tão alucinante que os menos atentos nem percebem a sensação de ter-se algo grudado na mente sem que nenhuma força do universo tenha a capacidade de extraí-la sem deixar sequelas.

Pra fechar essa obra revolucionária, a ultra veloz "Metal Militia" com outro dos mais sensacionais riffs que a eternidade pode proporcionar. Isso sem contar os diversos riffs intermediários de diversas passagens do álbum, uma verdadeira rifferama orgasmático-auricular.


Toda essa narrativa pra lembrar a vocês, caros leitores, que a banda Metallica sobrevive graças a esta criação do longínquo passado e às tantas teorias conspiracionistas sobre seus integrantes e, principalmente, sobre as intenções megalomaníacas de seu líder e fundador Lars Ulrich, um empresário bem sucedido que conquistou seu império com trabalho árduo, mas fazendo as coisas que gosta: vendendo seu produto de gosto duvidoso a abestalhados headbangers de ocasião sob a batuta de sua obra primeira que rendeu-lhe (e aos demais componentes da banda) a fama necessária pra poder gozar a vida coçando os sacos, dele e de Hammett, como sugerem tais teorias.

"Kill'em All" é uma obra que um dia foi underground, lá pelos anos 80, pois a intenção dos garotos na ocasião era ser underground, era fazer o proibido, o pouco aceito pelas convenções, era dar vazão à liberdade, sem a interferência de abutres da midia e sem intenções clara e exclusivamente monetárias, e eu tenho a prova aqui em vinil. Kill'em All é uma obra que ainda é underground, pois, apenas aqueles que realmente conhecem sua criação dão o devido valor. Aqueles que citam o debut do Metallica movidos pela onda da massificação são, verdadeiramente, papagaios de pirata que querem sair na foto, mesmo que de caricatura estereotipada, confundidos pelas semelhanças e ignorados pela pouca importância. Eu conheço vários fanáticos xiitas da banda e, quando os questiono sobre a história da mesma, quase, se não todos, desconversam como religiosos quando encurralados sobre sua incoerente crença, porém, quando pressiono não vejo os hits de "Kill'em All" nas playlists de seus celulares "funkeiros" e "alvejantes setefloristas: "- O importante é que eu curto o som dos caras!" é o que dizem.

Esqueçam o vindouro álbum da banda! Não será merda que o valha. Essa é a predisposição de uma banda que esqueceu o que é feeling, alma, liberdade. Umas das tantas que hoje não valem 30 moedas. Não porque sejam traidores de qualquer movimento anarquista, mas pelo abuso da autoridade e glória que a eles não mais pertence.


Integrantes:

Lars Ulrich (bateria)
James Hetfield (vocal e guitarra)
Kirk (guitarra)
Cliff Burton (baixo)

Faixas:

 1. "Hit the Lights"   
 2. "The Four Horsemen"   
 3. "Motorbreath"   
 4. "Jump in the Fire"   
 5. "(Anesthesia) Pulling Teeth (Instrumental)"   
 6. "Whiplash"   
 7. "Phantom Lord"   
 8. "No Remorse"   
 9. "Seek & Destroy"   
10. "Metal Militia" 

por Luis Henrique Campos