quarta-feira, 20 de julho de 2016

Declínio e Renovação no Metal


Todo fã que acompanha de forma assídua o que acontece de mais importante no universo do Metal, todos os dias se depara com ótimos álbuns dos mais variados subgêneros e das partes mais remotas do globo. Os bons observadores percebem que muitos destes discos não são lançados pelos grandes ícones do passado, mas por uma nova geração repleta de qualidade e características tão específicas, que acabam sendo os grandes destaques em meio a bandas pra lá de consagradas.

Seja no Thrash Metal, Death Metal, Hard Rock, Heavy Tradicional ou qualquer outro estilo, a grande verdade é que muitos dos ícones máximos e medalhões estão se encaminhando ou já se encontram em final de carreira. É claro que existem exceções, porém grande parte deles vem lançando trabalhos que, de certa forma, acabam por decepcionar ou simplesmente não empolgar mais como antes. Talvez este fato se explique pelo longo tempo de estrada, pelo cansaço natural propiciado pela idade avançada de alguns músicos ou simplesmente pelo pique não ser mais o mesmo, mas o grande fato é que muitas destas bandas exibem nítidos sinais de cansaço.

Em contrapartida, após a enxurrada de ótimas bandas que despontaram nos anos 80 e começo dos 90, nunca tivemos uma nova safra tão afiada e promissora quanto esta atual. Analisando friamente, dois grupos se formaram, de um lado os veteranos se aproximando do fim de suas jornadas musicais e possuidores de carreiras sólidas, de outro, novas bandas cheias de vigor, com anos e anos ainda pela frente e lançando grandes trabalhos, tentando assim, firmar-se no disputado mercado da música pesada e obtendo um destaque momentâneo por suas atuais condições criativas.


Há alguns anos atrás seria impossível pensar em bandas que pudessem suprimir a falta que os gigantes incontestáveis do Metal iriam fazer quando o tempo de suas aposentadorias chegasse. Hoje em dia, ao menos em termos de qualidade musical, me sinto confiante e seguro ao afirmar que existem bons grupos, capazes de representar o Heavy Metal de forma digna. O grande problema ao comparar o quadro que temos presenciado no decorrer de todos esses anos se dá quando pensamos no fator monetário. As bandas que tiveram seus ápices nas décadas de 70, 80 e meados dos anos 90, se tornaram verdadeiras máquinas de ganhar dinheiro, monstros em termos de marketing. O Rock e o Metal teve um pico de popularidade inigualável nesta época e grupos como Kiss, AC/DC, Metallica, Iron Maiden e tantos outros, elevaram suas condições de forma a se tornarem empresas multimilionárias.

Não creio que tal pico se repita por que depois da grande ascensão, o Metal retornou ao seu ponto de partida, o underground, e por mais que as novas bandas possuam qualidade de sobra nos quesitos musicais, dificilmente conseguirão "substituir" os veteranos no quesito popularidade. Acho inconcebível acreditar que um grupo que iniciou atividades nos dias de hoje, consiga equiparar-se com a grandeza de um Black Sabbath por exemplo. O fator pioneirismo não existe mais, o Metal voltou a ser um estilo musical pertencente aos porões mais escuros e as exceções ficam por conta dos gigantes ainda em atividade. 

Generalizando, o estilo possui um público muito específico e fiel que sem o apoio da grande mídia, conseguirá se manter e permanecer existindo como o gênero rentável que sempre foi, mas dificilmente atingirá a grande massa consumidora, o público comum e não apenas aquele que consome Rock ou Metal. Se tomarmos este pensamento como uma realidade, temos uma situação totalmente inédita prestes a se iniciar.


Com a iminência dos grandes ícones estarem a poucos passos de ir jogar golf e curtir férias com suas famílias (leia-se, se aposentar), o público headbanger precisa se conscientizar que precisará se reeducar musicalmente e sair de sua zona de conforto. Isto quer dizer, parar de encarar o atual momento de alguns dinossauros do Rock como se os mesmos estivessem em seu auge criativo, mas sim enxergar que eles estão chegando ao ponto crucial de suas trajetórias e existem nomes excelentes surgindo a todo momento. 

Vou citar um pequeno exemplo do que ocorre nos dias de hoje, o Iron Maiden, uma referência no Heavy Metal desde a época da NWOBHM, vem se mantendo no topo da cadeia alimentar do Metal devido aos seus álbuns que marcaram época no passado. Em 2015, lançaram o seu novo registro, "The Book Of Souls", e todas as atenções se voltaram para ele, não julgarei a qualidade do disco, mas ressaltarei o que ocorre na contramão desta situação, os estadunidenses do Visigoth e os suecos do Enforcer, lançaram dois grandes álbuns, respectivamente "The Revenant King" e "From Beyond", ambos também de Heavy tradicional e ambos, pertencentes a nova geração do gênero. Para a imensa maioria dos fãs, tais lançamentos passaram despercebidos simplesmente por que as bandas não possuem o mesmo trabalho de marketing eficaz e não ostentam um nome tão tradicional como o do Maiden. É claro que Donzela ainda possui alguns bons anos de carreira pela frente, mas colocando como uma hipótese, se o grupo não estivesse em atividade e portanto, jamais lançado "The Book Of Souls", será que o tratamento aos novos registros de Visigoth e Enforcer teriam sido diferenciados ou os headbangers simplesmente deixariam de ouvir lançamentos de bandas novas?


O que parece é que as pessoas simplesmente se programaram a esperar os lançamentos das mesmas bandas de sempre e os engolem goela a baixo, sem se preocupar realmente com o quão bom sejam. Afinal, sendo bom ou ruim é o Iron Maiden e isto já basta para muitos. Não me entendam mal, a questão aqui não é a qualidade de "The Book Of Souls", mas sim se você escutou com a mesma atenção os dois outros citados. A comparação só ocorreu por serem álbuns de um "mesmo estilo" e terem sido lançados no mesmo ano. Caracteriza uma banda veterana em fim de carreira e outras mais novas em ascensão, justamente o tema central de nossa dissertação.

Este ano, temos o Black Sabbath pendurando as chuteiras, anúncios de que o Manowar, Whitesnake, Aerosmith e Scorpions deverão parar em 2017, isso sem contar a trágica morte de Lemmy Kilmister no final de 2015, pondo um fim ao lendário Motorhead. O que nos resta? Kiss, Iron Maiden, AC/DC (sem Brian e Malcom), Metallica (há 8 anos sem lançar um álbum), além de alguns outros nomes que estão na ativa com formações remendadas e sem os seus principais integrantes...

Precisamos entender que os grandes ícones da música não durarão para sempre!

Alguns dão nítidos sinais de cansaço e exaustão e temos excelentes bandas que podem representá-los dignamente, não estou falando de substituição, mas de renovação. Iminente, necessária e imparável. Sem o apelo comercial que estes gigantes possuem, a nova safra vai depender muito de um público realmente interessado, que busque conhecer e saber das novidades, o Metal permanece forte, porém nunca esteve tão próximo de perder uma grande parte de seus maiores expoentes. 

Já pensaram o que farão quando isso acontecer? Deixar que o gênero caia no esquecimento, ouvir apenas álbuns antigos e proclamar que "apenas na década de 80 se fazia música de verdade"... ou apoiar os novos nomes, as bandas que futuramente serão as grandes responsáveis por carregar a bandeira do gênero para que as próximas gerações possam usufruir de música pesada de qualidade?

Reflitam.


por Fabio Reis