quarta-feira, 5 de julho de 2017

Kamelot: do menos expressivo ao melhor álbum


A sessão “do mais fraco ao melhor” foi criada com o objetivo de tentar elencar os álbums de determinadas bandas, do menos expressivo ao mais significativo. Os critérios usados para o ranking são diversos, como aceitação crítica do álbum em questão, importância do lançamento para a época, nível técnico em comparação a outros trabalhos da banda e fator diversão (obviamente), entre outros. Note que não há aqui certezas ou leis, apenas uma análise feita por mim para decidir a ordem dos álbums baseado nas informações acima e, portanto, se seu álbum favorito estiver abaixo no ranking ou se aquele play que você acha uma merda estiver bem posicionado, lembre-se que a música é uma forma de arte subjetiva e pessoal, e não uma ciência exata. De qualquer forma, tentarei potencializar ao máximo os critérios técnicos acima e minimizar interferências pessoais.


Voltando aos trabalhos em alto estilo, essa semana vamos dissecar a discografia de um dos maiores expoentes do Prog/Power Metal em todos os tempos. Formada em 1991 por seu principal letrista e exímio guitarrista Thomas Youngblood, o Kamelot ganhou notoriedade internacional quando o primeiro vocalista Mark Vanderbilt e o baterista Richard Warner saíram da banda em 1997 por não terem disponibilidade para turnês e Youngblood recrutou o então prodígio e ex vocalista do Conception Roy Sætre Khantatat (ou simplesmente Roy Khan) e o garoto Casey Grillo. A partir disso, a sonoridade tomou um outro corpo e o lado épico se aliou ao Power progressivo dos primeiros trabalhos, resultando em verdadeiras obras-primas nos álbuns que vieram a seguir. Em sua terceira fase – já sem os dotes de Khan e sua teatralidade -, o Symphonic Power entrou em cena e continuou mantendo os estadunidenses no topo da cadeia do estilo, e os caras não mostram sinais de parar tão cedo. Vejamos então o que é bom, o que é ótimo e o que fica abaixo nessa discografia tão heterogênea!

Nota do redator: Álbuns ao vivo, Demos e singles não são contabilizados no ranking


11 – Dominion (1997)


Segundo álbum de estúdio dos nativos de Tampa, ‘Dominion’ é o último a contar com Mark Vanderbilt e Richard Warner. Talvez as músicas do play tenham sido escritas na mesma época que ‘Eternity’ saiu, tamanha é a semelhança entre as composições (inclusive, muitos chamam os dois álbuns em questão de “irmãos”). Apesar de não ser ruim e contar com clássicos dos caras como “One Day I’ll Win” e “We Are Not Separate”, mostra um Kamelot ainda tentando encontrar sua identidade e derrapando aqui e ali, além de contar com uma produção e mixagem inferiores ao debut.

10 – Poetry for the Poisoned (2010)


Era claro que havia algo de diferente com o humor e gênio do místico Roy Khan quando ‘Poetry for the Poisoned’ foi lançado. Considerado como o álbum mais sombrio e depressivo da história do Kamelot, o trabalho dividiu opiniões e o choque de composições em relação aos plays anteriores acabou por machucar o produto final. Há, contudo, momentos de brilho como “The Great Pandemonium” e “Once Upon a Time”.

9 – Eternity (1995)


‘Eternity’ é talvez o álbum mais injustiçado e esquecido pelos fãs do Kamelot. O lançamento nos proporcionou um dos maiores hinos já compostos por Youngblood em “Call of the Sea” (o que é hoje, inclusive, ignorado pela própria banda nos shows, o que considero uma heresia) e mostra o lado progressivo dos integrantes, cheios de energia e vitalidade. “Black Tower”, “Proud Nomad”, “One of the Hunted”...é praticamente impossível ver uma música ruim na peça!

8 – Silverthorn (2012)


Primeiro álbum com Tommy Karevik (Seventh Wonder) à frente da banda, ‘Silverthorn’ levantou dúvidas sobre se o Kamelot conseguiria continuar o alto nível de lançamentos sem Khan. Apesar de não ser tão forte quanto os álbuns do começo dos anos 2000, o trabalho mostrou ser suficientemente capaz de levantar os ânimos mais uma vez com melodias certeiras como “Sacrimony (Angel of Afterlife)”, “Torn” e a magnífica e agressiva “Veritas”, uma das melhores em muito tempo. Boa reviravolta.

7 – Haven (2015)


Os elementos sinfônicos foram abraçados por completo na nova fase do Kamelot, mas Haven consegue balancear bem os momentos opulentos com faixas mais diretas e despretensiosas. Fica claro aqui que a adição de Tommy Karevik para substituir o insubstituível Roy Khan foi a escolha mais sensata, já que o timbre e poder vocal do Sueco fazem jus ao nível de qualidade pretendido por Youngblood e companhia. De músicas grudentas como “Fallen Star” e “My Therapy” a pedaços agressivos como em “Liar, Liar (Wasteland Monarchy” e “Revolution” (ambas com a participação da hoje frontwoman do Arch Enemy, Alissa White-Gluz), há um pouco pra cada gosto em ‘Haven’.

6 – Siége Perilous (1998)


O debut de Roy Khan e Casey Grillo não marcou tanto na época de seu lançamento, mas é lembrado hoje como um dos melhores trabalhos do Kamelot pela crítica, seja por nostalgia ou por aliar perfeitamente o Power Metal com os princípios progressivos. As poderosas “Millenium” e “King’s Eyes”, a inteligente “Providence”, os hinos “The Expedition” e “Once a Dream”...tudo se encaixa em perfeito uníssono num álbum criminalmente marginalizado pelo fã casual, mas corretamente apreciado pelos conhecedores da discografia do Kamelot.

5 – Ghost Opera (2007)


Suceder ‘Epica’ e ‘The Black Halo’ é uma tarefa ingrata. O suquinho da criatividade, porém, estava farto na mesa de Youngblood e companhia, que haviam recrutado o tecladista Oliver Palotai como membro fixo da banda após o grandioso ao vivo ‘One Cold Winter’s Night’ de 2006, por isso ‘Ghost Opera’ veio como uma bala e atingiu em cheio os fãs na forma de um álbum mais sombrio e sinfônico que seus antecessores. A performance individual de Khan rouba a cena e injeta doses de emoção nas letras e composições, como de praxe. Desde “Rule the World” ao final divertidíssimo em “EdenEcho”, os caras conseguiram criar uma obra vencedora mais uma vez.

4 – The Fourth Legacy (1999)


‘The Fourth Legacy’ mora no fundo do meu coração e – junto de ‘Epica’ – é meu álbum favorito do Kamelot. Talvez o único trabalho dos estadunidenses 100% Power Metal, a obra é completamente abarrotada de músicas acima da média, cativantes e inspiradíssimas. O tom e o pitch da voz de Roy Khan são impecáveis e o frontman alcança as maiores notas de seu tempo com o Kamelot aqui (ver “Nights of Arabia”), Youngblood derrete cérebros com riffs viciantes e feeling único e a cozinha perfeita de Casey Grillo e Glen Barry são a cereja do bolo. Destaque especial para a parte final do álbum, que conta com as maravilhosas “Alexandria”, “The Inquisitor” e “Lunar Sanctum” – minha música favorita da banda.

3 – Karma (2001)


Deixo claro que, ao meu olho crítico, o quarteto de trabalhos lançados entre 1999 e 2005 pelo Kamelot são obras-primas, e a ordem do primeiro ao quarto colocados no ranking foi decidida depois de muito tempo pensando e pesando vários aspectos. ‘Karma’, mostra uma banda extremamente focada em criar músicas divertidas, épicas e viciantes, e o produto é extremamente satisfatório. Contendo a canção que talvez seja a mais conhecida e aclamada pelos fãs, ‘Forever’, além de verdadeiros hinos do Power Metal como “Wings of Despair”, “Across the Highlands”, as belas “Don’t You Cry” e “Temples of Gold” e a genial trilogia “Elizabeth” – isso tudo sem mencionar a majestosa faixa-título -  fica fácil exaltar essa pepita de ouro.

2 – The Black Halo (2005)


O final épico da rendição do Kamelot sobre a lenda Germânica Fausto, ‘The Black Halo’ eleva o lado sinfônico e melódico da banda à última potência com hits como “The Haunting (Somewhere In Time)”, “March of Mephisto” e “Soul Society”. Mas é nas partes épicas (não o álbum, esse já já falamos) que Khan, Youngblood, Grillo e Barry brilham: “Memento Mori” e “Serenade” chegam a ser falta de educação com outras bandas, de tão maravilhosas. Poético, inteligente e genioso, ‘The Black Halo’ coroou o pico criativo do Kamelot.

1 – Epica (2003)


Curiosamente, não há muito o que se dizer quando algum artista consegue atingir um nirvana criativo. É algo tão raro, mas tão raro, que quando acontece nos vemos obrigados a buscar palavras pomposas no dicionário ou explicações mirabolantes pra justificar o feito, e quase sempre em vão. Divertido, grudento e melódico, mas denso, profundo e erudito, ‘Epica’ transcende o Heavy Metal e pode facilmente rivalizar com os melhores trabalhos fonográficos de todos os tempos, sem demagogia. De momentos despretensiosos e minimalistas em “Center of the Universe”, “Farewell” e “The Edge of Paradise” a passagens de inteligência assustadora como em “Descent of the Archangel”, “The Mourning After (Carry On)” e “III Ways to Epica”, o Kamelot conseguiu criar uma jóia perfeita. Bravo.

Por Bruno Medeiros